quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O CANTE


As letras, as palavras ditas, são o que menos importa .Por isso, neste cante, as sílabas derretem-se, prolongam-se desmedidas, só sustidas pelo fim do fôlego e no ar, enleiam-se umas nas outras como silvas , num emaranhado onde se perde o sentido do sentir do poeta que escreveu a rima.
Apesar disso, todos acompanham vibrantes de emoção a sonoridade projectada pelas bocas que ora se escancaram como cocharros ora se cerram como frinchas, para soltar no devido tempo as vaias precisas, impostas, em cada momento da moda. Assim é, porque todos, têm retidos na memória os versos ouvidos em repetições infinitas ,em insistências incontáveis. Escalfam-se as gargantas num afã de teimosia , numa mística de paixão ,num querer incessante de fazer ecoar como preces ou ladainhas as mesmas melodias para sublimar agruras, infortúnios ou tristezas e só muito raramente, para marcar estados de júbilo. Não precisam de explicitar os vocábulos, nem tornar perceptíveis os versos, porque a grandiosidade das obras que interpretam está contida na sua sonoridade .È a melodia que tudo diz, é ela que tão bem sugere , elevando consigo os interpretes aos píncaros da emoção, numa embriaguez que os tolda e os enlaça , formando magotes, desenhando esculturas de corpos numa fusão quase irreal.
Para tanto se abraçam, e o grupo em simultâneo, arfa como um fole, tomando o ar, retendo-o, expelindo-o depois , no estender manso das vaias . Precisam sentir em conjunto a sua doçura, deleitam-se na mistura dos tons, excedem-se na magia do coro.