quinta-feira, 4 de março de 2010

ENCONTRO DE CANTADORES DE DESPIQUE E DE BALDÃO

De tarde a chuva estrambalhou os corais que desfilavam ao compasso das modas ou, melhor dizendo, cantavam à cadencia de um marchar sustido pelas vaias e pelas requebras que o cante impõe e o fôlego permite.
Depois à noite, o céu rompeu-se em esgarrões que faziam correr as valetas como há muito já não se via. No parque, a tenda montada para acolher o encontro, começou logo a mostrar que era mais adequada para o tempo seco. Nos pegamentos, à força da água ou à custa dos anos, começou a verter e foi preciso arredar as mesas para fugir às goteiras.

A borrasca podia ser obstáculo à festa, mas os cantadores chegavam aos magotes, dois daqui, três dali, juntos no vir, para dar coragem, porque isto do cante quere-se com parcerias.
Os do campo, os da serra, que eram os mais, e os outros que andam soltos sem compromisso à terra, mas também sem grande sujeição ao vício.
Sentam-se por ali, falam, dão tanganhadas, raros abraços, alguns acenos. Começam por registar as presenças, vão contabilizando as faltas, de soslaio vão controlando as entradas num medir de forças estratégico e indisfarçável.

Lá se levantam, dão duas voltas, pigarreiam, levam a mão à garganta, abanam a cabeça para insinuar uma dôr na garganta. Continuam a rodar, vão mancando a mesa à volta da qual se hão-de sentar e esperam que os mais afoitos tomem lugar.Com toda a manha que a vida dá, vão-se chegando para um lado ou desviando-se do outro onde a sua posição é mais vulnerável.
Depois voltam os lamentos: que não deviam ter vindo, que não estão capazes, que há uma porção de dias que não têm fala que preste.
A mesa vai-se compondo.

Onde já não há campo, ainda se apertam um pouco desde que seja para se sentar um favorito ou para dar lugar a um tocador que tem na roda um valor maior.
Uma vez sentados, começa o jogo da encenação, acabam as amizades, instala-se a desconfiança, sobrevém algum nervosismo. Buscam alguma concentração olhando para o prato da açorda. Fala-se pouco .Discute-se menos. Não se riem. Fazem cara séria, sobrolho carregado, para impressionar, deixando fugir aqui e além um sorriso incontido.
Conhecem-se quase todos de ginjeira. Sabem bem que se facilitarem, alguém aproveita, perde o respeito e ataca.
Este ano homenageou-se o Aníbal Jesuíno, um resistente do cante, escolhido no ano transacto pelos camaradas para merecer o louvor.
Para ele foram as cantigas da primeira volta. Alguns persistiram no mesmo afundamento noite fora, até esgotarem o manancial das que vinham estudadas.

Outros sacaram das suas razões para ajustarem contas antigas e ainda não saldadas em recontros anteriores. Depois veio à baila o recinto da feira com os paralelos e as ruas empedradas. Mas , como sempre, a temática predominante focalizou-se na eterna rivalidade campo/serra. Virtudes e desgraças de uma banda e outra, dissecadas em poesia repentista ditada por sentimentos e emoções trazidos de geração em geração.
O correr da noite vai amaciando as gargantas e o cante fica mais bonito. A rodagem do pensamento vai espevitando a inspiração e as cantigas saem mais profundas.
Às vezes , acendem-se as palavras com um azedume que parece queimar .Cerram-se os olhos e desferem-se os golpes ,certeiros ,direitinhos ao alvo. Os visados encaixam .Não fazem mais que um sinal breve de entendimento. E nisto é que está a arte. Não se deixar perturbar. Os que têm veia respondem ao consoante, rebatendo, desarmando, mostrando aos demais as fraquezas ou as vergonhas dos adversários.
A poesia nasce fluida, no flagrante da ideia e depois é despejada, num movimento circular, envolta numa sonoridade antiga, arrastada, gemida, gritada.
As violas passaram pelas mãos de três tocadores e era já alta noite quando se calaram vencidas pela abalada dos homens amantes da tradição.