quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CANTE DE BALDÃO EM CASÉVEL

Numa quinta feira ,à hora marcada, começaram a afluir a Casevel os cantadores e os muitos outros atraídos pelo baldão. “Tradições, sons e sabores” é o nome do espaço onde a Associação “Vozes das Terras Brancas” tem a sua sede, desenvolve actividades socio-culturais e tinha preparada toda a logística para o encontro. De tarde ,os homens juntaram as mesas e os bancos, encheram dos barris as garrafas brancas e tintas e de quando em vez espreitavam à cozinha para cheirar o petisco e garantir a sua prontidão. As mulheres fatiavam pão, faziam sopa, separavam da gaveta dos talheres as colheres necessárias para depois passarem por água. Sem susterem a conversa, contaram tigelas de barro vidrado, de modo a darem à vondo para o serviço. Tinham azeitonas negras e muito grandes mas de fraca conserva. Deviam ser compradiças, porque por estas bandas, tais frutos são menos carnudos e já pouco se apanham. Partiram queijinhos para dentro de pires. Eram de meia cura, já mais para o lado de lá do que para o de cá e ,por isso, lascavam-se sem fazer bonito. Tinham três boas linguiças , muito bem encaradas e cheirosas. Desfizeram-nas em rodelas e repartiram-nas por meia dúzia de pratinhos. Para fritar à hora, estavam preparadas talhadinhas de toucinho muito branco, com veiozinhos magros e salpicos de sal A sala foi-se enchendo e a gente foi-se alegrando com e outro que entrava.. Da casa, estava só a Mariana mais o Teresa para cantar ,porque mais não há, já que o Moinho ,embora presente, não fazia vasa por andar de luto. Lá fora ventava e chovia , talvez por isso, o Tremoço não chegou a vir. Mesmo assim, arrumaram muitos e quando não se podia esperar mais, deu-se ordem para abancarem. Mas demoraram. Sentam-se sempre a custo. Olham. olham, começam a regougar ,dão voltas, afastam-se, fazem-se acenos, depois lá vêm. Para comer, qualquer posição servia mas eles estão já a acomodar-se para o cante. Escolhem o lugar, não pelo prato, mas pela vizinhança. Conhecem-se todos e preferem ficar a seguir a quem deixe o cante em bom tom. Depois de muitas meças lá se sentaram, tocadores e cantadores. O Sobiote ficou de fora porque ha meses que anda amuado com o Zé Guerreiro da À Metade. Havia de fazer roda com ele, mais tarde no cante, mas não a quis fazer nos comes. Tirou da algibeira um pedaço de uma costa e um perinho amarelo que foi comendo cabisbaixo, sempre à margem . O mestre Manuel Bento e o Pedro, às tantas, foram acertar as violas e depois voltaram olhados por todos. O tio Chico António sentou-se ao pé deles, à cabeceira da mesa, mesmo não tocando. A doença roubou-lhe a destreza dos dedos mas não lhe tirou o crenço pelos toques e assim ali ficou presente ,ausente. Os dois tocadores soltaram os primeiros acordes rasgando as cordas e fez-se silêncio.
videoComeçou-se a ouvir a moda da Marianita e os cantadores estremeceram. Uns levam a mão à cabeça e outros fecham os olhos em busca da inspiração primeira. Pigarreiam, tossem, passam a mão pela garganta e abanam a cabeça como que a dizer que hoje não têm fala que preste. Depois da morte do Bernardo, o Zé Guerreiro passou a ser o mão. Começou com o jeito dele , com o viço todo que o faz vir do Algarve sempre que há um cante. Seguiu-se o Ribeiro e o cante começou a correr à roda da mesa , de poesia em poesia, sempre a circular no sentido contrário àquele que os ponteiros marcam nos relógios medidores do tempo . As primeiras cantigas são de elogio ao petisco, servem só de cumprimento e para soltar a voz. Só mais tarde se encontra um rumo para o cante e se agarra um qualquer “afundamento” que norteia e inspira o improviso. Mas, desta feita, meia volta ainda não estava dada e já os cantadores tinham assunto para toda a noite. Mal chegou a sua vez, o Sobiote do alto dos seus oitenta e quatro anos, atirou a primeira pedrada ao À Metade. Chamou-lhe malvado porque ele o deixou uma noite em Castro sem transporte nem meio de voltar a casa. Os outros deliravam. A roda partiu-se. De um lado ficaram os de S. Martinho. Da outra banda reuniam-se os demais que eram muitos, versejando e zurzindo no Zé Guerreiro, sempre muito solto no verbo. Esteve precisado da ajuda do Graça e do Perrarias nesta noite em Casével. Grandaços e Santana , para picar o À Metade, deram todo o apoio às Nalgas do Adelino. O Jesuíno não perdia oportunidade para atirar as suas farpas , numa toada sentida, cheia de vaias e requebras que fazem deste cante um gemido. Noite fora, prosseguiram os cantadores no seu afã de afirmar uma arte que esteve quase perdida e agora se agita embalada pelos acordes da viola campaniça.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

