sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NOITES DE TRADIÇÃO

Há mais de vinte anos que divulgamos semanalmente, às quintas feiras e depois aos domingos , em reposição, todo o nosso acervo de cultura viva. Os poetas populares, tocadores, cantadores, grupos corais e contadores de histórias, são os ídolos da nossa estima e admiração.

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BASÍLICA REAL

Igreja Matriz de Castro Verde

OH MENINA FLORENTINA

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Com vozes temperadas por muitos sóis nas estradas do cantorio, os Rastolhice tratam de forma descontraída, mas rigorosa, o nosso cancioneiro popular, na interessante abordagem que ao mesmo fazem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

RASTOLHICE

Esta noite, no Património, tivemos a música e a alegria do Grupo de Musica Popular " Rastolhice " . Ficámos encantados com a beleza das modas e a excelência da interpretação destes músicos de primeira água.

CRISTO CRUCIFICADO

Peça de arte sacra, existente em oratório pertença da Fundação J.A. Franco de Casével

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"OS CARAPINHAS " DE CASTRO VERDE

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1993

Escola de cante infantil, criada há mais de vinte anos, pela Cortiçol. Continua, ainda hoje, a ser o baluarte da esperança no futuro da "moda" entre nós. Ensaiam todas as quartas-feiras, pelas 19 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal.

TRICOTAR MEMÓRIAS

Maria Vitória Simões Nobre, retrata com fios de lã , trapinhos e agulhas, as memórias dos Grandaços e das suas gentes. Cenas do quotidiano da aldeia e os seus moradores , são por si lembrados em quadros naif de uma beleza enternecedora.

PROGRAMA " PATRIMÓNIO"


Todas as QUINTAS FEIRAS , entre as 21 e as 24 horas e aos DOMINGOS, entre as 8 e as 11 horas, oiça o Património em qualquer parte do mundo, acedendo ao sítio -
http://www.radiocastrense.net

A Cultura Popular está presente .

CAMPONESAS E GANHÕES

No final do espectáculo de reabertura do Cine Teatro Municipal de Castro Verde, os Grupos Corais, Camponesas, Ganhões e Violas Campaniças, com os demais participantes, subiram em simultâneo ao palco e em apoteose, cantaram - "Vai de Centro ao Centro"


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AMOR

Só por amor se imaculam as paredes com o branco cal e se coloca um vaso de flores na janela, para quem passa, poder sentir o prazer do belo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MODA ACOMPANHADA A ACORDEÃO

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Leonel das Perrarias

CRISTALIZAR O PRESENTE

Perpetua-se o tempo que corre, gravando um desenho, uma data, uma palavra, numa pedra, para que o mesmo tempo eternize aquele instante, dê vida eterna a um sentimento, guarde para sempre na sua grande memória, um nome.
Gesto primitivo mas sublime, esta tentativa de cristalizar o presente, insistinto em vencer a dureza das superficies com a vontade de fazer durar os momentos e as coisas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

AO TOQUE DO REALEJO

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Leonel das Perrarias

Ao toque do realejo faziam-se bailes cantados. Ao toque do realejo muita solidão foi afastada dos dias e das noites que não tinham fim.

DANÇAS CAMPANIÇAS


Os novos nem sonham e os mais velhos só lembram que aqui , na terra da quietude, as gentes bailavam. A toque de viola, flaita , concertina ou movidos simplesmente pelo cante, os pares marcavam os ritmos do fascínio e da paixão , em danças que se repetiam noite fora.
Bailes cantados, exercícios vocais e poéticos que aliavam a melodia e a rima ao toque carnal, tão desejado.
Namoros que se faziam e se desmanchavam, à custa de uma cantiga, por mor de uma resposta.
Vinha também à tona a malandrice de alguns , misturada às vezes com o arrojo que aos forasteiros não era permitido:

Um copinho, dois copinhos,
Tres copinhos de aguardente
As moças desta terra
Fazem andar um homem quente


Para atalhar, logo no flagrante, algum pai, mano ou namorado incomodado ,também cantando e rimando, respondeu:

Um copinho, dois copinhos,
Três copinhos de licor
Levas com um banco nos cornos
Passa-te logo o calor.

