terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A GESTUALIDADE E O PATRIMÓNIO

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Manuel Florêncio participa habitualmente na "grande roda de amigos",via telefone, tocando modinhas com as várias "gaitas" que tem. De quando em vez, compra uma nova e exibe-a no toque, pelo modo cuidadoso como lhe pega, pelo brilho que por estar em folha ela tem. Mas quando se proporciona, vai pessoalmente ao Património mostrar a sua arte de sopro, feita de melodia e de gestualidade.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VENHO DA ILHA DOS VIDROS


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Há menos de duas décadas, era impensável ver um jovem tocar a viola campaniça. Da tradição só restavam alguns velhos tocadores e poucos instrumentos antigos , por quase todos ignorados. Com o Património demos visibilidade à arte do toque e no âmbito das actividades da Cortiçol, demos o merecido protagonismo aos mestres.


Assim, nos dias de hoje, para agrado de todos e para garantir a continuidade de parte importante da nossa realidade cultural, podemos assistir com deslumbre ao retenir das campaniças nas mãos de jovens interpretes.


O CANTE - UMA CULTURA VIVA


Ainda são muitos, os homens, as mulheres e algumas crianças que nas suas vidas encontram espaço para preencherem com o misto de sentimento e devoção a que chamamos cante.


Agrupam-se em coros, vestem-se de maneiras diversas, mas todos se irmanam pelo gosto de fazer chegar mais longe, ao tempo vindouro, os traços, os gestos, a poesia, as sonoridades, as memórias e a maneira de ser e de sentir o pulsar da identidade comum que os congrega em torno de uma cultura viva.



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PELO TOQUE DA VIOLA



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Juntam-se aos magotes, seguem com o olhar as palavras soltas pelo ponto, poesias já sabidas, mas sempre escutadas como se fossem novidade. Depois, cerram os olhos e do fundo do peito arrancam as sonoridades próprias de cada moda, tudo com preceitos aprendidos, nos mesmos modos, há muito firmados, continuamente repetidos, dentro das regras do bem cantar.



O CANTE DAS JANEIRAS

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O inverno veio temporão e rijo. Os regatos ,barrancos e ribeiras que ainda há pouco eram de pó , ressequidos por um estio agreste, começaram cedo a correr e depois a esvarjar já que a terra aqui é magra e não tem fundura bastante para suster grandes correntes.
A humidade começou a entranhar-se nas casas ,nas paredes, nas madeiras e os ladrilhos do chão desfazem-se em água.
Junto às paredes mais sombrias ,o musgo agarrado ao cafelo sobe barras acima. Chove há dias a fio e parece não querer despegar. Muitas sementeiras ficaram a meio. A azeitona varejada pelas ventanias vai ser uma dó de alma perdida na erva. O trabalho está por fazer mas não escampa.
Homens ,mulheres e miúdos à mingua do sustento começam a circular aos sábados de tarde pelas ruas da vila, no cortejo dos pedintes, em regra composto por velhos desamparados ,viuvas sem meios e muitos indigentes por outros motivos.
Às portas dos quintais das casas mais abastadas o grupo pára ,um da dianteira bate ,todos aguardam a dádiva logo ali quinhoada por cabeça.
Depois seguem,numa procissão de amargura enchendo as ruas .
Predominam as roupas escuras porque os lutos se prolongam vida fora. È a pobreza e a desesperança a desfilar em busca de um trago de alento para suportar a frieza que os mantolhos e as sacas de guano feitas agasalhos não debelam.
Levam pães repartidos aos quartos,umas quantas laranjas,tostões atados numa ponta do lenço,bilhas de azeite com um pico a ranço que é o que se dá, marmitas com as raspas das panelas da banha já amarelada, agora despejadas para a nova safra e um pouco mais de tudo o que possa comer-se e acalmar a fome.
Porque é Natal algumas senhoras oferecem costas de torresmos e outras dobradas ,feitas de propósito.
Porque é Natal algumas senhoras vestem os mais pobres dos pés à cabeça.
Porque é Natal algumas senhoras não negam um madeiro e uns gravetos que as mulheres arrancam dos monturos e carregam como formigas, pendidas , cambaleando, mas incapazes de desistir do carreguio.

