terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A GESTUALIDADE E O PATRIMÓNIO

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Manuel Florêncio participa habitualmente na "grande roda de amigos",via telefone, tocando modinhas com as várias "gaitas" que tem. De quando em vez, compra uma nova e exibe-a no toque, pelo modo cuidadoso como lhe pega, pelo brilho que por estar em folha ela tem. Mas quando se proporciona, vai pessoalmente ao Património mostrar a sua arte de sopro, feita de melodia e de gestualidade.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VENHO DA ILHA DOS VIDROS


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Há menos de duas décadas, era impensável ver um jovem tocar a viola campaniça. Da tradição só restavam alguns velhos tocadores e poucos instrumentos antigos , por quase todos ignorados. Com o Património demos visibilidade à arte do toque e no âmbito das actividades da Cortiçol, demos o merecido protagonismo aos mestres.


Assim, nos dias de hoje, para agrado de todos e para garantir a continuidade de parte importante da nossa realidade cultural, podemos assistir com deslumbre ao retenir das campaniças nas mãos de jovens interpretes.


O CANTE - UMA CULTURA VIVA


Ainda são muitos, os homens, as mulheres e algumas crianças que nas suas vidas encontram espaço para preencherem com o misto de sentimento e devoção a que chamamos cante.


Agrupam-se em coros, vestem-se de maneiras diversas, mas todos se irmanam pelo gosto de fazer chegar mais longe, ao tempo vindouro, os traços, os gestos, a poesia, as sonoridades, as memórias e a maneira de ser e de sentir o pulsar da identidade comum que os congrega em torno de uma cultura viva.



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PELO TOQUE DA VIOLA



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Juntam-se aos magotes, seguem com o olhar as palavras soltas pelo ponto, poesias já sabidas, mas sempre escutadas como se fossem novidade. Depois, cerram os olhos e do fundo do peito arrancam as sonoridades próprias de cada moda, tudo com preceitos aprendidos, nos mesmos modos, há muito firmados, continuamente repetidos, dentro das regras do bem cantar.



O CANTE DAS JANEIRAS

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O inverno veio temporão e rijo. Os regatos ,barrancos e ribeiras que ainda há pouco eram de pó , ressequidos por um estio agreste, começaram cedo a correr e depois a esvarjar já que a terra aqui é magra e não tem fundura bastante para suster grandes correntes.
A humidade começou a entranhar-se nas casas ,nas paredes, nas madeiras e os ladrilhos do chão desfazem-se em água.
Junto às paredes mais sombrias ,o musgo agarrado ao cafelo sobe barras acima. Chove há dias a fio e parece não querer despegar. Muitas sementeiras ficaram a meio. A azeitona varejada pelas ventanias vai ser uma dó de alma perdida na erva. O trabalho está por fazer mas não escampa.
Homens ,mulheres e miúdos à mingua do sustento começam a circular aos sábados de tarde pelas ruas da vila, no cortejo dos pedintes, em regra composto por velhos desamparados ,viuvas sem meios e muitos indigentes por outros motivos.
Às portas dos quintais das casas mais abastadas o grupo pára ,um da dianteira bate ,todos aguardam a dádiva logo ali quinhoada por cabeça.
Depois seguem,numa procissão de amargura enchendo as ruas .
Predominam as roupas escuras porque os lutos se prolongam vida fora. È a pobreza e a desesperança a desfilar em busca de um trago de alento para suportar a frieza que os mantolhos e as sacas de guano feitas agasalhos não debelam.
Levam pães repartidos aos quartos,umas quantas laranjas,tostões atados numa ponta do lenço,bilhas de azeite com um pico a ranço que é o que se dá, marmitas com as raspas das panelas da banha já amarelada, agora despejadas para a nova safra e um pouco mais de tudo o que possa comer-se e acalmar a fome.
Porque é Natal algumas senhoras oferecem costas de torresmos e outras dobradas ,feitas de propósito.
Porque é Natal algumas senhoras vestem os mais pobres dos pés à cabeça.
Porque é Natal algumas senhoras não negam um madeiro e uns gravetos que as mulheres arrancam dos monturos e carregam como formigas, pendidas , cambaleando, mas incapazes de desistir do carreguio.

