quarta-feira, 25 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A ESCOLA

A escola era a primeira grande contrariedade da nossa vida. Se calhar, foi assim desde sempre e até há bem pouco tempo, quando a moçada inverteu as regras e passou a dominar, exigindo com gritos e prantos, tiranizando com rebeldia e desassossego. Mas dantes, a escola era o verdadeiro desmame, o largar as saias, o caminhar sozinho, balsa às costas, para aprender a ser homem, numa caminhada que se completava mais tarde, depois das sortes, a marchar em pelotão, espingarda às costas.
Os primeiros gatafunhos eram feitos numa pedra de ardósia encaixilhada a madeira de cor natural que depois ía escurecendo e ganhando lustro com passar do tempo e dos dedos, às vezes besuntados de agarrarem o pão com banha salpicada de açúcar. Os lápis eram da mesma pedra , muito redondinhos e afilados, do tamanho de um palmo, forrados a papel numa das pontas, num axadrezado verde, vermelho ou azul, de tons desbotados, talvez pela cola.
Quando se acabavam os compradiços, faziam-se de talisca, raspados à faca e rolados no chão para os adelgaçar e lhes arredondar a forma. Usava –se como acessório um frasquinho de remédio vazio, para encher com água e depois molhar num farrapo com que se limpava a escrita. Era esse o bom proceder, mas muitas vezes acontecia usar-se o cuspinho e a manga da blusa para o mesmo efeito.

Com as brincadeiras, empurrão de um moço, chulipa de outro, rasteira ou escorregadela do cardado das botas nas calçadas polidas, vinha a balsa ao chão e a pedra partia-se. Um pranto até casa, baba e ranho com fartura, queixas e mais queixas para comover, depois, tareia, perdão ou castigo e com muita sorte, lá se arranjavam dez tostões para comprar outra, novazinha, para no outro dia mostrar. Ao professor os trabalhos. Aos colegas a brancura da moldura, ainda sem dedadas nem borrões de tinta.
Pior do que tudo, ainda pior do que disciplina do erguer bem cedo, do estar comportado horas a fio sentado numa carteira, dos trabalhos de casa, da falta de tempo para a brinca, eram os maus tratos que os professores davam. Empinar a tabuada numa cantarolada colectiva, saber conjugar os verbos num recitar decorado, desfiar os nomes dos rios, das serras e das estações dos caminhos-de-ferro, daqui e dalém mar em África, era empresa pequena face à afronta da sujeição de se estar uma manhã inteirinha à janela da escola com as orelhas de burro enfiadas na cabeça. Mas mais custoso ainda, eram as ponteiradas fazedoras de galos que nos arrepiavam mesmo quando estoiravam nas cabeças dos outros.
E as meninas de cinco olhinhos, palmatórias concebidas para extrair uma dor máxima de quem as experimentava, com o esforço mínimo de quem as manobrava, eram verdadeiros objectos de tortura que o próprio sistema acabou por proibir.
Mas sucederam-lhes as réguas, de pau-santo ou madeira rosa, bem grossas e pesadas que era para fazer arder. Os professores tiravam as malditas, de um castanho avermelhado, da gaveta da secretária no princípio do dia e estendiam-nas ao seu lado, em cima do tampo, bem à vista de todos.
Eram os problemas mal resolvidos, os erros dos ditados, as falhas de memória, o azar de se ser criança em tempo cinzento que davam azo a tanta reguada. Havia tabela. Tantas por cada erro e tantas por cada conta mal feita. Tantas por isto e outras tantas ou ainda mais por aquilo. O bater fazia parte das regras, como agora faz parte não contrariar os miúdos e deixá-los ter o protagonismo todo.
Mesmo os pais, numa atitude de alguma inferioridade, subserviência ou temor reverencial face ao professor, não raro diziam ou mandavam o recado: chegue-lhe! As que caem no chão são as que se perdem! Desde que não lhe parta braço nem perna…chegue-lhe!...
A escola só era suportável uma ou duas vezes no ano quando o professor Abílio cá vinha dar, trazendo de Beja uma maquineta para passar filmes com desenhos animados de coelhos a comer cenouras e mosquitos que picavam e depois davam febrões.
Nesse dia havia tréguas. As réguas malditas de um acastanho avermelhado não saíam da gaveta. Corriam-se os estores e penduravam-se panos de flanela preta nas janelas para fazer escuro. Era um alívio.

