sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

CORRENTES DE AFECTOS

Da telefonia soltam-se correntes de afectos encadeados por palavras e sonoridades que nos ligam numa mística que se reconhece sem rebuço. Estamos presos, ligados por um dizer e escutar, pelo escrever e ouvir que umas vezes é confissão, outras gracejo e outras ainda um desfiar de memórias herdadas e que nos custa perder no silencio que os tempos modernos impuseram.
Em dias certos, à hora combinada, ficamos expectantes e abrimos o coração e a mente para o que der e vier, porque já é sabido que com sotaque da serra ou do campo, hão-de chegar à nossa companhia os amigos das palavras, das “histoiras”, das “adivinhações”, das “procuras”, das quadras, dos toques de acordeão, harmónica ou campaniça, os cantadores de baldão e os nossos grupos corais. Presenteamos o auditório com abraços de melodia e afagamos muita solidão dorida com o imaginário de uma companhia que por momentos a dissolve e dissipa.
Há quase duas décadas que no lugar do isolamento impusemos o bem estar do dar as mãos, agarrando um propósito que passa por valorizar o nosso património oral, por entender e interiorizar que nascemos num espaço vivo, com uma cultura própria que é fundamental para o fortalecimento da nossa identidade como Povo. Sem essa mesma cultura, sem esses traços caracterizadores da nossa fisionomia anímica, perdemos o contacto às raízes, passamos a ser iguais a tudo e ao nada, ficamos sem feições próprias, passaremos a ser obra e efeito de um pseudo progresso balofo que tanto tem estado em voga, em todas as vertentes, nos últimos tempos.
Palmo a palmo, temos conquistado terreno à rota do esquecimento que tende a apagar todas as memórias que nesta terra representem os valores de tradição.Todas as semanas ganhamos mais vontades para as nossas fileiras e por este Alentejo já se vai dizendo que importa defender os usos e os costumes, a nossa forma de ser e de estar, numa afronta clara à saga do esquecimento que se pretende impor apagando deliberadamente tudo quanto possa sugerir o elogio das raízes.
No espaço que abarcamos , dentro das fronteiras que a emissão define, fazemos a apologia da verdade cultural alicerçada na profundeza dos valores que emanam espontaneamente nascidos de séculos de vivências comuns, de anseios adiados e de prazeres curtidos numa comunhão de vontades que gera relações e laços que importa não perder.
Deste jeito, o orgulho de ser poeta, tocador ou cantador voltou a ser possível alimentado pelos mimos compensadores dos elogios que com naturalidade brotam de quem se sente agraciado quer pela arte, pelo convívio ou ainda pelo prazer que resulta de nos sentirmos grupo com identidade fortalecida no meio do dito deserto de referencias.
E isto encoraja a vontade de escrever e de revelar quanto se versejou , partilhando os nossos pensamentos, mágoas e razões com uma comunidade imaginada de iguais em vez de nada fazer ou então, rascunhar só para si e guardar no escuro das gavetas a beleza das rimas.
E com o cante, os cantes de tradição, despertou novo ímpeto de voltar a fazer cantigas que são invariavelmente a expressão de uma vontade imensa de comunicar, de estabelecer laços prazenteiros de convívio, amizades que perduram para além do momento ou da conveniência, comunhão de vontades que se casam porque são convergentes.
Neste estar sincronizado à volta da telefonia, vem ganhando razão a razão da nossa perseverança e impomo-nos às tendências na nova era que as televisões e os vários mandos engendraram, sempre conducentes a um maior isolamento social e a um crescente empobrecimento espiritual já que as directrizes em que se baseiam assentam no tudo feito, no pronto a ingerir sem mastigar nem tomar o gosto.
Pretendem impor-nos valores importados, não releva donde, desde que substituam cabalmente quanto aqui floria , resultado de sementeiras cultivadas de geração em geração.Por isso, em vez de se promover a obra, manda-se vir já feito.
Contra esta atitude inibidora do nosso crescimento como povo, lançamos palavras de ânimo ao nosso auditório e multiplicamos paulatinamente as participações em antena e as motivações dos que nos ouvem para empreenderem e fazerem obra e em especial para engendrarem um movimento de opinião que numa firme atitude rejeite as políticas de afastamento e de abandono dos nossos valores culturais.
Tudo isto acontece, há quase duas décadas, na Rádio Castrense, às quintas depois das 21 horas.