Nas casas dos montes , para a vizinhança, ou nos celeiros das aldeias para adjuntos maiores, dançava-se sempre, dançava-se muito, ao uso da moda .Bailes de roda, bailes encadeados , baile dos arquinhos ,todos eram tradição arreigada entre as gentes campaniças que faziam destas práticas o modo primeiro da sua distracção. Quem cantar sabia, tinha primazia , porque botava figura nesses balhos, onde a voz e a poesia eram a mola real do evento.
Dum lado os homens, doutra banda as mulheres casadoiras, com as mães atentas. Nas paredes penduravam-se as candeias e mais tarde os candeeiros para alumiar. Tal dia , às tantas, há baile às tensas de qualquer coisa e fulano já ofereceu o petróleo, anunciava-se de boca em boca.
Dada a ordem para a dança , uns fitando nelas, outros de cabeça baixa, avançavam para as escolhidas, perguntando em forma de convite: Vamos abatê-las?
E as damas, quase sempre respondiam: Abatê-las vamos! Lá davam as mãos. Lá se agarravam. Toques que valiam por mil sonhos.
De inverno os homens dançavam de capote vestido e cajado pendurado no braço, preparados para as cenas piores que podiam derivar do ciúme ou de alguma alarvidade.
Uns tinham sorte, outros , como agora, calhava-lhes sempre a mais feia para a dança.
Noites à fio, depois dos trabalhos, retemperavam-se forças à custa do viço.
Voltas e mais voltas ,no chão de terra batida ,no verão juncado de mantrastos e junça que mesmo assim , não evitavam o pó que se levantava fininho e ao misturar-se com a fuligem das iluminarias, ia colar-se nos rostos suados dos dançarinos.
Cantiga atras de cantiga, desafios de namoros e invejas, trocas de razões sempre rimadas, voltas e passos marcados, eram os ingredientes de saborosas noites dançantes.
Mas agora , nesta terra só se canta a moda, pensa-se até que nunca foi doutro jeito ,não há memória de outras melodias e danças, por aqui, ninguém se lembra mais delas.
O resto do país , folclorizou e guardou parte da sua tradição. Nós, vimos tudo reduzido ao cante interpretado pelos grupos formais.
O resto apagou-se, por culpa nossa e da política estranguladora do SNI. Valha-nos agora a memória e a vontade de quantos não se acomodam nem conformam com este cenário de desolação cultural e vão experimentando, em vários lugares , o reinventar das danças e de outras praticas da tradição.



CHAMINÉS

È única em todo o concelho, esta chaminé quase capela, existente no Monte do Lombador. Numa proxima oportunidade, entraremos dentro dela e revelaremos o seu interior.
Resistem, mesmo quando carentes do branco que o tempo lhes roubou. De diferentes formas, mais ou menos ornamentadas, mas sempre majestosas, resistem aos ventos que passam.
Alva, de contornos mais azuis que o céu, eleva-se soberba, numa verticalidade impressionante, dando rigor à marcação dos pontos cardeais que a coroam.

IGREJA DE CASTRO VERDE

Igreja dos Remédios ou das Chagas do Salvador. O seu interior é decorado com pinturas alusivas à Batalha de Ourique , executadas pelo Mestre Diogo Magina. Diz a tradição muito antiga que nas suas proximidades existira uma fonte milagrosa, cujas aguas eram remédio para variadas maleitas. Consta também das memórias que no local da sua edificação , se erguia o pardieiro que foi morada de Leovigildo Pires d´Almidra, ermitão protagonista na narrativa do Milagre de Ourique.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CHAMINÉS DE CASTRO VERDE

Qual estatuária decorativa, as chaminés de branco cal, poisam sobre os telhados das nossas casas, majestosas.
Como se não lhes bastasse a sua dimensão e forma, no cume ainda giram os cataventos com motivos ligados à ruralidade da vida.
Encimando os telhados, destacando-se nas vistas do casario, as nossas chaminés lembram minaretes, esgueirando-se para o céu.