Mas logo voltava o fadário dos ditados, das contas, das idas ao quadro e depois…das reguadas. Cinco numa mão. Cinco na outra. Quando anteviam a zurzidela, os miúdos iam à cerca do Virgílio Lagartinho à busca de cebola albarrã e untavam as mãos muito bem untadas. Havia a crença de que com tal fricção a carne não doía e se a mezinha fosse bem feita, até podiam fazer estalar a régua. Que se saiba não passou de crença.
Mas quando eram apanhados desprevenidos, sem preparação prévia, as pernas tremiam, os braços esticavam-se devagarinho, alternadamente, a muito custo e apetecia tirar a mão na hora certa, para sair em falso a palmatoada e verem o professor atingir-se. Mas ninguém o fazia, porque eles iravam-se e ainda se entornava o caldo. Aguentava-se como se podia, menos as lágrimas porque essas escorriam imparáveis. Passo largo para o lugar. As mãos inchavam de dor. Sem saber o que lhes fazer, metiam-se entre os braços num gesto instintivo como que para esconder. Logo a seguir cuspiam nelas e agarravam os ferros da estrutura das carteiras. Ouviam-se chiar. Se havia força para pedir para vir cá fora ou se a zirga acontecia pouco antes do intervalo, a custo tiravam a gaita e lavavam-nas na urina nem sempre contida. Também era mezinha. Aos outros, mais tarde, dizia-se que era remédio santo.
Nas memórias de um tempo cinzento talvez existam escolas coloridas, com rodas e risos de meninos, mas a nossa só ganhava alguma cor quando os panos de flanela preta tapavam a luz das janelas e por uns momentos, víamos os bonecos que o professor Abílio trazia de Beja.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ONTEM À NOITE



Ontem à noite tivemos um Património especial.

Entrámos com o fado, na voz de José Gomes Camacho, natural de Aljustrel, mas a viver em Almada desde os seus 14 anos. Foi emigrante no norte de França onde trabalhou como montador de automóveis das fábricas da Renault.
Depois, regressou ao país e cá vive, apaixonado pelo fado e pelo Alentejo.
Pelo telefone chegaram-nos adivinhas, afectos, histórias e poesias que, como sempre, enfeitam de prazer o nosso programa.

Seguiram-se sons antigos, falas, cantes e lembranças de quase vinte anos.

Mas no fim e noite dentro, o Património foi cenário de filmagens.

Tivemos connosco, como protagonista, Celina Piedade, uma voz , um dote artistico, uma presença enriquecedora, um contributo para a nossa cultura e uma figura destacada do grupo de Rodrigo Leão.

Um dia destes, talvez, possamos ver o que se passou, num qualquer canal de televisão.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