AS DEBULHAS



Em volta dos montes e de roda das vilas, buscavam-se lugares planos, com o terreno firme, de preferência rochoso, onde se faziam as eiras.
As primeiras eram de planta circular, maiores ou menores, conforme a abastança e o tamanho da corda que prendia as bestas, forçadas a andar de roda vezes sem fim para pisar o cereal, a fava e o grão por descascabulhar.
Se as estrumeiras medravam perto das arramadas e das cavalariças, chamadas “casinhas”, mesmo nas traseiras ou numa lateral do casario e para onde desembocavam duas aberturas feitas nas paredes, as eiras, ao contrário, iam-se moldando, marcando no chão de ano para ano, arredadas da porta.
Tinham de ficar em sítio descampado por mor de apanharem bem o vento e com a orientação devida, para não encherem as casas de palhuço quando as forquilhas de pau se levantavam ritmadas, oferecendo a colheita à maré.
Assim, foi durante séculos, mas assim só é ainda, nalgum ponto mais recuado da serra, onde as máquinas se temem a entrar e donde os viventes se recusam a sair.
Depois das debulhas feitas à custa de braço e pateada, entrou em cena a tecnologia.

Surgiram as primeiras máquinas debulhadoras movidas à força do vapor, verdadeiros encantos de potência e desembaraço que pelo modo como aliviaram a faina, ganharam a simpatia das gentes. Eram miradas na passagem e admiradas no desempenho.
Tornaram-se vultos de ferro e simpatia, motivos de admiração e de algum afecto, a pontos de serem designadas por um nome próprio. Era a “pintassilga”. Era a “caminheira”. Eram outras mais que de caldeira acesa percorriam as eiras das freguesias.


Anos depois, vieram as debulhadoras fixas mais ligeiras, de côr amarela no seu tabuado.
Ceifado o pão e depois de enroleirado, era carregado para as ditas eiras. Só para as maiores que se enchiam de medas, dispostas conforme a variedade do cereal e segundo a dimensão da labuta.
Na vila, havia debulhas no largo da feira e na eira da máquina, para onde os seareiros transportavam em carros e carrinhas a pequenez das suas colheitas.
Mas as debulhas tinham grande encanto. Faziam soltar o sortilégio da abastança mesmo que esta fosse curta. Representavam o momento efectivo da devolução pela terra, em forma de semente, do trabalho nela investido em canseiras múltiplas.
Contavam-se as fundalhas. Corriam nas conversas as finezas e as desgraças de todas as searas. Este fundiu bem, aquele nem dobrou a semente. Foi por mor da chuva, porque não espigou, pegou-lhe a aforra, não foi bem tratado, faltou-lhe o guano, a sementeira traçou-lhe logo um mau fim.
E dantes os anos, muitos anos à fio, eram ruins. Feitas as contas, não sobrava nada.
Mas apesar disso, as debulhas tinham o tal sortilégio de provocar encanto e de desenvolver uma mística de alguma paixão bucólica.
Esperava-se com frenesim a chegada da máquina e contavam-se os dias que faltavam para a ver aproximar-se, lentamente, bamboleando-se, de tombo em tombo ,pela estrada velha. Lá vinha toda aquela arrearia, toda aquela gente, todo o movimento que o pessoal da máquina, durante dias, gerava no monte sempre sossegado.
Encostavam a debulhadora à primeira meda, descarregavam a torgia, acilhavam, travavam os rodados de ferro, preparavam tudo com o preceito sabido.
Diante da máquina, à distância da correia de lona grossa, tomava posição o tractor que depois, dias a fio, fazia zunir as engrenagens. Mais afastada ainda, ficava a barraca, melhor dizendo, um toldo, feito de sacas esticadas e atadas nas extremidades de quatro paus. O bastante para fazer sombra. Juncava-se o chão para dar fresquidão e por ali ficavam as quartas de água e uns banquinhos. tipo mochos, onde o pessoal vinha desencalmar quando era rendido.