E o tempo passa sem que escampe. Os dias sucedem-se sem trabalho nem ganho.
A tristeza não cede à bondade da quadra e os rostos ficam ainda mais marcados pela desventura.
Logo à noite há missa do galo e alguns homens vestidos de peliça, vão entrar na igreja para cantar ao menino .Não rezam nem se sentam. Ficam cá atras ,de pé ,junto ao guarda- vento ou vão para as coxias, os mais atrevidos .
É também assim por ocasião da procissão da padroeira. Desta feita até com maior respeito e aprumo, porque a missa do galo, dada a hora tardia em que é celebrada, propicia a participação de gente já tocada e que ainda faz às vezes circular à socapa pela companhia uma garrafinha de aguardente.
Amanhã pela manhã ,nesta terra, poucas são as crianças que vão acordar curiosas para desembrulhar as prendas do sapatinho.
Os que tiverem era dita ,vão encontrar na chaminé, junto ao borralho ainda morno da fogaça da noite, as prendas que o menino Jesus pobrezinho conseguiu juntar.
Caixinhas com meia dúzia de lápis de côr , cadernos escolares ou sebentas, laranjas, rebuçados peitorais, bombons ,lápis de chocolate, ratinhos de chocolate com rabinhos de linha de meia, tabletes minúsculas decoradas com cromos que por sua vez servirão para enfeitar os livros e outras raridades como estas, vão deliciar os miúdos ávidos de um mimo.
Daqui a uma semana ,mesmo que chova e continue a não haver trabalho, entramos na década de sessenta. Até lá, todas as noites, encobertos no breu e nas vestes , grupos de homens e de mulheres vão cantar de porta em porta o ano bom.
Venho-lhe dar os bons anos
Que as boas festas não pude
Venho a fim de saber
Novas da sua saúde
Depois batem e não precisam pedir porque as portas geralmente abrem-se uma nesga para trazer a esmola ou de par em par para mandar entrar os cantadores e estes comerem à mesa, fartos, filhós, bolos de erva doce e outras iguarias da época acompanhadas por cálices de vinho abafado ou de anis escarchado.
Uma paragem aqui em casa de amigos, outra mais adiante à porta de quem tem para dar.
Já que Deus me fez tão pobre
Venho esta a pedir
De casa de gente nobre
Sem esmola não hei-de ir
Conforme a circunstância,assim saiem as chacotas cantadas numa toada de encanto e suprema beleza.
De monte em monte,ou de rua em rua, os grupos como sombras cortam o escuro e espantam o silêncio. O palratório calava-se ao pé dos portais e aí recomeçava o cante.
Toda esta noite aqui ando
Com os pés pela geada
A barriga vai vazia
E a talega não trás nada
Mas geralmente trazem. Pão, azeitonas ,moedas, azeite, laranjas e linguiças. Já se fizeram as matanças e as linguiças estão ali mesmo à mão no fumeiro.
Daqui donde eu estou bem vejo
Um canivete a bailar
Para cortar a linguiça
Que a senhora me há-de dar
O respeito pelo luto obriga muitas vezes a bater primeiro às portas desconhecidas e perguntar: Quer que cante ou que reze?
E assim se cantam as chacotas , reza quem sabe ou se canta a oração das almas, um cântico de profunda tristeza que faz apelo à bondade e à generosidade dos vivos em benefício do descanso eterno dos idos.
Passado o ano, daqui a dias, vai começar o cante dos reis ,são "os cavalheiros", com poesia sacra ,uma outra sonoridade, mas com os mesmos preceitos e intentos.





O MESMO CRENÇO

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As vozes das modas, dos trabalhos , dos bailes e das folias, nesta quadra mudam o timbre, elevam-se numa religiosidade particular, sua, mantêm a mística e continuam a encantar com a sua beleza, dentro de uma igreja ou numa arruada, com igual entrega, com o mesmo crenço.

CAMPONESAS CANTAM AO MENINO


Cumprindo a tradição dos Cantes de Natal, "As Camponesas", há mais de 25 anos, mantêm vivos os cantes alusivos à quadra e ontem à noite actuaram na Basílica Real em Castro Verde
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domingo, 27 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 3

A riqueza da alma de um povo, define-se pela sua capacidade de empreender, pelo seu gosto em realizar, pela espontaneidade como se manifesta, quer em descantes, quer em poesias, ou na forma como se agrupa, para produzir um qualquer tema musical.

Que estes gestos simples não se percam, que a imaginação não desapareça da vida das gentes e que a vontade de ser autor e intérprete não se desvaneça para que também, a nossa identidade cultural, não seja letra morta num próximo futuro.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ROSTOS E VOZES

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"OS CARAPINHAS" NO PATRIMÓNIO

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"Os Carapinhas" de Castro Verde, são um grupo coral e etnográfico infantil constituído em 27/3/1987, no âmbito das actividades da "Castra Castrorum" - Associação de Defesa do Património Natural e Cultural do Concelho de Castro Verde que cessou as suas iniciativas aquando do surgimento da Cortiçol.