OS PRECEITOS DO BALDÃO

Em volta de uma mesa sentam-se os cantadores, normalmente juntinhos e sobre a mesma dispõem-se os copos e coloca-se o mais . Buscam posições , procuram parceiros, trocam olhares fugidios, disfarçadamente miram a aparência dos concorrentes, tossem, pigarreiam , limpam a garganta, passam sugestivamente a mão pelo pescoço e invariavelmente lamentam-se pela sua fala que hoje para nada presta.
Tenho estado tão constipado....se calhar até nem canto, é costume dizerem.
Mas cantam sempre, é uma desculpa adiantada para qualquer falho ou para iludir os outros se eles se fiarem nas queixas.
Entretanto, todos se aconchegam, ajeitam-se nos lugares para darem largueza ao tocador. E a campaniça começa a retenir a moda da marianita do principio ao fim. Sempre assim foi e assim será . Tal como o rumo das cantigas segue obrigatoriamente o percurso inverso ao sentido dos ponteiros do relógio. È um preceito. Uma regra que ficou estabelecida desde o início deste cante para que cada vez que se juntam não tenham de estar a preocupar-se com os pormenores da volta. Mas depois dos primeiros acordes, os olhares fixam-se na boca e os sentidos nos dizeres do cantador que é o mão. Cresce a tensão, aumenta o desejo, redobra o frenesim e o silencio do principiante é insuportável. O tocador que já percorreu a moda ponto por ponto então sustem-se , já não abala ,pisa as cordas com os dedos esquerdos e desata a repetir a chamada com a unha acrescentada do polegar direito fazendo soltar a viola ganidos de impaciência .Chegados aqui , o cantador já sem saída , ganha fôlego, fecha os olhos, enterra a boina e lá vai.
Lançada a primeira cantiga, as demais já se sucedem sem tanto receio , naquele dito rodar às avessas do tempo.
Enquanto a vez não chega ,matina-se na cantiga seguinte, debica-se no petisco e vazam-se os copos. Pouco se fala para não entreter, para não fazer fugir o tino e a rima.
E aos dizeres dos cantadores os outros respondem no flagrante só com incontidos acenos de cabeça ou piscadelas de olho furtivas. Quando chegar a sua vez logo ripostam se for caso disso e se a habilidade lhes bastar. São regras, são preceitos. O cante depois começa a buscar-se a si próprio, engendra um fundamento, tem de encontrar um rumo. E a poesia fervilha, repentista, cortante, às vezes marota. De tudo se trata, ali tudo se diz, rimando, com uma musicalidade e uma entoação que nos transportam longe.
Os cantes são desafios à imaginação, à inspiração e à resistência. Duram horas à fio , sempre sem quebras nem pausas, penetram pelas madrugadas como se o tempo a cantar não contasse.
O tocador nada lhes diz, ouve-os, olha-os, de quando em vez deixa escapar um sorriso. Os outros levantam-se nos intervalos da sua vez quando precisam de despejar o bebido, mas o mestre aperta-se, sustem-se, para não quebrar a magia que a viola e o rodopiar das razões geram em volta da mesa. Discutem mil assuntos, acertam contas antigas, mas filosofam invariavelmente acerca da valia da honra, do dinheiro, do ferro, do ouro, do campo e da serra.
Que saber o seu, que arte a deles.
Do fundo do tal tempo , guardam a memória de cantares antigos , de génios andantes que de feira em feira ganhavam sustento e acrescentavam a fama.
Derivado do despique este cante arreigou-se nas fraldas da serra, ali se forjou e ali perdura , alimentado pela seiva de gentes ricas em valores tradicionais e senhores plenos da sua identidade. Readquiriu recentemente grande fôlego esta expressão vocal e poética tendo os seus interpretes voltado a sentir brio na sua arte. O baldão furtou-se a uma morte anunciada e ganhou alma , alento, adeptos ,ouvintes , apreciadores. Tem presentemente tudo o que é necessário para vencer o esquecimento e continuar a cantar-se no sentido inverso ao dos ponteiros que marcam o ritmo dos dias.

O DESPIQUE

video

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

VALORIZAR O IMATERIAL

Às quintas-feiras entre as 21 e as 24 horas e depois em reposição aos domingos, a partir das 8 horas, pode seguir o rumo do Património em 93 FM, a frequência da Radio Castrense.

São três horas de saberes, memórias e afectos que inundam a nossa região, levando conforto a quem vive só, lembranças a quem vivênciou o outro lado do tempo e a autenticidade das expressões, a toda uma grande roda de amigos que comungam a certeza de que a nossa identidade cultural é um bem precioso.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A PASSARADA