E o tempo passa sem que escampe. Os dias sucedem-se sem trabalho nem ganho.
A tristeza não cede à bondade da quadra e os rostos ficam ainda mais marcados pela desventura.
Logo à noite há missa do galo e alguns homens vestidos de peliça, vão entrar na igreja para cantar ao menino .Não rezam nem se sentam. Ficam cá atras ,de pé ,junto ao guarda- vento ou vão para as coxias, os mais atrevidos .
É também assim por ocasião da procissão da padroeira. Desta feita até com maior respeito e aprumo, porque a missa do galo, dada a hora tardia em que é celebrada, propicia a participação de gente já tocada e que ainda faz às vezes circular à socapa pela companhia uma garrafinha de aguardente.
Amanhã pela manhã ,nesta terra, poucas são as crianças que vão acordar curiosas para desembrulhar as prendas do sapatinho.
Os que tiverem era dita ,vão encontrar na chaminé, junto ao borralho ainda morno da fogaça da noite, as prendas que o menino Jesus pobrezinho conseguiu juntar.
Caixinhas com meia dúzia de lápis de côr , cadernos escolares ou sebentas, laranjas, rebuçados peitorais, bombons ,lápis de chocolate, ratinhos de chocolate com rabinhos de linha de meia, tabletes minúsculas decoradas com cromos que por sua vez servirão para enfeitar os livros e outras raridades como estas, vão deliciar os miúdos ávidos de um mimo.
Daqui a uma semana ,mesmo que chova e continue a não haver trabalho, entramos na década de sessenta. Até lá, todas as noites, encobertos no breu e nas vestes , grupos de homens e de mulheres vão cantar de porta em porta o ano bom.
Venho-lhe dar os bons anos
Que as boas festas não pude
Venho a fim de saber
Novas da sua saúde
Depois batem e não precisam pedir porque as portas geralmente abrem-se uma nesga para trazer a esmola ou de par em par para mandar entrar os cantadores e estes comerem à mesa, fartos, filhós, bolos de erva doce e outras iguarias da época acompanhadas por cálices de vinho abafado ou de anis escarchado.
Uma paragem aqui em casa de amigos, outra mais adiante à porta de quem tem para dar.
Já que Deus me fez tão pobre
Venho esta a pedir
De casa de gente nobre
Sem esmola não hei-de ir
Conforme a circunstância,assim saiem as chacotas cantadas numa toada de encanto e suprema beleza.
De monte em monte,ou de rua em rua, os grupos como sombras cortam o escuro e espantam o silêncio. O palratório calava-se ao pé dos portais e aí recomeçava o cante.
Toda esta noite aqui ando
Com os pés pela geada
A barriga vai vazia
E a talega não trás nada
Mas geralmente trazem. Pão, azeitonas ,moedas, azeite, laranjas e linguiças. Já se fizeram as matanças e as linguiças estão ali mesmo à mão no fumeiro.
Daqui donde eu estou bem vejo
Um canivete a bailar
Para cortar a linguiça
Que a senhora me há-de dar
O respeito pelo luto obriga muitas vezes a bater primeiro às portas desconhecidas e perguntar: Quer que cante ou que reze?
E assim se cantam as chacotas , reza quem sabe ou se canta a oração das almas, um cântico de profunda tristeza que faz apelo à bondade e à generosidade dos vivos em benefício do descanso eterno dos idos.
Passado o ano, daqui a dias, vai começar o cante dos reis ,são "os cavalheiros", com poesia sacra ,uma outra sonoridade, mas com os mesmos preceitos e intentos.





O MESMO CRENÇO

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As vozes das modas, dos trabalhos , dos bailes e das folias, nesta quadra mudam o timbre, elevam-se numa religiosidade particular, sua, mantêm a mística e continuam a encantar com a sua beleza, dentro de uma igreja ou numa arruada, com igual entrega, com o mesmo crenço.

CAMPONESAS CANTAM AO MENINO


Cumprindo a tradição dos Cantes de Natal, "As Camponesas", há mais de 25 anos, mantêm vivos os cantes alusivos à quadra e ontem à noite actuaram na Basílica Real em Castro Verde
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domingo, 27 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 3

A riqueza da alma de um povo, define-se pela sua capacidade de empreender, pelo seu gosto em realizar, pela espontaneidade como se manifesta, quer em descantes, quer em poesias, ou na forma como se agrupa, para produzir um qualquer tema musical.

Que estes gestos simples não se percam, que a imaginação não desapareça da vida das gentes e que a vontade de ser autor e intérprete não se desvaneça para que também, a nossa identidade cultural, não seja letra morta num próximo futuro.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ROSTOS E VOZES

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"OS CARAPINHAS" NO PATRIMÓNIO

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"Os Carapinhas" de Castro Verde, são um grupo coral e etnográfico infantil constituído em 27/3/1987, no âmbito das actividades da "Castra Castrorum" - Associação de Defesa do Património Natural e Cultural do Concelho de Castro Verde que cessou as suas iniciativas aquando do surgimento da Cortiçol.

"Os Carapinhas" no já distante ano de 1987, chegaram, cantaram e encantaram. Tiveram a sua primeira actuação publica no dia 10/6/1987, por ocasião do 64º Aniversário da Casa do alentejo em Lisboa. Poucos dias depois, em 20/6/1987, participaram no Concurso de Cantares Alentejanos em Beja, donde trouxeram o primeiro lugar no concurso do trajo.

A VIOLA CAIPIRA

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CANTA-SE SEMPRE...

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Depois do repasto, apetece sempre cantar. E canta-se sempre. Vão-se buscar as modas mais apetecidas, umas ensaiadas outras não.

Cantam ,assim, desalinhadas, para si mesmas, porque cada uma delas, supera-se ao deitar cá para fora as vaias, as sonoridades de um cante d´alma que ainda é mais sentido quando é vivido num qualquer contexto de espontaneidade, gerado fora dos palcos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

DA TRADIÇÃO AO POPULAR


Hoje, preenchemos a primeira parte do Património falando de uma parceria que viabilizou e possibilita o ensino da construção e do toque da viola campaniça em Castro Verde e ouvindo belas modas interpretadas pelos nossos jovens convidados .


Novos Tocadores de Viola Campaniça com o Mestre
Tivemos ainda oportunidade de voltar a apreciar as vozes de destemidos cantarristas e tambem exímios tocadores de campaniça

Grupo "Modas à Campaniça"
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 2

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...E foram muitos os poetas que pelo Património passaram, deixando no ar os seus trabalhos de profunda inspiração, numa mágica de sabedoria e arte...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 1


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Ao longo de duas décadas, pelo Património, passaram milhares de obreiros da cultura que temos. Muitas crianças que hoje são adultos, mais ainda os adultos que agora já não temos para podermos admirar, pelo que diziam, pelo que cantavam ou tocavam. Neste tempo de memórias breves, em que tudo se apaga ao virar da esquina, importa ,mais do que nunca, reter motivos para apreciar e aprender com quantos foram autores ou intérpretes de saberes e artes que são o bastião da nossa coesão cultural.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

NOITE DE MEMÓRIAS E DE PRAZER

Ao bater das nove, saiu o indicativo e fizemos a abertura.
Tinham já entrado as convidadas, "AS CEIFEIRAS" de Entradas, que foi quem nos trouxe o encanto do cante.
Um projecto muito recente que incorpora várias gerações de interpretes, com especial prevalência de vozes jovens. Uma excepção em todo o panorama etno-musical do Alentejo.