O tractorista, andava por ali, para observar o maquinismo. O saqueiro, aparava a semente, despejava os alcofões dos desperdícios, contava os sacos e tirava a maquia. Lá em cima, mais perto do sol, andavam os fiscaleiros e os alimentadores, tentando atafulhar a goela larga da debulhadora. Mas ainda cá em baixo, mais perto do inferno, sofria o homem da munha, coberto de pó, enroupado com sacas, empapado em suor, aparando os restos que o fagulheiro deitava.
À sombra do toldo juntavam-se também os cães do monte, um gato ou um galo que o pessoal da máquina gostava de trazer.
Como eles, os moços procuravam o fresco do verde. Com a junça e na hora do descanso os homens mais habilidosos faziam artes. Tranças, cestinhos e bastões que pareciam ir nascendo de uma magia qualquer.
De quando em vez, feita certa conta de sacos, o saqueiro tocava um apito para a rendição.
Enquanto as medas minguavam iam nascendo e crescendo os cavalos e depois, as serras de palha .Eram os trabalhadores da casa, com a cabeça tapada por um capuz de sapec que iam arrastando a palha com um rodo puxado por uma parelha de muares para o sítio apropriado.


À noite, depois da ceia, ia-se dormir à eira, ao relento, embrulhados na palha caso refrescasse.
Passados dias, o monte voltava a esmorecer, quando era chegada a hora de vermos partir, bamboleante, aos tombos, pela estrada velha, a máquina debulhadora amarela e no pó da estrada, ficava por um tempo, o rasto de uns dias diferentes que irradiavam a magia da abastança, mesmo que aparente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

UMA RODA DE AMIGOS

Foi quinta feira e fez-se a roda.

Sábado da feira à noite , realizou-se mais um Encontro de Cantadores e de Tocadores de Viola Campaniça.
Há dezanove anos que é assim.


Faltaram alguns tocadores e muitos cantadores. De cá, só Mariana e o Teresa. Os de Santana, pelos constipados e por mal do Herculano, não vieram. Foi Odemira quem cantou com o Chico Horta, este a punir pelo campo.
Para o ano, a tradicional homenagem vai recair sobre o Marciano José Bárbara que os colegas elegeram como merecedor de tal destaque.

Dia 24, pelas 16 horas, em S. Marcos, As Atabuas comemoram o Sétimo Aniversário do seu cantar, fazendo um desfile seguido de actuação em palco, das aniversariantes e de dois outros corais.


Em directo, tivemos a acordeonista Vânia Silva, de Vila Nova de Mil Fontes que aos catorze anos, deu resposta positiva à sua paixão pelo acordeão. Andou na aprendizagem em Sines e agora, ocupa-se, profissionalmente, de animar bailes e festas com os seus toques.

video
De sorriso rasgado e dedos ágeis, foi uma presença agradável na primeira hora do Programa.
As outras duas restantes, foram reservadas à memória.


Seguimos com saudade, palavras e cantes das “Antigas Mondadeiras de Casével” que havíamos gravado em Junho de 1990.
Da mesma data, eram os sons do Grupo Coral “ Moda Campaniça” que transmitimos. Este Coral, criado pela Cortiçol na sequência de uma paragem de actividade dos “Ganhões”, apesar da sua existência breve, marcou de forma indelével, pelo porte e pela sua qualidade, a história do cante em Castro.


Incorporou pessoas, boas vozes e vontades que dantes nunca tinham estado ligadas ao cante coral e que, infelizmente, não voltaram mais a estar, após a lamentável dissolução deste coro .

