sábado, 17 de outubro de 2009

NÃO HÁ FEIRA COMO A DE CASTRO

Não há feira como a de Castro
Nem lenha como a de azinho
Não há filhos como os dos padres
Que ao pai chamam padrinho

Perdeu-se o sentido às décimas mas perdurou o mote, enaltecendo, desde egrégios tempos , aquela que é ainda a grande feira do sul , um evento que marcou durante séculos o calendário das gentes campaniças. Mais do que os meses, os acontecimentos festivos agendavam o tempo e a vida ,ditavam os procederes, serviam de azimute para nos localizarmos temporalmente. Era o Ano Bom, depois o Entrudo, a seguir a Páscoa ,não tardavam os Santos e até à Feira de Castro era um pulo.



Fazia-se isto ou aquilo, antes ou depois da Feira de Castro. Por esta ocasião, esperada durante meses, tratavam-se de assuntos, vendiam-se gados e produções, compravam-se enxovais e farpelas, renovavam-se as alfaias, abasteciam-se as despensas dos legumes para as comedias, repunham-se nas cozinhas os barros partidos, compravam-se as empreitas, frutos secos, varejas, arcas, cadeiras, bancos , decas, tabuleiros e tábuas de amassar ,vindos de Monchique juntamente com os perinhos que durante meses perfumavam a casa e as gavetas da roupa lavada.




















Mas isto de feiras e de romarias nunca não se entende bem no presente o que as fez grandes no passado. Porque vingam umas e outras desfalecem ,porque crescem umas e outras minguam. Não se vislumbram agora razões para que a Feira de Castro tenha acrescentado e feito perdurar ao longo dos séculos tanta mística e tanta euforia a pontos de terem determinado não só a sua sobrevivência actual mas, particularmente e de uma forma determinante, a própria importância e o crescimento da vila que de pequeno aglomerado sem peso, passou a burgo com importância no roteiro da economia regional.



















Foi a feira que fez a vila.
Até aos anos quarenta, todo o desenvolvimento urbano de Castro era ditado em função e por mor da feira.



















De fora, de muito lado, de todo o Baixo Alentejo, os lavradores mandaram fazer aqui a sua casa. Eram as casas de pousada para nelas se instalarem com a família e a arrearia durante os dias da feira. Vinham muito antes. Abalavam muito depois .No resto do tempo, alguém da terra, compadre ,afilhado ou recomendado ,nelas ficava a morar, a cuidar, a conservar.
Por outro lado, os naturais ao fazerem as suas próprias casas , tinham sempre em mente a semana da feira e os benefícios que dela podiam colher. Nos quintais mandavam fazer grandes cavalariças para arrecadarem as muares que os marchantes ali metiam pagando um tanto à argola .Pela mesma razão, aproveitavam-se e guardavam-se as aguas das chuvas, de inverno encaminhadas para cisternas que depois se vendiam a um tanto o caldeirão.
Tempos antes do terceiro domingo de Outubro, começavam a rondar os forasteiros à procura de quartel.Assim se chamava ao poiso que os residentes davam, ou melhor, vendiam aos feirantes. Normalmente , juncavam-se as casas de fora e ali dormia gente às laradas, em colchões e enxergas, estendidos pelo chão.




















Castro Verde sem verdura
Criado numa ladeira
Muito parvo é quem lá está
Tirando os dias de feira

Outro mote, outras décimas que no tempo também se perderam. Sobra ,no entanto, a evidência do quanto agrado encerrava passar uns dias na Feira de Castro. Bailes ,bailaricos , andar nos adjuntos, passear com os mais que tudo ,enfeirar , estrear roupas, empapoilar-se , mostrar trajos novos.
Não podemos já avaliar nem valorizar as emoções antanho vividas, que traziam as gentes em carros e carroças e também a pé, de distancias tão grandes. Era o negócio que ditava a feira mas era principalmente o folguedo que a fazia ser grande de povo e de entusiasmos. As noites passavam-se em conversas, cantes e descantes, copinhos e extravagancias que na memória perduravam para sempre e na vida compensavam todas as privações sentidas.
Por isso, a Feira de Castro era para os de cá, tanto como para os de fora, um acontecimento esperado e vivido intensamente no flagrante e por antecipação. Esta terra mudava o rosto quando se avizinhava a data. Caiavam-se as paredes, faziam-se as barras e dentro de casa ,escamichava-se tudo ,alindava-se o que as posses permitiam .Eram as limpezas da Feira de Castro.



















A euforia saía à rua e os rostos andavam mais sorridentes. Por esta ocasião já se dizia: está chegada a feira, oxalá não chova! Davam-se palpites acerca do tempo e da enchente de povo que se aproximava. As conversas cruzavam-se sempre convergentes no mesmo tema .Este ano há já tanto cigano por aí que é certo que vamos ter uma grande feira. Pedia-se, quase se rezava para que assim fosse, por motivos que tinham a ver com a venda das argolas, dos caldeirões de água, das mantas tecidas ao longo do ano, dos quartos de quartel, mas também por bairrismo. Os castrenses cresciam ,inchavam tanto mais, quanto maior fosse o burburinho, quanto mais avassaladora fosse a enchente, quanto mais inesquecível fosse a feira para os visitantes se renderem a pontos de fazerem novas décimas, agora já esquecidas, com alguns motes ainda lembrados ,como este que começava :



















Adeus, oh feira de Castro
Bem te fico conhecendo …