Ouvimos poesia dita pela autora, Leonete que de Entradas também veio com o João, jovem tocador de Viola Campaniça.

Nas segunda e terceira horas do programa, deliciamo-nos com memórias gravadas há quase vinte anos e agora repostas, para que o esquecimento não apague nomes e valores da cultura local.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O CANTE


As letras, as palavras ditas, são o que menos importa .Por isso, neste cante, as sílabas derretem-se, prolongam-se desmedidas, só sustidas pelo fim do fôlego e no ar, enleiam-se umas nas outras como silvas , num emaranhado onde se perde o sentido do sentir do poeta que escreveu a rima.
Apesar disso, todos acompanham vibrantes de emoção a sonoridade projectada pelas bocas que ora se escancaram como cocharros ora se cerram como frinchas, para soltar no devido tempo as vaias precisas, impostas, em cada momento da moda. Assim é, porque todos, têm retidos na memória os versos ouvidos em repetições infinitas ,em insistências incontáveis. Escalfam-se as gargantas num afã de teimosia , numa mística de paixão ,num querer incessante de fazer ecoar como preces ou ladainhas as mesmas melodias para sublimar agruras, infortúnios ou tristezas e só muito raramente, para marcar estados de júbilo. Não precisam de explicitar os vocábulos, nem tornar perceptíveis os versos, porque a grandiosidade das obras que interpretam está contida na sua sonoridade .È a melodia que tudo diz, é ela que tão bem sugere , elevando consigo os interpretes aos píncaros da emoção, numa embriaguez que os tolda e os enlaça , formando magotes, desenhando esculturas de corpos numa fusão quase irreal.
Para tanto se abraçam, e o grupo em simultâneo, arfa como um fole, tomando o ar, retendo-o, expelindo-o depois , no estender manso das vaias . Precisam sentir em conjunto a sua doçura, deleitam-se na mistura dos tons, excedem-se na magia do coro.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A ESCOLA

A escola era a primeira grande contrariedade da nossa vida. Se calhar, foi assim desde sempre e até há bem pouco tempo, quando a moçada inverteu as regras e passou a dominar, exigindo com gritos e prantos, tiranizando com rebeldia e desassossego. Mas dantes, a escola era o verdadeiro desmame, o largar as saias, o caminhar sozinho, balsa às costas, para aprender a ser homem, numa caminhada que se completava mais tarde, depois das sortes, a marchar em pelotão, espingarda às costas.
Os primeiros gatafunhos eram feitos numa pedra de ardósia encaixilhada a madeira de cor natural que depois ía escurecendo e ganhando lustro com passar do tempo e dos dedos, às vezes besuntados de agarrarem o pão com banha salpicada de açúcar. Os lápis eram da mesma pedra , muito redondinhos e afilados, do tamanho de um palmo, forrados a papel numa das pontas, num axadrezado verde, vermelho ou azul, de tons desbotados, talvez pela cola.
Quando se acabavam os compradiços, faziam-se de talisca, raspados à faca e rolados no chão para os adelgaçar e lhes arredondar a forma. Usava –se como acessório um frasquinho de remédio vazio, para encher com água e depois molhar num farrapo com que se limpava a escrita. Era esse o bom proceder, mas muitas vezes acontecia usar-se o cuspinho e a manga da blusa para o mesmo efeito.

Com as brincadeiras, empurrão de um moço, chulipa de outro, rasteira ou escorregadela do cardado das botas nas calçadas polidas, vinha a balsa ao chão e a pedra partia-se. Um pranto até casa, baba e ranho com fartura, queixas e mais queixas para comover, depois, tareia, perdão ou castigo e com muita sorte, lá se arranjavam dez tostões para comprar outra, novazinha, para no outro dia mostrar. Ao professor os trabalhos. Aos colegas a brancura da moldura, ainda sem dedadas nem borrões de tinta.
Pior do que tudo, ainda pior do que disciplina do erguer bem cedo, do estar comportado horas a fio sentado numa carteira, dos trabalhos de casa, da falta de tempo para a brinca, eram os maus tratos que os professores davam. Empinar a tabuada numa cantarolada colectiva, saber conjugar os verbos num recitar decorado, desfiar os nomes dos rios, das serras e das estações dos caminhos-de-ferro, daqui e dalém mar em África, era empresa pequena face à afronta da sujeição de se estar uma manhã inteirinha à janela da escola com as orelhas de burro enfiadas na cabeça. Mas mais custoso ainda, eram as ponteiradas fazedoras de galos que nos arrepiavam mesmo quando estoiravam nas cabeças dos outros.
E as meninas de cinco olhinhos, palmatórias concebidas para extrair uma dor máxima de quem as experimentava, com o esforço mínimo de quem as manobrava, eram verdadeiros objectos de tortura que o próprio sistema acabou por proibir.
Mas sucederam-lhes as réguas, de pau-santo ou madeira rosa, bem grossas e pesadas que era para fazer arder. Os professores tiravam as malditas, de um castanho avermelhado, da gaveta da secretária no princípio do dia e estendiam-nas ao seu lado, em cima do tampo, bem à vista de todos.
Eram os problemas mal resolvidos, os erros dos ditados, as falhas de memória, o azar de se ser criança em tempo cinzento que davam azo a tanta reguada. Havia tabela. Tantas por cada erro e tantas por cada conta mal feita. Tantas por isto e outras tantas ou ainda mais por aquilo. O bater fazia parte das regras, como agora faz parte não contrariar os miúdos e deixá-los ter o protagonismo todo.
Mesmo os pais, numa atitude de alguma inferioridade, subserviência ou temor reverencial face ao professor, não raro diziam ou mandavam o recado: chegue-lhe! As que caem no chão são as que se perdem! Desde que não lhe parta braço nem perna…chegue-lhe!...
A escola só era suportável uma ou duas vezes no ano quando o professor Abílio cá vinha dar, trazendo de Beja uma maquineta para passar filmes com desenhos animados de coelhos a comer cenouras e mosquitos que picavam e depois davam febrões.
Nesse dia havia tréguas. As réguas malditas de um acastanho avermelhado não saíam da gaveta. Corriam-se os estores e penduravam-se panos de flanela preta nas janelas para fazer escuro. Era um alívio.