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A VIOLA CAMPANIÇA



Quando há cerca de três décadas, regressávamos noite dentro, com os “Ganhões”, de uma actuação, algures no concelho de Odemira , mas em data e sitio que já não conseguimos precisar, parámos num lugar ermo ,à beira da estrada, onde durante o dia tinha havido festa.
Festa ou romaria, porque ainda por ali se viam restos de enfeites , balcões improvisados e um magote de homens ,de pé, rodeando outra meia dúzia que sentados à volta de uma mesa ,cantavam, à vez ,cantigas de improviso, num estilo e com uma melodia que nos assombraram.
Nunca tínhamos ouvido tal, nem sabíamos que se cantava daquele jeito, aqui mesmo, tão perto de nós, onde tanto se valorizava o cante.
Parecia-nos, até então, que o cante às vozes era o único e que tudo o mais que surgisse, só deste podia derivar, como seu sucedâneo ou sua adulteração.
Depois daquele encontro breve com a surpresa de tão inusitado exercício vocal, durante anos guardámos a toada arrepiante do cante mouro, ouvido numa tal noite estrelada, algures à beira da estrada, enquanto os homens do Grupo passante bebiam umas minis quentes.
Só mais tarde, muito mais tarde, tomámos lidação e ganhámos a afeição que temos, ao cante naquela vez ouvido ao relento e que chamam de baldão .
Voltámos a apreciá-lo, passados anos, na Aldeia das Amoreiras em casa do António Bernardo, o maior entre os grandes cantadores.
Chegámos lá pela mão do mestre Manuel Bento, o mais exímio tocador de viola campaniça ainda vivo, que conhecemos já na década de oitenta, então morador na Funcheira e com origem na Aldeia Nova, terra que foi um alfobre de tocadores e que a barragem do Monte da Rocha inundou .Com ele, com a força da inditosa Perpetua Maria e a paixão pelo cante do Francisco António, arrebatámos a campaniça do esquecimento.



Com este trio ,a Cortiçol contrariou a sua morte anunciada por Ernesto Veiga de Oliveira, quando nos anos sessenta ,tristemente lamentou que o Jorge Montes Caranova não tinha mais seguidores.
Com este trio, por força e entusiasmo seu, ressuscitou-se uma fatia importante da nossa cultura mais pura.
Ainda conhecemos o Laranjinha e o António Emídio ,também mestres do seu tempo, homens que consigo traziam uma arte secular, afinada de feira em feira, de balho em balho, de descante em descante.
A memória das gentes é tão curta que em menos de meio século, já se havia quase perdido o rasto de uma tradição tão arreigada e vivida em certas bolsas geográficas deste Alentejo. Quando descobrimos, uma a uma, a meia dúzia de violas campaniças sobreviventes ao apagamento das lembranças, estavam arrecadadas, empoeiradas, rachadas, quase todas sem cordas nem cravelhas .
Brigámos para conseguir cordoamentos adequados ,corremos para arranjar novos instrumentos .
De cada três que vinham de Tebosa, os mestres rejeitavam dois. Quando acabávamos o trabalho de relançar a divulgação da viola, a desdita roubou-nos a Perpétua Maria, incapacitou o Francisco António e quase nos levava o Manuel Bento, agora morador em Beja.
Mas, entre uma ida ao Canadá e outra aos Açores, entre uma actuação no teatro Carlos Alberto no Porto e outra na Gulbenkian em Lisboa, a campaniça reconquistou o alento bastante para perdurar. Temos agora jovens a tocar e futuramente mais seguirão a prática do Pedro Mestre. Na Corte Malhão, o mestre Amilcar constrói instrumentos e toca com o António Silva Campos em Amoreiras Gare. Em Castro decorre um curso de formação profissional para construtores de viola e em Santa Clara a Nova aprende-se a arte do seu toque.



