segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

AS MATANÇAS


Vêm dos montes, dos bastios sombreados, arrojam-se para a morte sob as arrobas de carne posta por fartanços de bolota e lande ,mais de alguma guloseima apanhada para desenfastiar. No verão correram os restolhos à cata de espigas e espiolharam os pegos lodosos com a cegueira dos almeijões .Mas não foi daí que lhes veio o peso.
Até meados de Outubro andavam ligeiros, corriam como centelhas deste poiso para aquele, fossando e revolvendo pedras e torrões à pus da bicharada. Mas logo que as bolotas começaram a arraiar e as mangaras desataram a pingar, era vê-los de fujota de arvore para arvore, com as orelhas afitadas para pressentirem onde podiam morder as caídas.
Daí para diante, abancavam de manhã à noite de focinho pregado ao chão , solvendo as soleiras das boletas ,desprendidas dos cascabulhos por força do vento ou varejadas pelo porcariço , preocupado com a engorda da vara com que tinha encabeçado o montado.
Apetecia-lhes agora beber mais amiúde que o costume e de quando em vez abocanhavam o ervaçum para refrescarem as bocas escaldadas pelo tasquinhar continuado.
De dia para dia viam-se aumentar. Desapareceu o espinhaço, cresceu-lhes a papada, ficaram corpulentos.
Já nem dão trabalho com as escapadelas para as semeadas. Comem, comem e de quando em vez jogam os joelhos a terra para descansar.
Por fim, redondos e lustrosos já lhes custava ir beber à ribeira duas vezes por dia. Nas horas mais quentes deitavam-se e dormiam com grande afegada. Para se levantarem , tornou-se o cabo dos trabalhos. Tinha de ser a prestações. Primeiro erguiam-se nas patas dianteiras ,de cu a rojo, e só depois em solavanco se alçavam.
O maioral andava satisfeito e o patrão outro tanto ou ainda mais. Tantas arrobas a tanto, dava tanto. Aquilo não se sabia ao certo, nem se podia saber, só a olho, o peso da carne toda, porque uns eram maiores e outros mais pequenos, mesmo que manos da mesma piara. O que valia era a média , não se podia fazer a conta pelos mais estrigados nem pelos outros que pareciam barcas, mas eram os menos .
Em três meses fizeram-se para a faca.
Uns para aqui, outros para ali, todos foram apreçados e já tinham o rumo traçado.
E assim abalaram em dias marcados pelas estradas velhas, deixando os montados, a caminho das bancas ,onde as facas sem dó nem piedade lhes ditam o destino, ficando no ar os gornidos profundos que nos marcam a memória das matanças.
Depois é a festa, a azáfama, o sangue, o vinagre, os alhos, o colorau ,a pimenta, os cominhos. A gordura e os cheiros. A moleja, as cacholas fritas. As banhas, os torresmos ,os lombos, as espáduas, os presuntos, as linguiças ,as chouriças e os paios. A carne frita, a manteiga de pingo .As queixadas assadas, a língua de fricassé ,as orelhas de coentrada .As folhas de toucinho arrecadadas no sal. O saber e os preceitos. Os varais no fumeiro. Os sabores um ano inteiro.
Ritual que se repete todos os Invernos, quando os frios chegam para curar as carnes e nos campos a fartura acaba, para poder acrescer, nem tão pouco para manter, as arrobas postas por uma comezaina rica.