Mas logo voltava o fadário dos ditados, das contas, das idas ao quadro e depois…das reguadas. Cinco numa mão. Cinco na outra. Quando anteviam a zurzidela, os miúdos iam à cerca do Virgílio Lagartinho à busca de cebola albarrã e untavam as mãos muito bem untadas. Havia a crença de que com tal fricção a carne não doía e se a mezinha fosse bem feita, até podiam fazer estalar a régua. Que se saiba não passou de crença.
Mas quando eram apanhados desprevenidos, sem preparação prévia, as pernas tremiam, os braços esticavam-se devagarinho, alternadamente, a muito custo e apetecia tirar a mão na hora certa, para sair em falso a palmatoada e verem o professor atingir-se. Mas ninguém o fazia, porque eles iravam-se e ainda se entornava o caldo. Aguentava-se como se podia, menos as lágrimas porque essas escorriam imparáveis. Passo largo para o lugar. As mãos inchavam de dor. Sem saber o que lhes fazer, metiam-se entre os braços num gesto instintivo como que para esconder. Logo a seguir cuspiam nelas e agarravam os ferros da estrutura das carteiras. Ouviam-se chiar. Se havia força para pedir para vir cá fora ou se a zirga acontecia pouco antes do intervalo, a custo tiravam a gaita e lavavam-nas na urina nem sempre contida. Também era mezinha. Aos outros, mais tarde, dizia-se que era remédio santo.
Nas memórias de um tempo cinzento talvez existam escolas coloridas, com rodas e risos de meninos, mas a nossa só ganhava alguma cor quando os panos de flanela preta tapavam a luz das janelas e por uns momentos, víamos os bonecos que o professor Abílio trazia de Beja.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ONTEM À NOITE



Ontem à noite tivemos um Património especial.

Entrámos com o fado, na voz de José Gomes Camacho, natural de Aljustrel, mas a viver em Almada desde os seus 14 anos. Foi emigrante no norte de França onde trabalhou como montador de automóveis das fábricas da Renault.
Depois, regressou ao país e cá vive, apaixonado pelo fado e pelo Alentejo.
Pelo telefone chegaram-nos adivinhas, afectos, histórias e poesias que, como sempre, enfeitam de prazer o nosso programa.

Seguiram-se sons antigos, falas, cantes e lembranças de quase vinte anos.

Mas no fim e noite dentro, o Património foi cenário de filmagens.

Tivemos connosco, como protagonista, Celina Piedade, uma voz , um dote artistico, uma presença enriquecedora, um contributo para a nossa cultura e uma figura destacada do grupo de Rodrigo Leão.

Um dia destes, talvez, possamos ver o que se passou, num qualquer canal de televisão.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

