segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CANTES DE TRADIÇÃO

Cantares da Serra apresentaram trabalho em CD
A tradição faz-se de saberes e de memórias , oriundos do passado, a que alguns homens e mulheres dão vida no presente.

Quando os usos e costumes estão ainda arreigados na vivência da generalidade das pessoas, dizemos que tais práticas são populares.
Quando, ao invés, são já escassos os detentores desses conhecimentos e menos ainda aqueles que os levam à prática , achamos que estamos perante episódios de tradição.

Exemplo claro do que dissemos, é o cante alentejano, a moda, também chamado de cante às vozes.
Em tempos idos, pelos nossos sítios, o cante era a companhia de toda a gente. Em todas as circunstâncias se cantava, de preferência em grupo, já que a matriz que lhe deu forma, ditou que existissem várias vozes na sua composição e estabeleceu preceitos na sua interpretação que implicam a vibração em conjunto de umas quantas gargantas. Era um cante popular.

Com o passar dos anos, a modificação dos usos, arredou o cante do nosso dia a dia. Hoje, praticamente, já se canta só propositadamente, em actuações específicas, com grupos estruturados, ensaiados, em espectáculos. A espontaneidade da moda foi-se reduzindo e agora, já é só praticada por alguns, integrados nos corais. È, por isso, cada vez mais, um valor de tradição .

Ao contrário das modas, os cantes de improviso, entre nós, o despique e o baldão, sempre foram reservados a um número restrito de praticantes, dado que para se entrar na “roda” o
interprete tem de aliar dois dotes : a “boa fala” e a capacidade de, no flagrante, saber fazer as cantigas.

Por esta razão, se dantes nunca foram muitos, na realidade presente, são-no ainda muito menos. E por essa razão, confrontamo-nos com a angustia de podermos ver perigar a médio prazo a continuidade destes valiosos cantes de tradição.

Se, para a moda, vimos solução para a sua sobrevivência , através da implementação do seu ensino nas escolas e através da criação de grupos corais infantis, se para a viola campaniça divisámos um futuro de interesse e revigoramento, através do ensino aos mais novos da sua construção e toque, para o despique e baldão, as coisas complicam-se com a impossibilidade de se ensinar alguém a ser poeta.

Partindo deste pressuposto, a única alternativa que nos resta, é a de valorizar ao máximo a prática do improviso e dar destaque e merecimento aos actuais cantadores.

Será, por esse caminho, pela via do elogio, do reconhecimento e do incentivo aos actuais executantes de tradição que poderemos dignificar a sua obra e , como consequência, lograrmos seduzir e motivar novos interpretes para a causa.

E os seguidores do despique e do baldão, terão de ser, essencialmente, os filhos e os netos dos actuais, eles que já são, por sua vez, filhos e netos de cantadores do passado.
“Eu sou filho do cantar…neto de quem canta bem…” é uma constatação antiga gravada numa cantiga que ainda perdura e continua a ser verdadeira para qualquer um dos cantadores de agora.

Por razões de ordem social, cultural e genética, é dentro deste núcleo que reside a esperança de continuidade.

Através do exemplo, da vivência, do incentivo e da motivação, podemos alargar a actual roda de cantadores da tradição e
concomitantemente, tornar esta prática cultural atraente para as gerações mais novas.

E é neste trabalho de encontrar um novo “estatuto” para o cante e de criar um prestígio renovado para os seus intérpretes que se insere o aparecimento do Grupo Cantares da Serra. Visando dar maior visibilidade e alguma organização ao grupo dos cantadores de baldão mais activistas, o Antero Silva lançou a ideia desta formação com quem tem vindo a trabalhar, na divulgação da tradição, por muitos palcos.
Por sua vez, a gravação do seu trabalho em CD, sem grandes pretensões “artísticas”, patenteando a naturalidade das interpretações e muito marcado pelo quase improviso das cantorias, é um documento, um testemunho de época, um bom instrumento de divulgação daquilo de que falamos.