quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O ENTERRO DO ENTRUDO ( PRINCÍPIO)


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Logo, quando o escuro tapar a vila , a lua já for alta e a humidade cobrir as vidraças como se o céu peneirasse cinza muito fina ,o silencio do costume vai ser perturbado.

Nesta altura, em que as noites são tão frias, só por governo ou por desassossego as pessoas saem de casa. De quando em vez, ouve-se a zunida de um carro ou ladra um cão mais atento para que a quietude não seja total. Só raramente se ouvem vozes. Mais raro é ainda cantar um galo ou alguém.

È este o som das noites na vila a que também que se junta sem tempo certo o piar das corujas ali para as bandas da igreja .

Mas logo, quando a quietude como é hábito costuma instalar-se , à hora da sossega , depois das portas trancadas, vai começar a ouvir-se um reboliço .

Hão-de soar primeiro as vozes, timidamente, de baixinho,depois mais e mais até ser algazarra.
Chocalhos, latas, risos e gritos,moços fugindo a caminho das aldrabas das portas,retenindo campainhas, batendo aos portões.
Soltam-se ais sustidos nos peitos, arremeda-se o pranto sem que haja paixão.
Às costas de uns quantos,já o boneco segue rua fora,na horizontal,feito cadáver , nas lides de um enterro que termina em chamas para maior purificação.
Homens e mulheres,palreiam e riem.Gritam sem ter dôr, mas com tanta convicção como se tivessem .
Todos os farsantes,a viuva,o padre,o juiz e as carpideiras encabeçam o cortejo que vai engrossando à medida que a gente dá notícia.

A vizinha tem um gato
Mas que gato tão valente
Vai ao poço e vai ao mato
Vem de lá arranha a gente
Vem de lá arranha a gente
Vem de lá arranha o cão
A vizinha tem um gato
Mas que gato valentão

Como uma prece,como uma ladainha ou como uma encomendação da alma do finado, as vozes vão-se acrescentando na moda.
Atras, a banda toca a melodia.

Aos postigos, as pessoas já desgrenhadas espreitam,os mais novos admirados,os mais velhos com lembranças de outros entrudos.
Entrudos outros, em que o mestre César e o mestre Inocêncio teatralizavam como ninguém a farsa do fim da vida de cada Carnaval.

Mesmo assim, mesmo longe da autenticidade e do brilho que eles davam às palavras, já sem o alento com que eles impregnavam os discursos, é bom que ainda por aqui se quebre o silencio da noite de quarta feira de cinzas para se viver uma tradição que liga com magia, a folia ao medo da morte.