OS PRECEITOS DO BALDÃO

Em volta de uma mesa sentam-se os cantadores, normalmente juntinhos e sobre a mesma dispõem-se os copos e coloca-se o mais . Buscam posições , procuram parceiros, trocam olhares fugidios, disfarçadamente miram a aparência dos concorrentes, tossem, pigarreiam , limpam a garganta, passam sugestivamente a mão pelo pescoço e invariavelmente lamentam-se pela sua fala que hoje para nada presta.
Tenho estado tão constipado....se calhar até nem canto, é costume dizerem.
Mas cantam sempre, é uma desculpa adiantada para qualquer falho ou para iludir os outros se eles se fiarem nas queixas.
Entretanto, todos se aconchegam, ajeitam-se nos lugares para darem largueza ao tocador. E a campaniça começa a retenir a moda da marianita do principio ao fim. Sempre assim foi e assim será . Tal como o rumo das cantigas segue obrigatoriamente o percurso inverso ao sentido dos ponteiros do relógio. È um preceito. Uma regra que ficou estabelecida desde o início deste cante para que cada vez que se juntam não tenham de estar a preocupar-se com os pormenores da volta. Mas depois dos primeiros acordes, os olhares fixam-se na boca e os sentidos nos dizeres do cantador que é o mão. Cresce a tensão, aumenta o desejo, redobra o frenesim e o silencio do principiante é insuportável. O tocador que já percorreu a moda ponto por ponto então sustem-se , já não abala ,pisa as cordas com os dedos esquerdos e desata a repetir a chamada com a unha acrescentada do polegar direito fazendo soltar a viola ganidos de impaciência .Chegados aqui , o cantador já sem saída , ganha fôlego, fecha os olhos, enterra a boina e lá vai.
Lançada a primeira cantiga, as demais já se sucedem sem tanto receio , naquele dito rodar às avessas do tempo.
Enquanto a vez não chega ,matina-se na cantiga seguinte, debica-se no petisco e vazam-se os copos. Pouco se fala para não entreter, para não fazer fugir o tino e a rima.
E aos dizeres dos cantadores os outros respondem no flagrante só com incontidos acenos de cabeça ou piscadelas de olho furtivas. Quando chegar a sua vez logo ripostam se for caso disso e se a habilidade lhes bastar. São regras, são preceitos. O cante depois começa a buscar-se a si próprio, engendra um fundamento, tem de encontrar um rumo. E a poesia fervilha, repentista, cortante, às vezes marota. De tudo se trata, ali tudo se diz, rimando, com uma musicalidade e uma entoação que nos transportam longe.
Os cantes são desafios à imaginação, à inspiração e à resistência. Duram horas à fio , sempre sem quebras nem pausas, penetram pelas madrugadas como se o tempo a cantar não contasse.
O tocador nada lhes diz, ouve-os, olha-os, de quando em vez deixa escapar um sorriso. Os outros levantam-se nos intervalos da sua vez quando precisam de despejar o bebido, mas o mestre aperta-se, sustem-se, para não quebrar a magia que a viola e o rodopiar das razões geram em volta da mesa. Discutem mil assuntos, acertam contas antigas, mas filosofam invariavelmente acerca da valia da honra, do dinheiro, do ferro, do ouro, do campo e da serra.
Que saber o seu, que arte a deles.
Do fundo do tal tempo , guardam a memória de cantares antigos , de génios andantes que de feira em feira ganhavam sustento e acrescentavam a fama.
Derivado do despique este cante arreigou-se nas fraldas da serra, ali se forjou e ali perdura , alimentado pela seiva de gentes ricas em valores tradicionais e senhores plenos da sua identidade. Readquiriu recentemente grande fôlego esta expressão vocal e poética tendo os seus interpretes voltado a sentir brio na sua arte. O baldão furtou-se a uma morte anunciada e ganhou alma , alento, adeptos ,ouvintes , apreciadores. Tem presentemente tudo o que é necessário para vencer o esquecimento e continuar a cantar-se no sentido inverso ao dos ponteiros que marcam o ritmo dos dias.

O DESPIQUE

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

VALORIZAR O IMATERIAL

Às quintas-feiras entre as 21 e as 24 horas e depois em reposição aos domingos, a partir das 8 horas, pode seguir o rumo do Património em 93 FM, a frequência da Radio Castrense.

São três horas de saberes, memórias e afectos que inundam a nossa região, levando conforto a quem vive só, lembranças a quem vivênciou o outro lado do tempo e a autenticidade das expressões, a toda uma grande roda de amigos que comungam a certeza de que a nossa identidade cultural é um bem precioso.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A PASSARADA

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GANHÕES

Os descantes partiam da vila como um murmúrio, subiam de tom ao passar das cercas e prolongavam-se caminhadas fora.
Durante a jornada, os mais afoitos e os ganhantes na arte, davam a deixa do começo e todos os outros pegavam depois na moda, aberta ao improviso dos requintas, sempre aconchegante para o conjunto, por isso repetida até à exaustão, no troar do coro que unido como as vozes, avançava no êxtase seara dentro. Por ser bálsamo e dínamo, o cante era envolvente das gentes e do trabalho. Por ser fio condutor, continuava a unir os corpos mesmo já depois, altas horas, no encosto de um balcão onde o vinho se emborcava, também ele uma ajuda dissolvente para as mágoas.
Necessidade, amparo e vicio, tudo isto a moda era.
Lá bem no fundo do nosso tempo, os contornos da memória perdem-se , numa mistura de paixão e sons, imagens e situações, apenas emergindo cantares e gestualidades que de uma forma atávica os homens agora vão repetindo, como sina sua como eco da tradição. E tal como se lembram as letras e se perpetuam as vaias, iguaizinhas desde há séculos, também se veneram os seus intérpretes. Menos do rijo , na interioridade das recordações , mas sempre com um véu sublime de admiração e estima, pronunciam-se palavras quase mágicas que são nomes de pessoas que cantaram como os rouxinóis e que, apesar de tudo e só por isso, nunca serão esquecidos.
Zé Alfredo, Corte Gafo, Zé do Forno, Coelhinho e Evangelista, são cinco dos muitos que o povo venera ao cantar ainda as mesmas modas que os fizeram brilhar. Como eles, tanta gente, escaldou as gargantas arrancando vaias e requebras que sublimavam as fraquezas do corpo e as contingências da vida. Muitos, tantos homens, tantas vozes que nesta terra bradaram pelo sonho de tempos melhores ou por amores ausentes e clamaram as belezas da terra e dos corpos olhos seus.
De modo informal acontecia o cante. Os grupos criavam-se em função de qualquer circunstância e também por qualquer circunstância se diluíam agora, para se refazerem mais tarde. Com o passar dos anos, assistiu-se a uma consolidação da estrutura dos coros e começaram a perdurar no tempo.
A memória leva-nos aos ensaios, na Casa do Povo, no casão do Jacinto Maruta, no Centro Popular e no Celeiro da Comenda onde em dia certo e à hora marcada o grupo cantava. Vemos o professor Sampaio e tantos cantadores já idos. Ouvimos as modas, recordamos as dificuldades, o medo do proibido, a vontade de superar a pequenez de antanho. E quando um dia , depois de muita insistência, lográmos que uma editora nos gravasse um disco e nos pediu o nome do coral que ía ser editado, pensámos bem, reflectimos, baptizámos e mandámos como resposta: - Grupo Coral e Etnográfico “ Os Ganhões” de Castro Verde.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CANTAM AS FILHAS DA ROSA