"Os Carapinhas" no já distante ano de 1987, chegaram, cantaram e encantaram. Tiveram a sua primeira actuação publica no dia 10/6/1987, por ocasião do 64º Aniversário da Casa do alentejo em Lisboa. Poucos dias depois, em 20/6/1987, participaram no Concurso de Cantares Alentejanos em Beja, donde trouxeram o primeiro lugar no concurso do trajo.

A VIOLA CAIPIRA

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CANTA-SE SEMPRE...

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Depois do repasto, apetece sempre cantar. E canta-se sempre. Vão-se buscar as modas mais apetecidas, umas ensaiadas outras não.

Cantam ,assim, desalinhadas, para si mesmas, porque cada uma delas, supera-se ao deitar cá para fora as vaias, as sonoridades de um cante d´alma que ainda é mais sentido quando é vivido num qualquer contexto de espontaneidade, gerado fora dos palcos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

DA TRADIÇÃO AO POPULAR


Hoje, preenchemos a primeira parte do Património falando de uma parceria que viabilizou e possibilita o ensino da construção e do toque da viola campaniça em Castro Verde e ouvindo belas modas interpretadas pelos nossos jovens convidados .


Novos Tocadores de Viola Campaniça com o Mestre
Tivemos ainda oportunidade de voltar a apreciar as vozes de destemidos cantarristas e tambem exímios tocadores de campaniça

Grupo "Modas à Campaniça"
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 2

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...E foram muitos os poetas que pelo Património passaram, deixando no ar os seus trabalhos de profunda inspiração, numa mágica de sabedoria e arte...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS 1


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Ao longo de duas décadas, pelo Património, passaram milhares de obreiros da cultura que temos. Muitas crianças que hoje são adultos, mais ainda os adultos que agora já não temos para podermos admirar, pelo que diziam, pelo que cantavam ou tocavam. Neste tempo de memórias breves, em que tudo se apaga ao virar da esquina, importa ,mais do que nunca, reter motivos para apreciar e aprender com quantos foram autores ou intérpretes de saberes e artes que são o bastião da nossa coesão cultural.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

NOITE DE MEMÓRIAS E DE PRAZER

Ao bater das nove, saiu o indicativo e fizemos a abertura.
Tinham já entrado as convidadas, "AS CEIFEIRAS" de Entradas, que foi quem nos trouxe o encanto do cante.
Um projecto muito recente que incorpora várias gerações de interpretes, com especial prevalência de vozes jovens. Uma excepção em todo o panorama etno-musical do Alentejo.

Ouvimos poesia dita pela autora, Leonete que de Entradas também veio com o João, jovem tocador de Viola Campaniça.

Nas segunda e terceira horas do programa, deliciamo-nos com memórias gravadas há quase vinte anos e agora repostas, para que o esquecimento não apague nomes e valores da cultura local.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O CANTE


As letras, as palavras ditas, são o que menos importa .Por isso, neste cante, as sílabas derretem-se, prolongam-se desmedidas, só sustidas pelo fim do fôlego e no ar, enleiam-se umas nas outras como silvas , num emaranhado onde se perde o sentido do sentir do poeta que escreveu a rima.
Apesar disso, todos acompanham vibrantes de emoção a sonoridade projectada pelas bocas que ora se escancaram como cocharros ora se cerram como frinchas, para soltar no devido tempo as vaias precisas, impostas, em cada momento da moda. Assim é, porque todos, têm retidos na memória os versos ouvidos em repetições infinitas ,em insistências incontáveis. Escalfam-se as gargantas num afã de teimosia , numa mística de paixão ,num querer incessante de fazer ecoar como preces ou ladainhas as mesmas melodias para sublimar agruras, infortúnios ou tristezas e só muito raramente, para marcar estados de júbilo. Não precisam de explicitar os vocábulos, nem tornar perceptíveis os versos, porque a grandiosidade das obras que interpretam está contida na sua sonoridade .È a melodia que tudo diz, é ela que tão bem sugere , elevando consigo os interpretes aos píncaros da emoção, numa embriaguez que os tolda e os enlaça , formando magotes, desenhando esculturas de corpos numa fusão quase irreal.
Para tanto se abraçam, e o grupo em simultâneo, arfa como um fole, tomando o ar, retendo-o, expelindo-o depois , no estender manso das vaias . Precisam sentir em conjunto a sua doçura, deleitam-se na mistura dos tons, excedem-se na magia do coro.