sexta-feira, 14 de maio de 2010

OS GRILOS

Depois do fim das chuvas, passados os charocos e as geadas, o sol ganha força e penetra a terra, começando a espevitar de vida os campos que ainda torrejam semi desnudados pelos excessos, dos calores e dos frios passados.
Os solos vão secando, primeiro os mais altos e delgados, depois os baixios, onde os atasqueiros ainda perduram e mais tarde, a nata, junta ao de cima, há-de fazer uma película fina e acabar por gretar mal chegue o estio.
Não tarda, a erva que foi abicando nas pastagens e as searas que romperam nas semeadas, começam a cobrir de verde quanto se avista.
À medida que o tempo amorna e os dias se alargam, o ervaçum cresce, já faz sombra às raízes, já embaraça o passo, e começa a pontilhar-se do florido das margaças.
Daqui a pouco, à nossa volta, tudo é um mar de pétalas minúsculas destinadas a libertarem os mil aromas estonteantes que em cada ano se elevam, para acordar do sono do recolhimento, todos os insectos mergulhados nos abrigos, fendas, ovos ou casulos.
Com a bonança, chegaram as primeiras andorinhas, as mais afoitas ou as mais saudosas, para mirarem os ninhos por elas feitos, ou por elas apenas retocados, sempre nos mesmos lugares, temporadas a fio. Só depois, lhes vem a vontade de libertarem os gorjeios de alegria contidos pela fadiga. Tudo em o seu tempo...
No intervalo da escola há um moço que diz: já apanhei um grilo! Uns acreditam outros não. Mas depois em casa, todos vão à procura das latas furadas como um passador, onde usam guardá-los, aqueles que não têm gaiolinhas de tábua e arames torcidos na ponta, como cajadinhos. Há outras maiores, para mais ocupantes, mais espaçosas para eles poderem furtar-se às torquezadas uns dos outros, já quase viveiros, feitas de rede mosquiteira ou outras ainda, estas compradiças, imitando casinhas, de plástico amarelo torrado nas paredes, janelas e portinha cor de limão e telhado de duas águas, vermelho bem vivo.
Para confirmarem a novidade, perguntam aos colegas que vêm dos montes se já os ouviram, porque eles são os primeiros a fruírem o seu canto, mal chega a maré.
Este ano são temporões, já estamos fartos de os ouvir, informam os montanheiros que dos almanaques do campo tudo sabem.
A notícia espalha-se na vila e a partir de agora, todas as tardes, depois das três, não se faz mais nada. Uns vão a casa pôr a balsa, outros atiram-na pelo postigo e outros nem isso fazem. Escondem-nas pelos caminhos, em qualquer lugar, no meio das ervas, por detrás da parede de uma cerca ou na taroca de uma oliveira, para livrarem as mãos e poderem ir atirando pedras ou apanhando conveniências.
Vão aos dois e aos três, porque grandes magotes não dão resultado. Deslocam-se soltando risadas, contando aventuras, armando mentiras. Dizendo aos mais novos que na farmácia compram grilos a cinco tostões para fazerem unguento. Ou ainda que os grilos cantam bem é ao pé das galinhas.
Logo que acabam as paredes da vila e se entra no descampado, reduzem as larachas e abrandam a algazarra porque os grilos têm um ouvido muito fino. Quando desconfiam da proximidade da gente, pela fala, pelo pisar ou só pelo rastolhar das ervas diferente daquele que o vento faz, por muito forte que seja o seu cantorio, fazem “nhe” e acabou-se. Depois bem podemos olhar ao redor à busca do que não perdemos, imaginando o sítio donde vinha o som que não atinamos com o lugar onde o bichinho mora.
Mal se ouvem a cantar, cada qual tem de ir ao seu. Sempre a andar, pé ante pé, contra o vento, olhando bem, quase adivinhando donde vem a música. Quanto mais perto estamos, mais devagarinho temos de ir, levantando bem as botas, sustendo a respiração, como os perdigueiros, tal qual camaleões, até os surpreendermos à porta das suas luras, voltadas para a soalheira, de asas douradas, abertas em concha, fazendo bonito contraste com o ébano do corpo. O regréssimo ao pé do portal está limpo, varrido pelas milhentas passagens e não muito longe, têm o malhadal, onde se vão governar de quando em vez.
Cantam de costas voltadas para a gente, melhor dizendo, de cabeça virada para a entrada da taroca que é para não perderem tempo com manobras e se enfiarem, mal pressintam o perigo.
São uma seta que desaparece no escuro da terra. Então, deita-se um joelho ao chão e as mãos ao redor tacteiam para arranjar uma palheta. As melhores fazem-se do palanco a que se ripa a semente. Finas, longas, maleáveis mas suficientemente rijas para fazerem coceguitas no traseiro do fugitivo que, normalmente, ao fim de alguma insistência não resiste e sai. Então, tem de se lhe barrar logo a entrada com um dedo porque o bicharoco vai tentar esconder-se de novo e desta feita, entrando de marcha a trás. Se o conseguir, em vez de sentir as cócegas nas partes fracas, fica com zanga e morde enraivecido a palheta. Já não volta a sair, nem com os dois joelhos em terra, nem com pragas, nem com escavadelas, nem sequer com uma mijadela para dentro da taroca.
Mas geralmente, a boa técnica impõe-se e não tardam a ser agarrados com todo o cuidado para não trilharem as asas, com ambas as mãos do caçador, juntas como dois cocharrinhos e onde o bichinho, dentro dessa gruta, numa obscuridade vermelha, embalado com um “nhenhenhenhe” insistente, não tarda a cantar.
Levam-no um tempo assim, para mostrar aos outros que o admiram muito, se for cochinho porque é cantador, ou se for rei, porque é muito raro. Da palma da mão passa para debaixo da boina ou da galita e aí permanece durante toda a jornada, sem se acomodar, tentando escapar, por entre os cabelos do carcereiro. Os homens não fazem assim. Quando apanham algum para levar aos mocinhos, despejam uma caixa de fósforos e com a navalha, fazem duas gretas como respirador e assim o transportam.
Ao sol-postinho, cada um trás meia dúzia de grilos para casa onde os hospeda em latas furadas ou nas gaiolinhas que todos os dias são assistidas com olhares cuidadosos e muitas serralhas, durante semanas de um encantamento que chega todos os anos depois de findarem as chuvadas.