POETA POPULAR

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Leonel das Perrarias

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ARTE E POESIA

Esta noite no Património, tivemos a companhia amiga do Leonel das Perrarias, agricultor, poeta popular, tocador de realejo e acordeão, cantador de baldão. Em posts seguintes, vamos revelar as suas artes .

PATRIMÓNIO


ESTA NOITE, ENTRE AS 21 E AS 24 HORAS, ASSISTA EM DIRECTO AO " PATRIMÓNIO", ACEDENDO A http://www.radiocastrense.net
AOS DOMINGOS, DEPOIS DAS 8 HORAS, PODER OUVIR-NOS TAMBÉM, CLICANDO NO MESMO LINK

OS CARAPINHAS" DE CASTRO VERDE

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1993

JÁ MORREU O RATO , LÁ NA VIDIGUEIRA

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"Maravilhas do Alentejo"

Grupo coral e instrumental, constituído em Rio de Moinhos, Aljustrel, vai fazer dois anos. Cantam com gana e muito prazer, as modas do nosso cancioneiro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CANTE DE IMPROVISO

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Jaquenito da Estação

O ENTERRO DO ENTRUDO ( FIM)

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E depois dos prantos, das rezas e das ladainhas ...tudo acabava num fogo purificador, cujas labaredas traçavam marcas de encantamentos ancestrais nos rostos dos parodiantes

O ENTERRO DO ENTRUDO ( MEIO)

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As gentes vinham à rua embalando-se entre risos, gritos e cantos. O Entrudo era pretexto para exorcisar medos da morte e zangas da vida. Brincava-se com o sério e ria-se do mais temeroso. O Enterro era uma festa colectiva.

O ENTERRO DO ENTRUDO ( PRINCÍPIO)


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Logo, quando o escuro tapar a vila , a lua já for alta e a humidade cobrir as vidraças como se o céu peneirasse cinza muito fina ,o silencio do costume vai ser perturbado.

Nesta altura, em que as noites são tão frias, só por governo ou por desassossego as pessoas saem de casa. De quando em vez, ouve-se a zunida de um carro ou ladra um cão mais atento para que a quietude não seja total. Só raramente se ouvem vozes. Mais raro é ainda cantar um galo ou alguém.

È este o som das noites na vila a que também que se junta sem tempo certo o piar das corujas ali para as bandas da igreja .

Mas logo, quando a quietude como é hábito costuma instalar-se , à hora da sossega , depois das portas trancadas, vai começar a ouvir-se um reboliço .

Hão-de soar primeiro as vozes, timidamente, de baixinho,depois mais e mais até ser algazarra.
Chocalhos, latas, risos e gritos,moços fugindo a caminho das aldrabas das portas,retenindo campainhas, batendo aos portões.
Soltam-se ais sustidos nos peitos, arremeda-se o pranto sem que haja paixão.
Às costas de uns quantos,já o boneco segue rua fora,na horizontal,feito cadáver , nas lides de um enterro que termina em chamas para maior purificação.
Homens e mulheres,palreiam e riem.Gritam sem ter dôr, mas com tanta convicção como se tivessem .
Todos os farsantes,a viuva,o padre,o juiz e as carpideiras encabeçam o cortejo que vai engrossando à medida que a gente dá notícia.

A vizinha tem um gato
Mas que gato tão valente
Vai ao poço e vai ao mato
Vem de lá arranha a gente
Vem de lá arranha a gente
Vem de lá arranha o cão
A vizinha tem um gato
Mas que gato valentão

Como uma prece,como uma ladainha ou como uma encomendação da alma do finado, as vozes vão-se acrescentando na moda.
Atras, a banda toca a melodia.

