sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

AS FEIÇÕES DO TEMPO

Para melhor nos situarmos na cronologia da vida e termos uma noção do ido e do restante, medimos o tempo, estabelecemos valores, do segundo ao milénio, assim como numa distância se calcula do milímetro à légua, para ganharmos a consciência do que temos e do que falta.
Mas dada a sua complexidade, com o tempo, para além da referência quantitativa, ainda arranjámos outro padrão que durante o ano nos vai ajudar a destrinçar os dias uns dos outros, uma vez que na realidade e na sua essência se desigualam, malgrado os relógios não acusarem diferenças entre eles.
Um metro é sempre um metro, todo o quilo pesa o mesmo, mas um dia de Inverno, não é o mesmo que um dia de Verão. Assim, tendo em vista uma melhor qualificação do tempo, para lhe darmos uma feição, vibrações e se calhar até alguma sensualidade, agrupámos os meses em estações. Uma estação, por isso, representa muito mais do que um grupinho de três meses á fio. Sucedem-se umas às outras num encadeamento de sonoridades, cores, perfumes e sensações que nos marcam e reflectem afectuosidades induzidas por ritmos e apelos que a gente não chega a perceber.
Na Primavera, começamos por ela porque nela começa o calendário da vida, os dias amornam e de repente ouve-se o canto de uma andorinha. Estremecemos parecendo que o frio acumulado nas entranhas da terra se caldeia com um magma ascendente e se fundem, numa respiração de brisas amenas que pouco a pouco, vão acordar gestos e volúpias adormecidasDo sul para o norte, a bonança sobe, embriagando na sua passagem quanto é vivente. E por isso, de longe veio cuco, no mesmo dia, todos os anos, cantar no mesmo lugar, cânticos aprendidos no principio, quando pelo Mestre tudo era anunciado antes de acontecer pela primeira vez.Depois, soltam-se os chilreios, tocam-se os biquinhos, esvoaçam as aves daqui e as doutras bandas que para cá vêm , para voltarem mais.
Acordam os ralos, os grilos destapam as tocas já inquietos para enxugarem os corpos ao sol, enrijarem as asas de ouro e ébano e principiarem uma cantoria que só acabam em morrendo.
Nas ribeiras , só já corre um fiozinho de água por entre as raízes dos poejos e da rabaça. No meio dos juncos, os patos fazem ninho e as galinhas de água esgueiram-se em perseguições amorosas que continuam em mergulhos velozes para o interior dos pegos onde as águas são mais profundas e os prazeres também o serão. Nas poças mais chatinhas que são as primeiras a aquecer, as pardelhas fazem sombreados velozes que de repente viram reflexo prateado, quando um raio de sol lhes bate nas barrigas já desovadas. Aí, também os mosquitos pernaltas gostam de flutuar em descanso e de quando em vez um é levado na fiada de um cágado ou achigã.
No mesmo lugar, ao fim do dia, as rãs coaxam desalmadamente, num frenesim de namoros que se prolonga noite dentro, mesmo se não houver luar. È quando se ouvem os algaravões, assobiando às damas e os mochos insistem nos pios de requinta, cuja sonoridade atravessa mais longe ainda o sossego.
Pelas estradas de terra batida os lebrões passeiam-se, exibem-se e guerreiam, dão fujotas e corridas, envolvem-se em lutas que acabam em criação.
E ao romper d’alva, junto ao chão orvalhado, levanta-se uma névoa que côa a luz e eleva o perfume dos campos pintados por uma imensidão de cores e de tons.
Cortando os ares já esvoaçam os pássaros, incansáveis nas buscas de adornos e brocados para os ninhos em construção. Nem dormiram bem, pensando na obra. No entusiasmo afinam os gorjeios , multiplicam as vaias.
Junto ao beiral, por cima da porta, num ninho cativo, talvez já com gerações, um casal de andorinhas dão os últimos retoques. Vão e depois voltam. Uma aninha-se e a outra canta-lhe, melodias que elas sabem, coisas que elas gostam de ouvir e dizer.
Ao fim de três meses, já o calor aperta e o tempo volta a mudar de feição.
Depois mingua o viço e a folha cai.
Não tarda , a ribeira já não dá passagem e assim vai correr, tempo sem fim.
Mas, depois, num dia qualquer, que só ele sabe e nunca se esquece, o cuco volta para cantar os seus cânticos aprendidos no principio de tudo, quando o Mestre anunciou todas as coisas , antes de as mandar fazer infinitamente.