quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A MORTE DE PORCO - IV


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O ABRIR E O PALPITAR


"Abre um porco se queres ver o teu corpo" ,dizia-se, antes, quando as conversas tinham a dimensão da proximidade e os horizontes acabavam logo ali, depois da curva do conhecido.


No silêncio, só quebrado por palavras breves e acertivas, o mestre António Viriato traça o porco de alto a baixo, do fundo até às queixadas.Com uma firmeza cirurgica, o gume da faca vai lavrando as banhas que se abrem num rego profundo direito às entranhas. Foi ele quem matou, dirigiu a musgação, agora abre e depois, ha-de desmanchar.


Tudo tem preceito e todo o cuidado é pouco quando se misturam carnes e facas. Mais força aqui para cortar as costelas, ao de leves ali para não ofender o véu das banhas, à vontade numa certa banda, meticulosamente em determinado sítio, para o bico da faca não picar a bolsa do fel .


A certa altura, escancara-se a pança e cortadas as linhas mestras, a tripalhada desanda para dentro do alguidar que um serviçal segura.


Ao redor, envolvidos pelos vapores que dos interiores do animal se libertam, os homens começam a adiantar valores para o peso, para as arrobas de carne já com o bandulho limpo. Os olhares cruzam-se e os palpites soltam-se. Parece mal errar muito, por isso medem-se os números com os saberes de outras matanças. Alguns nem arriscam. Mas a balança romana, não tarda a dizer a conta certa e o ganhante, vai ficar ufano e será considerado um ás durante a comezaina que se segue.