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Manuel Bento, Francisco António e Perpétua Maria, são três vultos da tradição etno-musical ligada à Viola Campaniça que emprestaram todo o seu querer e a sua absoluta disponibilidade, para que hoje, se tenha ainda viva, esta componente tão importante do nosso património.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

DOIS APONTAMENTOS : José Rosa na Oração das Almas e Eugénio Brito numa Moda

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AS MODAS


Cada palavra exprime um sentimento, cada verso encerra um segredo já indecifrável, cada melodia é um somatório de sensibilidades, de paixões e de arrebatamentos que fazem de todas as "modas" um deslumbre de sonoridades.

E sempre que aparecia uma "moda nova" todos a cantavam, como que numa repetição de intenções, como que numa prece a qualquer divindade que amainava os sofrimentos e acrescentava beleza à vida. Bebia-se com os sentidos o estilo e carregava-se na memória as sílabas, para no dia seguinte se repetir e ensinar o aprendido.

E assim, numa oralidade absoluta, chegou até nós um cancioneiro imenso, transportado de geração em geração, passando pelos desfiladeiros do tempo, tropeçando nas fragas da lembrança, somando acrescentos casuísticos que resultavam mais da falha de ouvido do que da intencionalidade de modificar a obra.
Muitos grandes cantadores sabem de cor uma imensidão de "modas" que interpretam enquanto podem e depois consigo levam para o esquecimento.

Luis Franganito teve a lembrança e depois a iniciativa de passar ao papel duas centenas de "modas" acompanhadas das "cantigas" que julgou mais adequadas para cada uma delas.

São trechos poéticos que o Alentejo cantou e ainda canta, melodias que nos tocam a alma, expressões do "cante" que falam de toda uma série de elementos e realidades que inspiraram os seus autores e ainda agora, na sua aparente singeleza, continuam a fazer-nos sentir a profundidade e o alcance da sua vibração quando ouvimos interpretá-los.


Em cada "moda" coligida guarda-se um bocado do nosso ser colectivo e com este livro faz-se perpetuar parte significativa da alma de um povo que cantava e canta aos passarinhos, à terra, aos amores, ao próprio trabalho que se lhe impunha tão sofredor. Folheando estas rimas, passamos em visita um somatório de emoções que de forma assumida continuamos a chamar nossas, identificamo-nos com elas, fazem-nos sentir quem somos efectivamente.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PERPÉTUA MARIA

Do corpo pequeno transbordava-lhe uma vontade enorme de comunicar. Era expansiva nas falas e sublime no cantar de modas aprendidas em moça, que interpretava sempre briosa em toadas e vaias colhidas no ontem e mantidas intactas no éter da memória, sem desvios, sem remedeios.
A voz saía-lhe pura, torneada pela mais fina melodia e elevava-se perfeita enfeitando com brocados de sons os dizeres das poesias simples.
Sinto, ainda agora, a emoção estranha, misto de paixão e espanto, que tanto me cativou logo na primeira vez que ouvi o seu canto. Vai para uma década, quando a procurei, em busca duma tradição perdida e de uma tal viola campaniça que sabia ainda haver lá para a Funcheira.
Foi franca no acolhimento e cresceu-lhe a alegria quando lhe pedi que cantasse.
Fechou a porta que da cozinha diz para a casa de entrada e ficámos por dentro, na semi-obscuridade , atentos e ansiosos por ouvir a revelação. O marido de olhar brilhante, também satisfeito pelo nosso interesse, sentou-se numa cadeira baixa de buinho e ela ficou de pé ao seu lado, com pose, descansando a mão sobre o ombro do tocador, como era costume seu. Ouvi então soltar os sons mais lindos ,da voz e da viola que tão bem ligavam, entrelaçando-se na perfeição, numa simbiose de harmonias cujas vibrações , como por magia, nos arrastavam para os tempos doutros dizeres e sentires.
Trocámos, desde então, a admiração pela amizade de que guardo a gratidão.
Perpétua Maria como que ciente da brevidade da vida , nunca cedeu ao comodismo e para cantar desafiava a oportunidade do momento, o jeito que não dava, o transtorno que fazia , sem mostrar desalento ,antes devoção em divulgar o cante , aproveitava saída a saída, excedendo-se de palco em palco.
Assim foi até que o mal, com crueldade ,um dia lhe tirou o génio, lhe apagou o gosto ,lhe roubou a voz .
Terminou em Messejana , já com custo, o percurso que anos antes havia iniciado com exuberância em Entradas , ficando pelo meio todo o prazer gerado na sua determinação de emprestar a voz à moda campaniça e de ilustrar com tal entrega a possibilidade de se poder recuperar do esquecimento uma tradição perdida .
Percorreu o Alentejo, desceu mais a sul, cantou em Lisboa e esteve no norte.
Nas actuações , sabia apreciar e contabilizava sempre a empatia do público, destacando pelo seu ardor e envolvimento os aplausos sentidos em Toronto, em Angra do Heroísmo, na Fundação Gulbenkian e no Teatro Carlos Alberto que muito a desvanesceram e sensibilizaram.
Perpétua Maria da Aldeia Nova ,deixou-nos a sua voz na lembrança e o seu exemplo no sentido. Quantos a ouviram e lograram sentir o encantamento da sonoridade das suas modas, puderam percorrer o reverso da aparência e tocar nas origens ,vertidas claramente nas toadas e nas vaias que a viola campaniça acompanhava em rasgos de nostalgia.
Agora, no silencio dos pensamentos vamos continuar a escutar a melodia do seu cantar, fazendo cada momento menos breve, cada paixão mais intensa, cada utopia menos vã.