video

GANHÕES

Os descantes partiam da vila como um murmúrio, subiam de tom ao passar das cercas e prolongavam-se caminhadas fora.
Durante a jornada, os mais afoitos e os ganhantes na arte, davam a deixa do começo e todos os outros pegavam depois na moda, aberta ao improviso dos requintas, sempre aconchegante para o conjunto, por isso repetida até à exaustão, no troar do coro que unido como as vozes, avançava no êxtase seara dentro. Por ser bálsamo e dínamo, o cante era envolvente das gentes e do trabalho. Por ser fio condutor, continuava a unir os corpos mesmo já depois, altas horas, no encosto de um balcão onde o vinho se emborcava, também ele uma ajuda dissolvente para as mágoas.
Necessidade, amparo e vicio, tudo isto a moda era.
Lá bem no fundo do nosso tempo, os contornos da memória perdem-se , numa mistura de paixão e sons, imagens e situações, apenas emergindo cantares e gestualidades que de uma forma atávica os homens agora vão repetindo, como sina sua como eco da tradição. E tal como se lembram as letras e se perpetuam as vaias, iguaizinhas desde há séculos, também se veneram os seus intérpretes. Menos do rijo , na interioridade das recordações , mas sempre com um véu sublime de admiração e estima, pronunciam-se palavras quase mágicas que são nomes de pessoas que cantaram como os rouxinóis e que, apesar de tudo e só por isso, nunca serão esquecidos.
Zé Alfredo, Corte Gafo, Zé do Forno, Coelhinho e Evangelista, são cinco dos muitos que o povo venera ao cantar ainda as mesmas modas que os fizeram brilhar. Como eles, tanta gente, escaldou as gargantas arrancando vaias e requebras que sublimavam as fraquezas do corpo e as contingências da vida. Muitos, tantos homens, tantas vozes que nesta terra bradaram pelo sonho de tempos melhores ou por amores ausentes e clamaram as belezas da terra e dos corpos olhos seus.
De modo informal acontecia o cante. Os grupos criavam-se em função de qualquer circunstância e também por qualquer circunstância se diluíam agora, para se refazerem mais tarde. Com o passar dos anos, assistiu-se a uma consolidação da estrutura dos coros e começaram a perdurar no tempo.
A memória leva-nos aos ensaios, na Casa do Povo, no casão do Jacinto Maruta, no Centro Popular e no Celeiro da Comenda onde em dia certo e à hora marcada o grupo cantava. Vemos o professor Sampaio e tantos cantadores já idos. Ouvimos as modas, recordamos as dificuldades, o medo do proibido, a vontade de superar a pequenez de antanho. E quando um dia , depois de muita insistência, lográmos que uma editora nos gravasse um disco e nos pediu o nome do coral que ía ser editado, pensámos bem, reflectimos, baptizámos e mandámos como resposta: - Grupo Coral e Etnográfico “ Os Ganhões” de Castro Verde.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CANTAM AS FILHAS DA ROSA


video


Manuel Bento, Francisco António e Perpétua Maria, são três vultos da tradição etno-musical ligada à Viola Campaniça que emprestaram todo o seu querer e a sua absoluta disponibilidade, para que hoje, se tenha ainda viva, esta componente tão importante do nosso património.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

DOIS APONTAMENTOS : José Rosa na Oração das Almas e Eugénio Brito numa Moda

video

AS MODAS


Cada palavra exprime um sentimento, cada verso encerra um segredo já indecifrável, cada melodia é um somatório de sensibilidades, de paixões e de arrebatamentos que fazem de todas as "modas" um deslumbre de sonoridades.

E sempre que aparecia uma "moda nova" todos a cantavam, como que numa repetição de intenções, como que numa prece a qualquer divindade que amainava os sofrimentos e acrescentava beleza à vida. Bebia-se com os sentidos o estilo e carregava-se na memória as sílabas, para no dia seguinte se repetir e ensinar o aprendido.

E assim, numa oralidade absoluta, chegou até nós um cancioneiro imenso, transportado de geração em geração, passando pelos desfiladeiros do tempo, tropeçando nas fragas da lembrança, somando acrescentos casuísticos que resultavam mais da falha de ouvido do que da intencionalidade de modificar a obra.
Muitos grandes cantadores sabem de cor uma imensidão de "modas" que interpretam enquanto podem e depois consigo levam para o esquecimento.

Luis Franganito teve a lembrança e depois a iniciativa de passar ao papel duas centenas de "modas" acompanhadas das "cantigas" que julgou mais adequadas para cada uma delas.

