segunda-feira, 24 de maio de 2010

AS MULHERES E A MODA


Em vários fóruns e por diversas ocasiões tem vindo a “MODA” a debater a problemática do cante, fazendo a sua abordagem pelo lado da organização dos Grupos, pela necessidade da sua projecção para outros níveis de conhecimento e cumulativamente para outro grau de dignidade, tem-se falado das raízes históricas , confrontando as várias hipóteses que sustentam o surgimento e a fixação desta forma de cantar como tradição do povo alentejano, entrou-se já também na análise da própria interpretação quer por via do que se canta quer por avaliação do modo como hoje se está a cantar.

Tendo presente que a interpretação organizada, melhor dizendo estruturada, do cante alentejano, é um fenómeno relativamente recente que se generalizou só há cerca de seis décadas, através da criação dos Grupos Corais que marcaram uma viragem decisiva no nosso panorama cultural, importa frisar que o cante, independentemente da opção que possamos defender para explicar a sua génese, teve como berço o campo e como colo o trabalho.

Foi, efectivamente, durante os trabalhos e nas caminhadas que os mesmos propiciavam que a moda, tal qual hoje a conhecemos, se arreigou à nossa memória colectiva e passou a ser a nossa expressão vocal mais autêntica.
Resulta daqui que sendo o trabalho rural, dada a natureza fundiária da posse da terra, executado em conjunto por muitos assalariados, o nosso cantar como atitude colectiva, tinha de ser coral e a polifonia tinha de ser a sua matriz.
A ausência de instrumentos musicais de acompanhamento, prende-se também com as razões anteriores e é ditada pela mesma realidade. Se tivermos presente todo o circunstancialismo sócio-económico de então, bem se compreende que no cenário onde o cante acontecia, não podia haver lugar a toques para acompanhamento do cantorio, como se fazia, em jeito de festa, noutras regiões do país.

Assim, temos para nós, que as traves mestras do nosso cantar, assentam basicamente nos pilares do trabalho rural e da sua execução em ambientes bucólicos e de uma forma colectiva.

Logo, e sem querer menosprezar as ricas vivências noutros espaços, como as tabernas, as feiras e os mais ajuntamentos, onde o cante também pontuava e se divulgava, transmitindo-se na exclusiva oralidade que justifica as nuances que agora encontramos nas mesmas modas, conforme sejam cantadas de lugar para lugar, podemos eleger as mondas e as ceifas como as escolas por excelência da moda alentejana.

Por isso, sabendo que eram os homens, as mulheres e as crianças quem trabalhava nas ditas fainas, sabemos também, que eram eles quem desde sempre e indistintamente, interpretava a moda, integrando-a como factor transversal ao seu labor.
Por essa razão, as modas primeiras, tinham todas a marcação e o ritmo do compasso do andar e eram susceptíveis de uma interpretação simultânea com o labor. Eram pensadas, idealizadas, trauteadas e depois experimentadas na cadência do movimento dos corpos curvados searas dentro ou nas caminhadas estradas fora.
Todos cantavam, fazendo um coro que como um bálsamo amornava as canseiras e como um elixir revigorava os ânimos. Os cantares repetiam-se vezes infindas refrescados pela introdução de cantigas (letras) originais ou aprendidas que os solistas lançavam valendo-se das suas vozes melhores. Ao longo do dia, cantava-se uma, depois outra, outra e outra, corriam-se muitas, mas sempre que surgia uma nova, era nessa que se insistia, preferencialmente. Em todo o sítio, vinha à baila e teimosamente cantava-se a “moda nova”, vezes a fio, sem cansaço, parecendo até ser um exercício de memória que inconscientemente se fazia para não mais se esquecer a “moda nova”, a que estava na berra e daí ficou o termo para designar a canção alentejana.

Quando surgiram os primeiros grupos corais, formados para interpretarem regular, disciplinada, organizada e sistematicamente o cante em festas e concursos, eram constituídos exclusivamente por vozes masculinas. Quase todos de adultos mas também os havia de crianças.
As mulheres não podiam relacionar-se, colectivamente, com o cante fora do trabalho e por isso, quando o trabalho nos campos acabou, calaram-se as vozes femininas que com tanto fervor e sentimento o tinham interpretado.

E bastaram apenas duas ou três décadas para se esquecer o papel e a importância das vozes femininas no cante. Da memória apagaram-se os cantes vibrantes das ceifeiras e das mondadeiras e já se insinuava, já se dizia, já se afirmava que o Cante Alentejano não era para mulheres.
Com efeito, importa aqui distinguir duas realidades. Um cante primeiro nascido no trabalho e para o trabalho que era cantado indistintamente por todos, dada a toada e o ritmo da sua execução e um cante outro nascido mais tarde, dentro dos Grupos Corais e para os Grupos que eram então exclusivamente masculinos.
Nesta nova vaga do cante enquadram-se as modas mais pesadas, aquelas que carecem da sustentação dos baixões, de vaias prolongadas e que pedem um cante parado, sustido, agarrado ao chão.

De uma forma inconsciente, estes dois tipos de modas são presentemente interpretados com diferentes coreografias. As primeiras , tipo “ao passar da ribeirinha” são cantadas com marcação, a conhecida cadencia e as outras , tipo “a ribeira do sol-posto”, cantam-se na prumada, corpos hirtos, vozes sustidas num clamor que não se compadecia com a dinâmica de qualquer trabalho.

Daí que devem os Grupos Corais femininos cantar as modas que se adaptam à natureza das suas vozes e deixarem aos homens as tais modas do segundo tipo que alguns mestres fizeram para serem cantadas exclusivamente por eles, fora do trabalho, dentro dos seus Grupos, depois da sua estruturação como corais que passaram a ter uma existência regular .
Ao invés, podem os homens cantar indistintamente as modas do trabalho como o fizeram desde sempre, sem preconceitos de serem “bailadas”, bem assim como as outras que para eles mesmos foram pensadas porque ambas consubstanciam a nossa verdade etno-musical.