terça-feira, 3 de novembro de 2009

PERPÉTUA MARIA

Do corpo pequeno transbordava-lhe uma vontade enorme de comunicar. Era expansiva nas falas e sublime no cantar de modas aprendidas em moça, que interpretava sempre briosa em toadas e vaias colhidas no ontem e mantidas intactas no éter da memória, sem desvios, sem remedeios.
A voz saía-lhe pura, torneada pela mais fina melodia e elevava-se perfeita enfeitando com brocados de sons os dizeres das poesias simples.
Sinto, ainda agora, a emoção estranha, misto de paixão e espanto, que tanto me cativou logo na primeira vez que ouvi o seu canto. Vai para uma década, quando a procurei, em busca duma tradição perdida e de uma tal viola campaniça que sabia ainda haver lá para a Funcheira.
Foi franca no acolhimento e cresceu-lhe a alegria quando lhe pedi que cantasse.
Fechou a porta que da cozinha diz para a casa de entrada e ficámos por dentro, na semi-obscuridade , atentos e ansiosos por ouvir a revelação. O marido de olhar brilhante, também satisfeito pelo nosso interesse, sentou-se numa cadeira baixa de buinho e ela ficou de pé ao seu lado, com pose, descansando a mão sobre o ombro do tocador, como era costume seu. Ouvi então soltar os sons mais lindos ,da voz e da viola que tão bem ligavam, entrelaçando-se na perfeição, numa simbiose de harmonias cujas vibrações , como por magia, nos arrastavam para os tempos doutros dizeres e sentires.
Trocámos, desde então, a admiração pela amizade de que guardo a gratidão.
Perpétua Maria como que ciente da brevidade da vida , nunca cedeu ao comodismo e para cantar desafiava a oportunidade do momento, o jeito que não dava, o transtorno que fazia , sem mostrar desalento ,antes devoção em divulgar o cante , aproveitava saída a saída, excedendo-se de palco em palco.
Assim foi até que o mal, com crueldade ,um dia lhe tirou o génio, lhe apagou o gosto ,lhe roubou a voz .
Terminou em Messejana , já com custo, o percurso que anos antes havia iniciado com exuberância em Entradas , ficando pelo meio todo o prazer gerado na sua determinação de emprestar a voz à moda campaniça e de ilustrar com tal entrega a possibilidade de se poder recuperar do esquecimento uma tradição perdida .
Percorreu o Alentejo, desceu mais a sul, cantou em Lisboa e esteve no norte.
Nas actuações , sabia apreciar e contabilizava sempre a empatia do público, destacando pelo seu ardor e envolvimento os aplausos sentidos em Toronto, em Angra do Heroísmo, na Fundação Gulbenkian e no Teatro Carlos Alberto que muito a desvanesceram e sensibilizaram.
Perpétua Maria da Aldeia Nova ,deixou-nos a sua voz na lembrança e o seu exemplo no sentido. Quantos a ouviram e lograram sentir o encantamento da sonoridade das suas modas, puderam percorrer o reverso da aparência e tocar nas origens ,vertidas claramente nas toadas e nas vaias que a viola campaniça acompanhava em rasgos de nostalgia.
Agora, no silencio dos pensamentos vamos continuar a escutar a melodia do seu cantar, fazendo cada momento menos breve, cada paixão mais intensa, cada utopia menos vã.

21/9/97