Aos postigos, as pessoas já desgrenhadas espreitam,os mais novos admirados,os mais velhos com lembranças de outros entrudos.
Entrudos outros, em que o mestre César e o mestre Inocêncio teatralizavam como ninguém a farsa do fim da vida de cada Carnaval.

Mesmo assim, mesmo longe da autenticidade e do brilho que eles davam às palavras, já sem o alento com que eles impregnavam os discursos, é bom que ainda por aqui se quebre o silencio da noite de quarta feira de cinzas para se viver uma tradição que liga com magia, a folia ao medo da morte.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

AS FEIÇÕES DO TEMPO

Para melhor nos situarmos na cronologia da vida e termos uma noção do ido e do restante, medimos o tempo, estabelecemos valores, do segundo ao milénio, assim como numa distância se calcula do milímetro à légua, para ganharmos a consciência do que temos e do que falta.
Mas dada a sua complexidade, com o tempo, para além da referência quantitativa, ainda arranjámos outro padrão que durante o ano nos vai ajudar a destrinçar os dias uns dos outros, uma vez que na realidade e na sua essência se desigualam, malgrado os relógios não acusarem diferenças entre eles.
Um metro é sempre um metro, todo o quilo pesa o mesmo, mas um dia de Inverno, não é o mesmo que um dia de Verão. Assim, tendo em vista uma melhor qualificação do tempo, para lhe darmos uma feição, vibrações e se calhar até alguma sensualidade, agrupámos os meses em estações. Uma estação, por isso, representa muito mais do que um grupinho de três meses á fio. Sucedem-se umas às outras num encadeamento de sonoridades, cores, perfumes e sensações que nos marcam e reflectem afectuosidades induzidas por ritmos e apelos que a gente não chega a perceber.
Na Primavera, começamos por ela porque nela começa o calendário da vida, os dias amornam e de repente ouve-se o canto de uma andorinha. Estremecemos parecendo que o frio acumulado nas entranhas da terra se caldeia com um magma ascendente e se fundem, numa respiração de brisas amenas que pouco a pouco, vão acordar gestos e volúpias adormecidasDo sul para o norte, a bonança sobe, embriagando na sua passagem quanto é vivente. E por isso, de longe veio cuco, no mesmo dia, todos os anos, cantar no mesmo lugar, cânticos aprendidos no principio, quando pelo Mestre tudo era anunciado antes de acontecer pela primeira vez.Depois, soltam-se os chilreios, tocam-se os biquinhos, esvoaçam as aves daqui e as doutras bandas que para cá vêm , para voltarem mais.
Acordam os ralos, os grilos destapam as tocas já inquietos para enxugarem os corpos ao sol, enrijarem as asas de ouro e ébano e principiarem uma cantoria que só acabam em morrendo.
Nas ribeiras , só já corre um fiozinho de água por entre as raízes dos poejos e da rabaça. No meio dos juncos, os patos fazem ninho e as galinhas de água esgueiram-se em perseguições amorosas que continuam em mergulhos velozes para o interior dos pegos onde as águas são mais profundas e os prazeres também o serão. Nas poças mais chatinhas que são as primeiras a aquecer, as pardelhas fazem sombreados velozes que de repente viram reflexo prateado, quando um raio de sol lhes bate nas barrigas já desovadas. Aí, também os mosquitos pernaltas gostam de flutuar em descanso e de quando em vez um é levado na fiada de um cágado ou achigã.
No mesmo lugar, ao fim do dia, as rãs coaxam desalmadamente, num frenesim de namoros que se prolonga noite dentro, mesmo se não houver luar. È quando se ouvem os algaravões, assobiando às damas e os mochos insistem nos pios de requinta, cuja sonoridade atravessa mais longe ainda o sossego.
Pelas estradas de terra batida os lebrões passeiam-se, exibem-se e guerreiam, dão fujotas e corridas, envolvem-se em lutas que acabam em criação.
E ao romper d’alva, junto ao chão orvalhado, levanta-se uma névoa que côa a luz e eleva o perfume dos campos pintados por uma imensidão de cores e de tons.
Cortando os ares já esvoaçam os pássaros, incansáveis nas buscas de adornos e brocados para os ninhos em construção. Nem dormiram bem, pensando na obra. No entusiasmo afinam os gorjeios , multiplicam as vaias.
Junto ao beiral, por cima da porta, num ninho cativo, talvez já com gerações, um casal de andorinhas dão os últimos retoques. Vão e depois voltam. Uma aninha-se e a outra canta-lhe, melodias que elas sabem, coisas que elas gostam de ouvir e dizer.
Ao fim de três meses, já o calor aperta e o tempo volta a mudar de feição.
Depois mingua o viço e a folha cai.
Não tarda , a ribeira já não dá passagem e assim vai correr, tempo sem fim.
Mas, depois, num dia qualquer, que só ele sabe e nunca se esquece, o cuco volta para cantar os seus cânticos aprendidos no principio de tudo, quando o Mestre anunciou todas as coisas , antes de as mandar fazer infinitamente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