21/9/97

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CANTE DE BALDÃO EM CASÉVEL

Numa quinta feira ,à hora marcada, começaram a afluir a Casevel os cantadores e os muitos outros atraídos pelo baldão. “Tradições, sons e sabores” é o nome do espaço onde a Associação “Vozes das Terras Brancas” tem a sua sede, desenvolve actividades socio-culturais e tinha preparada toda a logística para o encontro. De tarde ,os homens juntaram as mesas e os bancos, encheram dos barris as garrafas brancas e tintas e de quando em vez espreitavam à cozinha para cheirar o petisco e garantir a sua prontidão. As mulheres fatiavam pão, faziam sopa, separavam da gaveta dos talheres as colheres necessárias para depois passarem por água. Sem susterem a conversa, contaram tigelas de barro vidrado, de modo a darem à vondo para o serviço. Tinham azeitonas negras e muito grandes mas de fraca conserva. Deviam ser compradiças, porque por estas bandas, tais frutos são menos carnudos e já pouco se apanham. Partiram queijinhos para dentro de pires. Eram de meia cura, já mais para o lado de lá do que para o de cá e ,por isso, lascavam-se sem fazer bonito. Tinham três boas linguiças , muito bem encaradas e cheirosas. Desfizeram-nas em rodelas e repartiram-nas por meia dúzia de pratinhos. Para fritar à hora, estavam preparadas talhadinhas de toucinho muito branco, com veiozinhos magros e salpicos de sal A sala foi-se enchendo e a gente foi-se alegrando com e outro que entrava.. Da casa, estava só a Mariana mais o Teresa para cantar ,porque mais não há, já que o Moinho ,embora presente, não fazia vasa por andar de luto. Lá fora ventava e chovia , talvez por isso, o Tremoço não chegou a vir. Mesmo assim, arrumaram muitos e quando não se podia esperar mais, deu-se ordem para abancarem. Mas demoraram. Sentam-se sempre a custo. Olham. olham, começam a regougar ,dão voltas, afastam-se, fazem-se acenos, depois lá vêm. Para comer, qualquer posição servia mas eles estão já a acomodar-se para o cante. Escolhem o lugar, não pelo prato, mas pela vizinhança. Conhecem-se todos e preferem ficar a seguir a quem deixe o cante em bom tom. Depois de muitas meças lá se sentaram, tocadores e cantadores. O Sobiote ficou de fora porque ha meses que anda amuado com o Zé Guerreiro da À Metade. Havia de fazer roda com ele, mais tarde no cante, mas não a quis fazer nos comes. Tirou da algibeira um pedaço de uma costa e um perinho amarelo que foi comendo cabisbaixo, sempre à margem . O mestre Manuel Bento e o Pedro, às tantas, foram acertar as violas e depois voltaram olhados por todos. O tio Chico António sentou-se ao pé deles, à cabeceira da mesa, mesmo não tocando. A doença roubou-lhe a destreza dos dedos mas não lhe tirou o crenço pelos toques e assim ali ficou presente ,ausente. Os dois tocadores soltaram os primeiros acordes rasgando as cordas e fez-se silêncio.
videoComeçou-se a ouvir a moda da Marianita e os cantadores estremeceram. Uns levam a mão à cabeça e outros fecham os olhos em busca da inspiração primeira. Pigarreiam, tossem, passam a mão pela garganta e abanam a cabeça como que a dizer que hoje não têm fala que preste. Depois da morte do Bernardo, o Zé Guerreiro passou a ser o mão. Começou com o jeito dele , com o viço todo que o faz vir do Algarve sempre que há um cante. Seguiu-se o Ribeiro e o cante começou a correr à roda da mesa , de poesia em poesia, sempre a circular no sentido contrário àquele que os ponteiros marcam nos relógios medidores do tempo . As primeiras cantigas são de elogio ao petisco, servem só de cumprimento e para soltar a voz. Só mais tarde se encontra um rumo para o cante e se agarra um qualquer “afundamento” que norteia e inspira o improviso. Mas, desta feita, meia volta ainda não estava dada e já os cantadores tinham assunto para toda a noite. Mal chegou a sua vez, o Sobiote do alto dos seus oitenta e quatro anos, atirou a primeira pedrada ao À Metade. Chamou-lhe malvado porque ele o deixou uma noite em Castro sem transporte nem meio de voltar a casa. Os outros deliravam. A roda partiu-se. De um lado ficaram os de S. Martinho. Da outra banda reuniam-se os demais que eram muitos, versejando e zurzindo no Zé Guerreiro, sempre muito solto no verbo. Esteve precisado da ajuda do Graça e do Perrarias nesta noite em Casével. Grandaços e Santana , para picar o À Metade, deram todo o apoio às Nalgas do Adelino. O Jesuíno não perdia oportunidade para atirar as suas farpas , numa toada sentida, cheia de vaias e requebras que fazem deste cante um gemido. Noite fora, prosseguiram os cantadores no seu afã de afirmar uma arte que esteve quase perdida e agora se agita embalada pelos acordes da viola campaniça.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