Sabemos que não se voltarão a fazer bailes ao toque da viola campaniça, nem cantes a despique voltarão a acontecer com o preceito de outrora, porque agora a dança é outra e o tempo da Zéfinha de Portel, do Castro da Cuba, do Faísca e do Matias já passou.
Mas os homens da serra salvaram o baldão e hão-de continuar a cantá-lo com fervor e sentimento, assim como não faltarão mais violas campaniças nesta terra, nem gente para as tocar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O CANTE ALENTEJANO

Da companhia nasce a vontade, o relaxo espevita o apetite e do longe vêm os sons que galvanizam os ânimos, depois os olhares vidram-se fixados em vultos, sombras ou sóis que flamejam, a mente começa a regurgitar memórias estilizadas que passam à fio como anátemas, de mão dada, reflectindo-se disformes no quadro do pensamento. Das entranhas soltam-se ais e gritos, trovões de razões caladas , murmúrios perdidos desde a antiguidade, risadas também, libertas em tempos passados, em espaços abertos, donde o vento as levou para sempre, sem deixar sequer um eco para hoje ser sorriso.
As bocas vão ficando mais escancaradas à medida que o sentimento incha nos peitos, notam-se então os corpos possessos duma magia que transparece nas vaias, crispam-se as mãos e os olhos cerram-se, a inspiração acende-se, o deleite aumenta, abre fervura, transborda e quanto mais se canta, maior é o esplendor das vozes impregnadas na mística que o próprio cante produz.
É a alma de um povo derramada em sonoridades que escorrem numa cadencia de preceitos, como fio de água que passa eterno no mesmo serpentear da corrente. E não cansa fazê-lo nem dá tédio observá-lo, porque embora aparente monotonia, os modos como arrastam as palavras têm o sortilégio de produzir em cada instante sensações diversas, sentires distintos em momentos que são sempre outros.
As modas que são poemas enfeitados de melodia , repetem-se com o mesmo fervor com que os aflitos renovam as preces, uma, duas, vezes sem conto, sempre sem desânimo, buscando uma satisfação inconfessada ou tentando alcançar a perfeição do cântico, para igualar na afinação a interpretação que no imaginário se guarda.
Há um que começa lançando para o ar dizeres já sabidos envoltos numa toada que todos conhecem e os mais, ficam expectantes, agarrados ao chão à espera da sua vez, totalmente entregues ao apelo, fazem em silencio o percurso do evoluir ondulante da voz do ponto. A meio, como que param a respiração, depois cresce-lhes um frenesim que aguça ainda mais a necessidade da sua expressão vocal e inspiram ,sustêm o fôlego como se fossem mergulhar no vazio, como que aguardando um sinal para entrarem .

De rompante, solta-se a voz do alto, mais fininha, estridente, fazendo a chamada. É então que o coro desata as gargantas e os vozeirões dos baixos respondem despejando em tom grave o continuar da moda .E fazem-no com a determinação, a convicção, a postura e o sentir de quem toca o absoluto.
Casam-se tão bem as vozes que o cante parece nascer de uma só vontade, jorrar de uma só garganta, num brado talhado de pausas e preceitos, ornado com melismas, que penetra, arrepia e chega a ser comovente .
Os intérpretes entregam-se completamente à toada do cante que depressa se apodera deles, tornando-os maleáveis, moldando-os a uma plástica donde só sobressai a forma imprimida pelo conjunto. Gera-se entre eles uma corrente de afecto que os percorre e carrega de prazer, germina no grupo um sentir quase lascivo e por isso ficam brandos, capazes de gestos eivados de ternura. Apetece-lhes colarem os corpos tal como sobrepõem as vozes e assim balançam levados e trazidos pela melopeia, cadenciando enleiam os braços, como fazem as silvas para prender em redor.

E sempre que o destino os empurra para a lonjura que é sempre imensa qualquer que seja a distância que os separa do berço, quando estão ausentes, perdidos nos descaminhos, desviados do sítio, afastados desta luz, o crenço agiganta-se e as afinidades com os traços comuns são então mais evidentes.
Buscam a identidade no falar, nos dizeres, nas lembranças, nas coisas que se contam carregadas de sentires fortes de que os outros, seus iguais, também comungam. São as lembranças da escola, as belhoretas de gaito, as brincadeiras de pequeno, e os velhos, a memória da gente ida é também trazida ao de cima ,com referencias aos seus modos, aos seus hábitos, a histórias reveladoras de um tipicismo que sabe bem recordar.
Por isso se juntam amiude, de propósito, por necessidade.
Em cima da mesa colocam-se os comeres e as lembranças que se petiscam em cumplicidade e se saboreiam com o paladar da nostalgia . E por fim canta-se sempre.
A moda exulta os espiritos, suaviza a dôr da partida, funciona como um bálsamo que sem curar alivia as queixas .
Amorna as mágoas porque este cante é para isso mesmo. Não nasce das alegrias mas brota das paixões, dum pensar profundo, de preocupações .Por isso constrange quando se interpreta, por essa razão arrepia quando nos envolve.
Tem uma espiritualidade evidente qualquer seja a sua raíz. Cantochão, gregoriano ou fá-bordão poderão estar na sua génese mas a moda tem certamente impregnadas na sua estrutura as marcas dum povo com certo sentir, os sons e as falas, os gestos e os sonhos duma gente antiga que aqui moirejava. E o cante temperou-se nas fornalhas dos restolhos, aveludou-se em primaveras coloridas, absorveu a imensidão do horizonte, captou os gemidos da solidão, ganhou formas próprias em lavouras custosas.
Desse caldo de valores e referencias se fez o cante e neste ambiente nasceram os mestres, seus interpretes ímpares seus cultores maiores.