MARAVILHAS DO ALENTEJO

Esta noite, tivemos no Património o Grupo Coral e Instrumental " Maravilhas do Alentejo", constituído em Março de 2008 em Rio de Moinhos. Aljustrel.

MEU ALENTEJO QUERIDO

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Interpretação d´" As Camponesas" de Castro Verde

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

SOLIDÃO APRECIADA ( FIM)

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Este trabalho foi produzido em 1992 para ser apresentado, nesse mesmo ano, na Casa do Alentejo em Toronto.

Neste ultimo capítulo, ouve-se em fundo, o Grupo das Violas Campaniças, constituído pela Cortiçol, com Manuel Bento, Francisco António e Perpétua Maria, na moda - " A Mariana Campaniça" .

CASTRO DA COLA

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Cada pedra parece ter um segredo para revelar. Juntas, têm o saber da história do lugar, deste sítio que como todos, presenciou folguedos e labutas, amores, zangas, alegrias e angustias, porque tudo isso não são coisas novas, no tempo dos moradores deste povoado, já aqui as havia.

Se a gente, ao entrar neste espaço, fizer um silêncio que só o respirar perturbe, consegue adivinhar os movimentos, ouvir ainda os passos e escutar as falas de quem aqui foi senhor e servo. E depois, se esperar um pouco mais, o vento que passa por entre a ramagem das azinheiras, conta-lhe lendas deslumbrantes de tesouros e encantos de outras eras.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ANTÓNIO TERLICA

