segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O CANTE DAS JANEIRAS

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O inverno veio temporão e rijo. Os regatos ,barrancos e ribeiras que ainda há pouco eram de pó , ressequidos por um estio agreste, começaram cedo a correr e depois a esvarjar já que a terra aqui é magra e não tem fundura bastante para suster grandes correntes.
A humidade começou a entranhar-se nas casas ,nas paredes, nas madeiras e os ladrilhos do chão desfazem-se em água.
Junto às paredes mais sombrias ,o musgo agarrado ao cafelo sobe barras acima. Chove há dias a fio e parece não querer despegar. Muitas sementeiras ficaram a meio. A azeitona varejada pelas ventanias vai ser uma dó de alma perdida na erva. O trabalho está por fazer mas não escampa.
Homens ,mulheres e miúdos à mingua do sustento começam a circular aos sábados de tarde pelas ruas da vila, no cortejo dos pedintes, em regra composto por velhos desamparados ,viuvas sem meios e muitos indigentes por outros motivos.
Às portas dos quintais das casas mais abastadas o grupo pára ,um da dianteira bate ,todos aguardam a dádiva logo ali quinhoada por cabeça.
Depois seguem,numa procissão de amargura enchendo as ruas .
Predominam as roupas escuras porque os lutos se prolongam vida fora. È a pobreza e a desesperança a desfilar em busca de um trago de alento para suportar a frieza que os mantolhos e as sacas de guano feitas agasalhos não debelam.
Levam pães repartidos aos quartos,umas quantas laranjas,tostões atados numa ponta do lenço,bilhas de azeite com um pico a ranço que é o que se dá, marmitas com as raspas das panelas da banha já amarelada, agora despejadas para a nova safra e um pouco mais de tudo o que possa comer-se e acalmar a fome.
Porque é Natal algumas senhoras oferecem costas de torresmos e outras dobradas ,feitas de propósito.
Porque é Natal algumas senhoras vestem os mais pobres dos pés à cabeça.
Porque é Natal algumas senhoras não negam um madeiro e uns gravetos que as mulheres arrancam dos monturos e carregam como formigas, pendidas , cambaleando, mas incapazes de desistir do carreguio.

E o tempo passa sem que escampe. Os dias sucedem-se sem trabalho nem ganho.
A tristeza não cede à bondade da quadra e os rostos ficam ainda mais marcados pela desventura.
Logo à noite há missa do galo e alguns homens vestidos de peliça, vão entrar na igreja para cantar ao menino .Não rezam nem se sentam. Ficam cá atras ,de pé ,junto ao guarda- vento ou vão para as coxias, os mais atrevidos .
É também assim por ocasião da procissão da padroeira. Desta feita até com maior respeito e aprumo, porque a missa do galo, dada a hora tardia em que é celebrada, propicia a participação de gente já tocada e que ainda faz às vezes circular à socapa pela companhia uma garrafinha de aguardente.
Amanhã pela manhã ,nesta terra, poucas são as crianças que vão acordar curiosas para desembrulhar as prendas do sapatinho.
Os que tiverem era dita ,vão encontrar na chaminé, junto ao borralho ainda morno da fogaça da noite, as prendas que o menino Jesus pobrezinho conseguiu juntar.
Caixinhas com meia dúzia de lápis de côr , cadernos escolares ou sebentas, laranjas, rebuçados peitorais, bombons ,lápis de chocolate, ratinhos de chocolate com rabinhos de linha de meia, tabletes minúsculas decoradas com cromos que por sua vez servirão para enfeitar os livros e outras raridades como estas, vão deliciar os miúdos ávidos de um mimo.
Daqui a uma semana ,mesmo que chova e continue a não haver trabalho, entramos na década de sessenta. Até lá, todas as noites, encobertos no breu e nas vestes , grupos de homens e de mulheres vão cantar de porta em porta o ano bom.
Venho-lhe dar os bons anos
Que as boas festas não pude
Venho a fim de saber
Novas da sua saúde
Depois batem e não precisam pedir porque as portas geralmente abrem-se uma nesga para trazer a esmola ou de par em par para mandar entrar os cantadores e estes comerem à mesa, fartos, filhós, bolos de erva doce e outras iguarias da época acompanhadas por cálices de vinho abafado ou de anis escarchado.
Uma paragem aqui em casa de amigos, outra mais adiante à porta de quem tem para dar.
Já que Deus me fez tão pobre
Venho esta a pedir
De casa de gente nobre
Sem esmola não hei-de ir
Conforme a circunstância,assim saiem as chacotas cantadas numa toada de encanto e suprema beleza.
De monte em monte,ou de rua em rua, os grupos como sombras cortam o escuro e espantam o silêncio. O palratório calava-se ao pé dos portais e aí recomeçava o cante.
Toda esta noite aqui ando
Com os pés pela geada
A barriga vai vazia
E a talega não trás nada
Mas geralmente trazem. Pão, azeitonas ,moedas, azeite, laranjas e linguiças. Já se fizeram as matanças e as linguiças estão ali mesmo à mão no fumeiro.
Daqui donde eu estou bem vejo
Um canivete a bailar
Para cortar a linguiça
Que a senhora me há-de dar
O respeito pelo luto obriga muitas vezes a bater primeiro às portas desconhecidas e perguntar: Quer que cante ou que reze?
E assim se cantam as chacotas , reza quem sabe ou se canta a oração das almas, um cântico de profunda tristeza que faz apelo à bondade e à generosidade dos vivos em benefício do descanso eterno dos idos.
Passado o ano, daqui a dias, vai começar o cante dos reis ,são "os cavalheiros", com poesia sacra ,uma outra sonoridade, mas com os mesmos preceitos e intentos.