sábado, 17 de outubro de 2009

NÃO HÁ FEIRA COMO A DE CASTRO

Não há feira como a de Castro
Nem lenha como a de azinho
Não há filhos como os dos padres
Que ao pai chamam padrinho

Perdeu-se o sentido às décimas mas perdurou o mote, enaltecendo, desde egrégios tempos , aquela que é ainda a grande feira do sul , um evento que marcou durante séculos o calendário das gentes campaniças. Mais do que os meses, os acontecimentos festivos agendavam o tempo e a vida ,ditavam os procederes, serviam de azimute para nos localizarmos temporalmente. Era o Ano Bom, depois o Entrudo, a seguir a Páscoa ,não tardavam os Santos e até à Feira de Castro era um pulo.



Fazia-se isto ou aquilo, antes ou depois da Feira de Castro. Por esta ocasião, esperada durante meses, tratavam-se de assuntos, vendiam-se gados e produções, compravam-se enxovais e farpelas, renovavam-se as alfaias, abasteciam-se as despensas dos legumes para as comedias, repunham-se nas cozinhas os barros partidos, compravam-se as empreitas, frutos secos, varejas, arcas, cadeiras, bancos , decas, tabuleiros e tábuas de amassar ,vindos de Monchique juntamente com os perinhos que durante meses perfumavam a casa e as gavetas da roupa lavada.




















Mas isto de feiras e de romarias nunca não se entende bem no presente o que as fez grandes no passado. Porque vingam umas e outras desfalecem ,porque crescem umas e outras minguam. Não se vislumbram agora razões para que a Feira de Castro tenha acrescentado e feito perdurar ao longo dos séculos tanta mística e tanta euforia a pontos de terem determinado não só a sua sobrevivência actual mas, particularmente e de uma forma determinante, a própria importância e o crescimento da vila que de pequeno aglomerado sem peso, passou a burgo com importância no roteiro da economia regional.



















Foi a feira que fez a vila.
Até aos anos quarenta, todo o desenvolvimento urbano de Castro era ditado em função e por mor da feira.



















De fora, de muito lado, de todo o Baixo Alentejo, os lavradores mandaram fazer aqui a sua casa. Eram as casas de pousada para nelas se instalarem com a família e a arrearia durante os dias da feira. Vinham muito antes. Abalavam muito depois .No resto do tempo, alguém da terra, compadre ,afilhado ou recomendado ,nelas ficava a morar, a cuidar, a conservar.
Por outro lado, os naturais ao fazerem as suas próprias casas , tinham sempre em mente a semana da feira e os benefícios que dela podiam colher. Nos quintais mandavam fazer grandes cavalariças para arrecadarem as muares que os marchantes ali metiam pagando um tanto à argola .Pela mesma razão, aproveitavam-se e guardavam-se as aguas das chuvas, de inverno encaminhadas para cisternas que depois se vendiam a um tanto o caldeirão.
Tempos antes do terceiro domingo de Outubro, começavam a rondar os forasteiros à procura de quartel.Assim se chamava ao poiso que os residentes davam, ou melhor, vendiam aos feirantes. Normalmente , juncavam-se as casas de fora e ali dormia gente às laradas, em colchões e enxergas, estendidos pelo chão.




