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E um dia , numa banda qualquer, sem hora marcada nem anúncio prévio , com a surpresa que o acaso dita, António Terlica morreu.
Quando pressentiu o fim, alienou a razão, largou as mãos da vida, deixou-se levar, partiu sem regresso e talvez sem experimentar o custo amargo duma ausência definitiva.
Era solto , liberto , quase indomável , de espirito maltês e tão amigo.
Profundo no pensar, rico no conhecimento , libertino nas ideias.
Folheava, em palavras e gestos, uma memória vastíssima que tudo sabia sobre esta vila e desta gente. Contava, sempre ao pormenor ,com juízo acrescentado, factos e façanhas cheios de pessoas ainda com nome, aprendidas em miúdo com homens velhos que já as tinham ouvido a outros mais velhos do que eles, quando eram crianças.Tinha lembranças de séculos.
Ninguém sabe tanto como ele sabia sobre a história viva desta terra que agora ficou mais apagada, mais indecifrável, praticamente perdida ,porque ninguém ,em devido tempo ,lhe fixou o saber.
Temos sempre a ilusão de que há tempo para tudo e por isso adiamos a acção até à impossibilidade , mesmo aquilo que é mais premente .
E nós adiámos tantas risadas, tantas conversas ,tantos passeios, tantas caminhadas pelas ribeiras, junto às canadas, que eram os seus percursos predilectos.
Para ele tudo tinha sentido, a noite e o dia, o pequeno e o grande ,o pássaro e o verme, os cheiros e as cores. Dissertava sobre o espaço, conhecia a dimensão do infinito ,citava o Vítor Hugo, admirava o Gonçalves Correia e considerava os ditos e feitos de gente segregada, como o Tio Santana.
Falava do pai com muita ternura e dum primo político, com um orgulho que lhe aproveitava , por ser Terlica, por ser revolucionário. E, por isso mesmo, conheceu a prisão. Privação e medo, angustia, sinónimo de Pide que nos últimos tempos o perseguia, em buscas e pesadelos que lhe torturavam os dias e confundiam a realidade.
Nunca falava da idade, nem talvez dela tivesse consciência porque tinha o saber dum ancião e o pensamento de um adolescente .
E agora, agora que andamos por aí sem o ver, que passamos á sua porta sempre fechada, resta-nos ouvi-lo ou inventar o seu discurso, nos sons do campo, como uma vez ,há muitos anos, num primeiro de Maio , com ele escutámos , tempo sem fim, um canto lindo da passarada, lá para as bandas da ribeira da Zambujeira.


"OS CARAPINHAS" DE CASTRO VERDE

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1993

POESIA

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Maria Odete Oliveira

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"AS CEIFEIRAS" DE ENTRADAS

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Ensaio Semanal

VIOLAS CAMPANIÇAS

As mãos talham as formas, a sensibilidade molda-lhe o perfil e o ouvido apurado fixa-lhe o timbre.
Daniel Luz , mestre construtor de violas campaniças


CANTES DE TRADIÇÃO

Cantares da Serra apresentaram trabalho em CD
A tradição faz-se de saberes e de memórias , oriundos do passado, a que alguns homens e mulheres dão vida no presente.

Quando os usos e costumes estão ainda arreigados na vivência da generalidade das pessoas, dizemos que tais práticas são populares.
Quando, ao invés, são já escassos os detentores desses conhecimentos e menos ainda aqueles que os levam à prática , achamos que estamos perante episódios de tradição.

Exemplo claro do que dissemos, é o cante alentejano, a moda, também chamado de cante às vozes.
Em tempos idos, pelos nossos sítios, o cante era a companhia de toda a gente. Em todas as circunstâncias se cantava, de preferência em grupo, já que a matriz que lhe deu forma, ditou que existissem várias vozes na sua composição e estabeleceu preceitos na sua interpretação que implicam a vibração em conjunto de umas quantas gargantas. Era um cante popular.

Com o passar dos anos, a modificação dos usos, arredou o cante do nosso dia a dia. Hoje, praticamente, já se canta só propositadamente, em actuações específicas, com grupos estruturados, ensaiados, em espectáculos. A espontaneidade da moda foi-se reduzindo e agora, já é só praticada por alguns, integrados nos corais. È, por isso, cada vez mais, um valor de tradição .

Ao contrário das modas, os cantes de improviso, entre nós, o despique e o baldão, sempre foram reservados a um número restrito de praticantes, dado que para se entrar na “roda” o
interprete tem de aliar dois dotes : a “boa fala” e a capacidade de, no flagrante, saber fazer as cantigas.

Por esta razão, se dantes nunca foram muitos, na realidade presente, são-no ainda muito menos. E por essa razão, confrontamo-nos com a angustia de podermos ver perigar a médio prazo a continuidade destes valiosos cantes de tradição.

