quinta-feira, 5 de novembro de 2009

AS MODAS


Cada palavra exprime um sentimento, cada verso encerra um segredo já indecifrável, cada melodia é um somatório de sensibilidades, de paixões e de arrebatamentos que fazem de todas as "modas" um deslumbre de sonoridades.

E sempre que aparecia uma "moda nova" todos a cantavam, como que numa repetição de intenções, como que numa prece a qualquer divindade que amainava os sofrimentos e acrescentava beleza à vida. Bebia-se com os sentidos o estilo e carregava-se na memória as sílabas, para no dia seguinte se repetir e ensinar o aprendido.

E assim, numa oralidade absoluta, chegou até nós um cancioneiro imenso, transportado de geração em geração, passando pelos desfiladeiros do tempo, tropeçando nas fragas da lembrança, somando acrescentos casuísticos que resultavam mais da falha de ouvido do que da intencionalidade de modificar a obra.
Muitos grandes cantadores sabem de cor uma imensidão de "modas" que interpretam enquanto podem e depois consigo levam para o esquecimento.

Luis Franganito teve a lembrança e depois a iniciativa de passar ao papel duas centenas de "modas" acompanhadas das "cantigas" que julgou mais adequadas para cada uma delas.

São trechos poéticos que o Alentejo cantou e ainda canta, melodias que nos tocam a alma, expressões do "cante" que falam de toda uma série de elementos e realidades que inspiraram os seus autores e ainda agora, na sua aparente singeleza, continuam a fazer-nos sentir a profundidade e o alcance da sua vibração quando ouvimos interpretá-los.


Em cada "moda" coligida guarda-se um bocado do nosso ser colectivo e com este livro faz-se perpetuar parte significativa da alma de um povo que cantava e canta aos passarinhos, à terra, aos amores, ao próprio trabalho que se lhe impunha tão sofredor. Folheando estas rimas, passamos em visita um somatório de emoções que de forma assumida continuamos a chamar nossas, identificamo-nos com elas, fazem-nos sentir quem somos efectivamente.