Castro Verde sem verdura
Criado numa ladeira
Muito parvo é quem lá está
Tirando os dias de feira

Outro mote, outras décimas que no tempo também se perderam. Sobra ,no entanto, a evidência do quanto agrado encerrava passar uns dias na Feira de Castro. Bailes ,bailaricos , andar nos adjuntos, passear com os mais que tudo ,enfeirar , estrear roupas, empapoilar-se , mostrar trajos novos.
Não podemos já avaliar nem valorizar as emoções antanho vividas, que traziam as gentes em carros e carroças e também a pé, de distancias tão grandes. Era o negócio que ditava a feira mas era principalmente o folguedo que a fazia ser grande de povo e de entusiasmos. As noites passavam-se em conversas, cantes e descantes, copinhos e extravagancias que na memória perduravam para sempre e na vida compensavam todas as privações sentidas.
Por isso, a Feira de Castro era para os de cá, tanto como para os de fora, um acontecimento esperado e vivido intensamente no flagrante e por antecipação. Esta terra mudava o rosto quando se avizinhava a data. Caiavam-se as paredes, faziam-se as barras e dentro de casa ,escamichava-se tudo ,alindava-se o que as posses permitiam .Eram as limpezas da Feira de Castro.



















A euforia saía à rua e os rostos andavam mais sorridentes. Por esta ocasião já se dizia: está chegada a feira, oxalá não chova! Davam-se palpites acerca do tempo e da enchente de povo que se aproximava. As conversas cruzavam-se sempre convergentes no mesmo tema .Este ano há já tanto cigano por aí que é certo que vamos ter uma grande feira. Pedia-se, quase se rezava para que assim fosse, por motivos que tinham a ver com a venda das argolas, dos caldeirões de água, das mantas tecidas ao longo do ano, dos quartos de quartel, mas também por bairrismo. Os castrenses cresciam ,inchavam tanto mais, quanto maior fosse o burburinho, quanto mais avassaladora fosse a enchente, quanto mais inesquecível fosse a feira para os visitantes se renderem a pontos de fazerem novas décimas, agora já esquecidas, com alguns motes ainda lembrados ,como este que começava :



















Adeus, oh feira de Castro
Bem te fico conhecendo …

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A MORTE E O CANTE

Morreu Francisco António, o Chico Balhão, grande amigo, homem de bom feitio, entusiasta do cante e amante da campaniça.





















Com ele, o sobrinho Manuel Bento e a Perpetua Maria, vivemos horas e horas de intensa actividade cultural, percorremos o continente, fomos às ilhas e deslocámo-nos ao Canadá, dando a conhecer a sedução dos seus cantes e a magia dos toques das suas violas.

Cantou às vozes enquanto pode e rasgou as cordas até perder a agilidade das mãos.
Sofreu, sofreu, anos sem fim e ontem repousou, finalmente.
Hoje, damos tristemente a notícia.

Fazemos, agora, eco do XIX Encontro de Tocadores de Viola Campaniça e Cantadores de Despique e Baldão que vai acontecer , como sempre, no sábado da Feira de Castro, este ano para homenagear o cantador Florêncio Jacinto.


Temos como companhia, o Grupo Coral “ As Mondadeiras” de Santa Cruz, um coro misto do concelho de Almodôvar que se organizou por ocasião do São João, no ano de 1999, quando a sua freguesia participou num desfile etnográfico .
Primeiro cantaram a sós, conforme podiam e sabiam, mas passados dois anos, o Mestre Manuel Vinagre , passou a ser seu ensaiador, afinando-lhes as vozes, fidelizando os estilos, orientando as entradas.

Ocupam o Centro Cultural do Monte das Viúvas,que estava há muito tempo esvaziado de funções, onde desenvolvem várias actividades, para além dos seus ensaios semanais às quintas feiras.


A sua tenacidade e o prazer que interiorizam, fazem das “ Mondadeiras” mais um exemplo de cultura vida, com uma valia social incontornável, capaz de preencher o grande vazio que se gera em quem mora hoje,nas profundezas deste Alentejo.