Se, para a moda, vimos solução para a sua sobrevivência , através da implementação do seu ensino nas escolas e através da criação de grupos corais infantis, se para a viola campaniça divisámos um futuro de interesse e revigoramento, através do ensino aos mais novos da sua construção e toque, para o despique e baldão, as coisas complicam-se com a impossibilidade de se ensinar alguém a ser poeta.

Partindo deste pressuposto, a única alternativa que nos resta, é a de valorizar ao máximo a prática do improviso e dar destaque e merecimento aos actuais cantadores.

Será, por esse caminho, pela via do elogio, do reconhecimento e do incentivo aos actuais executantes de tradição que poderemos dignificar a sua obra e , como consequência, lograrmos seduzir e motivar novos interpretes para a causa.

E os seguidores do despique e do baldão, terão de ser, essencialmente, os filhos e os netos dos actuais, eles que já são, por sua vez, filhos e netos de cantadores do passado.
“Eu sou filho do cantar…neto de quem canta bem…” é uma constatação antiga gravada numa cantiga que ainda perdura e continua a ser verdadeira para qualquer um dos cantadores de agora.

Por razões de ordem social, cultural e genética, é dentro deste núcleo que reside a esperança de continuidade.

Através do exemplo, da vivência, do incentivo e da motivação, podemos alargar a actual roda de cantadores da tradição e
concomitantemente, tornar esta prática cultural atraente para as gerações mais novas.

E é neste trabalho de encontrar um novo “estatuto” para o cante e de criar um prestígio renovado para os seus intérpretes que se insere o aparecimento do Grupo Cantares da Serra. Visando dar maior visibilidade e alguma organização ao grupo dos cantadores de baldão mais activistas, o Antero Silva lançou a ideia desta formação com quem tem vindo a trabalhar, na divulgação da tradição, por muitos palcos.
Por sua vez, a gravação do seu trabalho em CD, sem grandes pretensões “artísticas”, patenteando a naturalidade das interpretações e muito marcado pelo quase improviso das cantorias, é um documento, um testemunho de época, um bom instrumento de divulgação daquilo de que falamos.



CANTADOR DE DESPIQUE E BALDÃO


Mestre Pontalinho
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

POETA POPULAR

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Na ultima edição do Património, tivemos connosco o poeta Raimundo Emídio Afonso, de Ervidel, Ajustrel. Acabou de editar o seu nono livro de poesia e promete não ficar por aqui, já que a sua inspiração ainda paira bem alto, junto das estrelas, como ele diz.

"AS CAMPONESAS" DE CASTRO VERDE


No ano internacional da Biodiversidade, o projecto “em.cantos” inaugurou, a nível nacional, na sala multiusos do IPBeja, a primeira exposição sobre o tema com o título, “em.cantos da biodiversidade”.Da responsabilidade da Quercos, mas a convite do projecto “em.cantos” a inauguração contou com a presença de dirigentes nacionais daquela ONG.Após a “vernissage” o “em.contros” deslocou-se para o Fórum Municipal de Castro Verde onde, após a inauguração da exposição “Alentejo de em.cantos”, debateu a "A Conservação da Biodiversidade: Oportunidades e Constrangimentos Para Uma Gestão Sustentável do Território".

O Grupo Coral e Etnográfico " As Camponesas " de Castro Verde deu o seu contributo ao evento cantando modas de cá.

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UMA CANTIGA AO BALDÃO

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Zé Guerreiro da À Metade

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

POESIA POPULAR

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Manuel Graça da Corte Malhão

JÁ LÁ VEM O BARCO À VELA

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Cantares da Serra

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O CANTE - Um Património à Beira da Ruína