AS DEBULHAS



Em volta dos montes e de roda das vilas, buscavam-se lugares planos, com o terreno firme, de preferência rochoso, onde se faziam as eiras.
As primeiras eram de planta circular, maiores ou menores, conforme a abastança e o tamanho da corda que prendia as bestas, forçadas a andar de roda vezes sem fim para pisar o cereal, a fava e o grão por descascabulhar.
Se as estrumeiras medravam perto das arramadas e das cavalariças, chamadas “casinhas”, mesmo nas traseiras ou numa lateral do casario e para onde desembocavam duas aberturas feitas nas paredes, as eiras, ao contrário, iam-se moldando, marcando no chão de ano para ano, arredadas da porta.
Tinham de ficar em sítio descampado por mor de apanharem bem o vento e com a orientação devida, para não encherem as casas de palhuço quando as forquilhas de pau se levantavam ritmadas, oferecendo a colheita à maré.
Assim, foi durante séculos, mas assim só é ainda, nalgum ponto mais recuado da serra, onde as máquinas se temem a entrar e donde os viventes se recusam a sair.
Depois das debulhas feitas à custa de braço e pateada, entrou em cena a tecnologia.

Surgiram as primeiras máquinas debulhadoras movidas à força do vapor, verdadeiros encantos de potência e desembaraço que pelo modo como aliviaram a faina, ganharam a simpatia das gentes. Eram miradas na passagem e admiradas no desempenho.
Tornaram-se vultos de ferro e simpatia, motivos de admiração e de algum afecto, a pontos de serem designadas por um nome próprio. Era a “pintassilga”. Era a “caminheira”. Eram outras mais que de caldeira acesa percorriam as eiras das freguesias.


Anos depois, vieram as debulhadoras fixas mais ligeiras, de côr amarela no seu tabuado.
Ceifado o pão e depois de enroleirado, era carregado para as ditas eiras. Só para as maiores que se enchiam de medas, dispostas conforme a variedade do cereal e segundo a dimensão da labuta.
Na vila, havia debulhas no largo da feira e na eira da máquina, para onde os seareiros transportavam em carros e carrinhas a pequenez das suas colheitas.
Mas as debulhas tinham grande encanto. Faziam soltar o sortilégio da abastança mesmo que esta fosse curta. Representavam o momento efectivo da devolução pela terra, em forma de semente, do trabalho nela investido em canseiras múltiplas.
Contavam-se as fundalhas. Corriam nas conversas as finezas e as desgraças de todas as searas. Este fundiu bem, aquele nem dobrou a semente. Foi por mor da chuva, porque não espigou, pegou-lhe a aforra, não foi bem tratado, faltou-lhe o guano, a sementeira traçou-lhe logo um mau fim.
E dantes os anos, muitos anos à fio, eram ruins. Feitas as contas, não sobrava nada.
Mas apesar disso, as debulhas tinham o tal sortilégio de provocar encanto e de desenvolver uma mística de alguma paixão bucólica.
Esperava-se com frenesim a chegada da máquina e contavam-se os dias que faltavam para a ver aproximar-se, lentamente, bamboleando-se, de tombo em tombo ,pela estrada velha. Lá vinha toda aquela arrearia, toda aquela gente, todo o movimento que o pessoal da máquina, durante dias, gerava no monte sempre sossegado.
Encostavam a debulhadora à primeira meda, descarregavam a torgia, acilhavam, travavam os rodados de ferro, preparavam tudo com o preceito sabido.
Diante da máquina, à distância da correia de lona grossa, tomava posição o tractor que depois, dias a fio, fazia zunir as engrenagens. Mais afastada ainda, ficava a barraca, melhor dizendo, um toldo, feito de sacas esticadas e atadas nas extremidades de quatro paus. O bastante para fazer sombra. Juncava-se o chão para dar fresquidão e por ali ficavam as quartas de água e uns banquinhos. tipo mochos, onde o pessoal vinha desencalmar quando era rendido.


O tractorista, andava por ali, para observar o maquinismo. O saqueiro, aparava a semente, despejava os alcofões dos desperdícios, contava os sacos e tirava a maquia. Lá em cima, mais perto do sol, andavam os fiscaleiros e os alimentadores, tentando atafulhar a goela larga da debulhadora. Mas ainda cá em baixo, mais perto do inferno, sofria o homem da munha, coberto de pó, enroupado com sacas, empapado em suor, aparando os restos que o fagulheiro deitava.
À sombra do toldo juntavam-se também os cães do monte, um gato ou um galo que o pessoal da máquina gostava de trazer.
Como eles, os moços procuravam o fresco do verde. Com a junça e na hora do descanso os homens mais habilidosos faziam artes. Tranças, cestinhos e bastões que pareciam ir nascendo de uma magia qualquer.
De quando em vez, feita certa conta de sacos, o saqueiro tocava um apito para a rendição.
Enquanto as medas minguavam iam nascendo e crescendo os cavalos e depois, as serras de palha .Eram os trabalhadores da casa, com a cabeça tapada por um capuz de sapec que iam arrastando a palha com um rodo puxado por uma parelha de muares para o sítio apropriado.


À noite, depois da ceia, ia-se dormir à eira, ao relento, embrulhados na palha caso refrescasse.
Passados dias, o monte voltava a esmorecer, quando era chegada a hora de vermos partir, bamboleante, aos tombos, pela estrada velha, a máquina debulhadora amarela e no pó da estrada, ficava por um tempo, o rasto de uns dias diferentes que irradiavam a magia da abastança, mesmo que aparente.