A RAZÃO DE SER


Há duas décadas que na Rádio Castrense o Património escuta, acarinha e dá voz à cultura local.
Semanalmente da telefonia soltam-se correntes de afectos encadeados por palavras e sonoridades que nos ligam numa mística que se reconhece sem rebuço. Ficamos presos, ligados por um dizer e escutar, pelo escrever e ouvir que umas vezes é confissão, outras gracejo e outras ainda um desfiar de memórias herdadas e que não nos resignamos perder no silêncio que os tempos modernos pretendem impor.
Em dias certos, à hora combinada, ficamos expectantes e abrimos o coração e a mente para o que der e vier, porque já é sabido que com sotaque da serra ou do campo, hão-de chegar à nossa companhia os amigos das palavras, das “histoiras”, das “adivinhações”, das “procuras”, das quadras, dos toques de acordeão, harmónica ou campaniça, os cantadores de baldão e os nossos grupos corais. Presenteamos o auditório com abraços de melodia e afagamos muita solidão dorida com o imaginário de uma companhia que por momentos a dissolve e dissipa.

No lugar do isolamento, impusemos o bem estar do dar as mãos, agarrando um propósito que passa por valorizar o nosso património oral, por entender e interiorizar que nascemos num espaço vivo, com uma cultura própria que é fundamental para o fortalecimento da nossa identidade como Povo. Sem essa mesma cultura, sem esses traços caracterizadores da nossa fisionomia anímica, perdemos o contacto às raízes, passamos a ser iguais a tudo e ao nada, ficamos sem feições próprias, passaremos a ser obra e efeito de um pseudo progresso estonteante que tanto tem estado em voga, em todas as vertentes, nos últimos tempos.
Palmo a palmo, temos conquistado terreno à rota do esquecimento que tende a apagar todas as memórias que nesta terra representem os valores de tradição. Cada vez mais, ganhamos mais vontades e entusiasmo para as nossas fileiras e por este Alentejo já se vai dizendo que importa defender os usos e os costumes, a nossa forma de ser e de estar, numa afronta clara à saga do esquecimento que se pretende impor, apagando deliberadamente tudo quanto possa sugerir o elogio da tradição.
No espaço que abarcamos, dentro das fronteiras que a emissão define, fazemos a apologia da verdade cultural alicerçada na profundeza dos valores que emanam espontaneamente, nascidos de séculos de vivências comuns, de anseios adiados e de prazeres curtidos numa comunhão de vontades que gera relações e laços e que importa não perder.
Deste jeito, o orgulho de ser poeta, tocador ou cantador voltou a ser possível alimentado pelos mimos compensadores dos elogios que com naturalidade brotam de quem se sente agraciado pela arte, pelo convívio ou ainda pelo prazer que resulta de nos sentirmos grupo com identidade fortalecida no meio d e um quase deserto de referencias.
E isto encoraja a vontade de escrever e de revelar quanto se versejou , partilhando os nossos pensamentos, mágoas e razões com uma comunidade imaginada de iguais, em vez de nada fazer ou então, rascunhar só para si e guardar no escuro das gavetas a beleza das rimas.
E com o cante, os cantes de tradição, despertou por cá novo ímpeto de voltar a fazer cantigas que são invariavelmente a expressão de uma vontade imensa de comunicar, de estabelecer laços prazenteiros de convívio, amizades que perduram para além do momento ou da conveniência, comunhão de vontades que se casam porque são convergentes.

Neste estar sincronizado à volta da telefonia, vem ganhando razão a razão da nossa perseverança e impomo-nos às tendências na nova era que as televisões e os vários mandos engendraram, sempre conducentes a um maior isolamento social e a um crescente empobrecimento espiritual já que as directrizes em que se baseiam assentam no tudo feito, no pronto a ingerir sem mastigar nem tomar o gosto.
Pretendem impor-nos valores importados, não releva donde, desde que substituam cabalmente quanto aqui floria , resultado de sementeiras cultivadas de geração em geração. Por isso, em vez de se promover a obra, dá-se o produto já feito.
Contra esta atitude inibidora do nosso crescimento como Povo, lançamos palavras de ânimo ao nosso auditório e multiplicamos paulatinamente as participações em antena e as motivações dos que nos ouvem para empreenderem e fazerem e em especial para engendrarem um movimento de opinião que numa firme atitude rejeite as políticas de afastamento e de abandono dos nossos valores culturais.
(in prefácio publicação Cortiçol)