quinta-feira, 12 de novembro de 2009

GANHÕES

Os descantes partiam da vila como um murmúrio, subiam de tom ao passar das cercas e prolongavam-se caminhadas fora.
Durante a jornada, os mais afoitos e os ganhantes na arte, davam a deixa do começo e todos os outros pegavam depois na moda, aberta ao improviso dos requintas, sempre aconchegante para o conjunto, por isso repetida até à exaustão, no troar do coro que unido como as vozes, avançava no êxtase seara dentro. Por ser bálsamo e dínamo, o cante era envolvente das gentes e do trabalho. Por ser fio condutor, continuava a unir os corpos mesmo já depois, altas horas, no encosto de um balcão onde o vinho se emborcava, também ele uma ajuda dissolvente para as mágoas.
Necessidade, amparo e vicio, tudo isto a moda era.
Lá bem no fundo do nosso tempo, os contornos da memória perdem-se , numa mistura de paixão e sons, imagens e situações, apenas emergindo cantares e gestualidades que de uma forma atávica os homens agora vão repetindo, como sina sua como eco da tradição. E tal como se lembram as letras e se perpetuam as vaias, iguaizinhas desde há séculos, também se veneram os seus intérpretes. Menos do rijo , na interioridade das recordações , mas sempre com um véu sublime de admiração e estima, pronunciam-se palavras quase mágicas que são nomes de pessoas que cantaram como os rouxinóis e que, apesar de tudo e só por isso, nunca serão esquecidos.
Zé Alfredo, Corte Gafo, Zé do Forno, Coelhinho e Evangelista, são cinco dos muitos que o povo venera ao cantar ainda as mesmas modas que os fizeram brilhar. Como eles, tanta gente, escaldou as gargantas arrancando vaias e requebras que sublimavam as fraquezas do corpo e as contingências da vida. Muitos, tantos homens, tantas vozes que nesta terra bradaram pelo sonho de tempos melhores ou por amores ausentes e clamaram as belezas da terra e dos corpos olhos seus.
De modo informal acontecia o cante. Os grupos criavam-se em função de qualquer circunstância e também por qualquer circunstância se diluíam agora, para se refazerem mais tarde. Com o passar dos anos, assistiu-se a uma consolidação da estrutura dos coros e começaram a perdurar no tempo.
A memória leva-nos aos ensaios, na Casa do Povo, no casão do Jacinto Maruta, no Centro Popular e no Celeiro da Comenda onde em dia certo e à hora marcada o grupo cantava. Vemos o professor Sampaio e tantos cantadores já idos. Ouvimos as modas, recordamos as dificuldades, o medo do proibido, a vontade de superar a pequenez de antanho. E quando um dia , depois de muita insistência, lográmos que uma editora nos gravasse um disco e nos pediu o nome do coral que ía ser editado, pensámos bem, reflectimos, baptizámos e mandámos como resposta: - Grupo Coral e Etnográfico “ Os Ganhões” de Castro Verde.