terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ANTÓNIO TERLICA

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E um dia , numa banda qualquer, sem hora marcada nem anúncio prévio , com a surpresa que o acaso dita, António Terlica morreu.
Quando pressentiu o fim, alienou a razão, largou as mãos da vida, deixou-se levar, partiu sem regresso e talvez sem experimentar o custo amargo duma ausência definitiva.
Era solto , liberto , quase indomável , de espirito maltês e tão amigo.
Profundo no pensar, rico no conhecimento , libertino nas ideias.
Folheava, em palavras e gestos, uma memória vastíssima que tudo sabia sobre esta vila e desta gente. Contava, sempre ao pormenor ,com juízo acrescentado, factos e façanhas cheios de pessoas ainda com nome, aprendidas em miúdo com homens velhos que já as tinham ouvido a outros mais velhos do que eles, quando eram crianças.Tinha lembranças de séculos.
Ninguém sabe tanto como ele sabia sobre a história viva desta terra que agora ficou mais apagada, mais indecifrável, praticamente perdida ,porque ninguém ,em devido tempo ,lhe fixou o saber.
Temos sempre a ilusão de que há tempo para tudo e por isso adiamos a acção até à impossibilidade , mesmo aquilo que é mais premente .
E nós adiámos tantas risadas, tantas conversas ,tantos passeios, tantas caminhadas pelas ribeiras, junto às canadas, que eram os seus percursos predilectos.
Para ele tudo tinha sentido, a noite e o dia, o pequeno e o grande ,o pássaro e o verme, os cheiros e as cores. Dissertava sobre o espaço, conhecia a dimensão do infinito ,citava o Vítor Hugo, admirava o Gonçalves Correia e considerava os ditos e feitos de gente segregada, como o Tio Santana.
Falava do pai com muita ternura e dum primo político, com um orgulho que lhe aproveitava , por ser Terlica, por ser revolucionário. E, por isso mesmo, conheceu a prisão. Privação e medo, angustia, sinónimo de Pide que nos últimos tempos o perseguia, em buscas e pesadelos que lhe torturavam os dias e confundiam a realidade.
Nunca falava da idade, nem talvez dela tivesse consciência porque tinha o saber dum ancião e o pensamento de um adolescente .
E agora, agora que andamos por aí sem o ver, que passamos á sua porta sempre fechada, resta-nos ouvi-lo ou inventar o seu discurso, nos sons do campo, como uma vez ,há muitos anos, num primeiro de Maio , com ele escutámos , tempo sem fim, um canto lindo da passarada, lá para as bandas da ribeira da Zambujeira.