São trechos poéticos que o Alentejo cantou e ainda canta, melodias que nos tocam a alma, expressões do "cante" que falam de toda uma série de elementos e realidades que inspiraram os seus autores e ainda agora, na sua aparente singeleza, continuam a fazer-nos sentir a profundidade e o alcance da sua vibração quando ouvimos interpretá-los.


Em cada "moda" coligida guarda-se um bocado do nosso ser colectivo e com este livro faz-se perpetuar parte significativa da alma de um povo que cantava e canta aos passarinhos, à terra, aos amores, ao próprio trabalho que se lhe impunha tão sofredor. Folheando estas rimas, passamos em visita um somatório de emoções que de forma assumida continuamos a chamar nossas, identificamo-nos com elas, fazem-nos sentir quem somos efectivamente.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PERPÉTUA MARIA

Do corpo pequeno transbordava-lhe uma vontade enorme de comunicar. Era expansiva nas falas e sublime no cantar de modas aprendidas em moça, que interpretava sempre briosa em toadas e vaias colhidas no ontem e mantidas intactas no éter da memória, sem desvios, sem remedeios.
A voz saía-lhe pura, torneada pela mais fina melodia e elevava-se perfeita enfeitando com brocados de sons os dizeres das poesias simples.
Sinto, ainda agora, a emoção estranha, misto de paixão e espanto, que tanto me cativou logo na primeira vez que ouvi o seu canto. Vai para uma década, quando a procurei, em busca duma tradição perdida e de uma tal viola campaniça que sabia ainda haver lá para a Funcheira.
Foi franca no acolhimento e cresceu-lhe a alegria quando lhe pedi que cantasse.
Fechou a porta que da cozinha diz para a casa de entrada e ficámos por dentro, na semi-obscuridade , atentos e ansiosos por ouvir a revelação. O marido de olhar brilhante, também satisfeito pelo nosso interesse, sentou-se numa cadeira baixa de buinho e ela ficou de pé ao seu lado, com pose, descansando a mão sobre o ombro do tocador, como era costume seu. Ouvi então soltar os sons mais lindos ,da voz e da viola que tão bem ligavam, entrelaçando-se na perfeição, numa simbiose de harmonias cujas vibrações , como por magia, nos arrastavam para os tempos doutros dizeres e sentires.
Trocámos, desde então, a admiração pela amizade de que guardo a gratidão.
Perpétua Maria como que ciente da brevidade da vida , nunca cedeu ao comodismo e para cantar desafiava a oportunidade do momento, o jeito que não dava, o transtorno que fazia , sem mostrar desalento ,antes devoção em divulgar o cante , aproveitava saída a saída, excedendo-se de palco em palco.
Assim foi até que o mal, com crueldade ,um dia lhe tirou o génio, lhe apagou o gosto ,lhe roubou a voz .
Terminou em Messejana , já com custo, o percurso que anos antes havia iniciado com exuberância em Entradas , ficando pelo meio todo o prazer gerado na sua determinação de emprestar a voz à moda campaniça e de ilustrar com tal entrega a possibilidade de se poder recuperar do esquecimento uma tradição perdida .
Percorreu o Alentejo, desceu mais a sul, cantou em Lisboa e esteve no norte.
Nas actuações , sabia apreciar e contabilizava sempre a empatia do público, destacando pelo seu ardor e envolvimento os aplausos sentidos em Toronto, em Angra do Heroísmo, na Fundação Gulbenkian e no Teatro Carlos Alberto que muito a desvanesceram e sensibilizaram.
Perpétua Maria da Aldeia Nova ,deixou-nos a sua voz na lembrança e o seu exemplo no sentido. Quantos a ouviram e lograram sentir o encantamento da sonoridade das suas modas, puderam percorrer o reverso da aparência e tocar nas origens ,vertidas claramente nas toadas e nas vaias que a viola campaniça acompanhava em rasgos de nostalgia.
Agora, no silencio dos pensamentos vamos continuar a escutar a melodia do seu cantar, fazendo cada momento menos breve, cada paixão mais intensa, cada utopia menos vã.

21/9/97