Valorizar potencialidades, maximizar recursos , promover valores e salvaguardar, na sua globalidade, o nosso Património são propósitos de bem-fazer que ganharam lugar de destaque na cartilha dos modos do bem-parecer ,onde os noviços da política formatam conceitos na aprendizagem e os veteranos da mesma arte, torneiam preconceitos na sua reciclagem.
O Património passou a ter, nos últimos vinte anos , ao menos retoricamente , lugar de destaque entre as preocupações dos cidadãos mais activos que começaram a patentear uma atitude de cautela, no modo como interagimos com aquilo que nos cerca. O Ambiente ,a Cultura e a Arte passaram a fazer parte do roteiro dos discursos dos responsáveis pela nossa governação que de uma forma tímida e outras vezes mesmo incongruente , lá ensaiam gestos de algum aparente cuidado, no sentido de não agravar, ou de minorar, a vida difícil do passado no presente.
Nas ultimas gerações perdeu-se o sentido ao norte , cultivou-se mesmo o apagamento integral das referencias ,vandalizou-se a memória e tentou-se construir um mundo novo alicerçado em conceitos e modos de estar que partiam de uma mera atitude de oposição gratuita aos valores antes comummente assumidos.
Sonhou-se com um bem estar conseguido à custa da afronta sistemática da economia ao ambiente. Nesta lógica, o mercado passou a ser o denominador comum do nosso existir, mesmo que tal implique morrermos intoxicados em químicos ou sufocados sem oxigénio, como os peixes já morreram nas águas das nossas ribeiras.
Neste sentido ,a modernidade procurou impor novos figurinos de actuação ,desfocou tudo aquilo que eram as nossas matrizes ,o nosso saber colectivo. Impôs-nos a atitude servil da indiferença ou de rejeição pelo que era nosso , mesmo que tal implicasse perdermos os afectos e a solidariedade das gentes que sempre viveram irmanadas pelos laços de uma mesma cultura.
Nesta realidade entronca o grande padecimento em que se arrasta o nosso cante.
No meio de uma indiferença generalizada, o cante agoniza, num gemido surdo.
Talvez porque ainda ouvimos cantar, não se lhe presta atenção, não se repara nas feridas , mas o certo é que cada dia que passa, os grupos corais desfalecem e sucumbem, porque têm menos vozes para cantar e os seus interpretes ,aqueles que resistem, estão mais incapazes de suportar a carga já pesada. E esta sensação de impotência para suster a sangria , este baixar os braços sem remar contra a corrente, coloca-nos cada vez mais longe de podermos enfrentar, de forma vitoriosa, a tendência reinante de desapego pelas raízes.
Caíram os moinhos à volta das nossas terras, desfiguraram-se muitos lugares à custa da modernidade urbanística, arruinou-se a economia local em favor de uma economia global, varreram-se-nos da memória saberes aprendidos ao longo de séculos. Mas o pior de tudo, é este arrefecimento que sentimos na alma, à medida que vamos deixando esfumar-se a nossa Cultura, o que de mais sagrado um povo pode ter.
E porque o cante é o expoente máximo da nossa identidade cultural, é trágica a perda do gosto pela moda.
O cante é , dentro do Património Alentejano, o nosso monumento mais rico e valioso .Por isso nos incomoda tanto saber que os seus alicerces cederam, que as suas paredes enfraquecem à medida que se soltam as pedras dos seus pilares, o que acontece, à medida que se calam as vozes nos grupos corais. Um dia destes, já daqui a poucos anos, os vindouros, sem perceber, perguntarão porque não se fez nada, em devido tempo , para evitar, ou ao menos, contrariar, a derrocada eminente do nosso monumento mais rico e valioso que agora deixamos, irresponsavelmente ,chegar à beira da ruína.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

UMA GRANDE RODA DE AMIGOS

ÀS QUINTAS - FEIRAS, ENTRE AS 21 E AS 24 HORAS, E DEPOIS AOS DOMINGOS ÀS 8 HORAS, VAI PARA O AR O “ PATRIMÓNIO ”, um programa em que se fala dos usos, dos costumes, da cultura do Campo Branco

ACOMPANHA on line em http://www.radiocastrense.net