terça-feira, 1 de junho de 2010

OS GADOS MORRIAM À MÍNGUA


Na véspera, antes de ir para a cama, abriu o postigo da porta, deitou a cabeça de fora e fez o olhar circular na abobada da noite, à procura de uma nuvem, em busca de um sinal que lhe permitisse um dormir mais descansado.
Mas o céu continuava tristemente estrelado e a lua anilada pelo frio que já estava.
Deitou-se entre os impos a que se habituou, soltos pelo martelar dos pensamentos que lhe apertam o peito e não lhe largam a mente o dia todo. Dá por si parado a olhar para a semeada, pela manhã e ao pôr do sol que é quando podia meter mais vista. Mas a cada dia, sente uma agonia crescente, ao ver o cereal de palmo a definhar, acusando a seca , logo com melas amarelas, agora todo crestado pelos geadões. Vê-se desaparecer de dia para dia, levando um sumiço que dói, porque com o verde vão-se as esperanças das boas fundalhas, a compensação dos esforços, o amparo da colheita.
Na manhã seguinte, mal saiu da cama, abriu o postigo da porta, deitou a cabeça de fora e fez o olhar alvejar a brancura dos campos , subindo depois ao redor da concha do astro embaciado pelo griso. Hoje vai estar geada até meio dia, disse ao vir para dentro.As mulheres já trabucavam debaixo da chaminé, apanhando as cinzas da fogaça da véspera, aproveitando alguma brasa ainda enterrada no borralho, amanhando os gravetos, soprando com o canudo, varrendo de roda do lume, recolocando panelas, testos, triângulos e trempes, despejando a àgua das quartas para dentro das outras bilhas pequenas que iam arrumando junto ao fogo já aceso em labaredas. Quando adivinha chuva custa a pegar, mas, hoje, nestes últimos tempos, neste inverno todo, parece uma isca.
Os gatos já entraram e porque lhes cheirou a linguiça com ovos, não param de miar de rabo alçado sOrrafando-se pelas pernas, sem medo, com insistência, apesar dos muitos pontapés levados .
Os mocinhos ainda dormem, na inocência e no descuido com o tempo que corre.
O clarão do fogo ilumina a cozinha onde ainda mal se vê com a luz coada que as duas telhas de vidro deixam entrar e por isso, nas paredes de cal, projectam-se as sombras bem marcadas dos vultos escuros que num silêncio quase devoto por ali passarinham.
Uma, quebrando a jura, enquanto tira meio pão do talego não se contém e diz- por enquanto ainda vamos tendo, mas com o jeito que estou vendo, para o ano não sei como há-de ser.
A resposta foi o desalento calado.
No poço a agua vai baixando a pontos de se ter já acrescentado a corda, quando, noutros anos, por esta altura, estava raso, corria para fora com tanto gemedouro .E quando chegar lá mais para diante, em que os dias crescem , o calor aperta e os abismos secam, as sedes hão-de custar a matar-se às tensas da agua compradiça, se a houver.
E os gados que não bebem a copo, nem são capazes de entender a falta, hão-de morrer à sede, os que resistirem à fome.
Num remoinho, estes pensamentos varrem as mentes da gente adulta do monte que pouco a pouco vai passando da preocupação ao desespero.
Beberam café preto, comeram os ovos mexidos, no fim passaram miolo do pão pelo esmalte dos pratos e saborearam como acepipe o gostinho da gordura agarrada, tingida de vermelho do pimentão da horta que na friginada a linguiça largou.
Uma, duas vezes, o terceiro miolo que já saiu quase seco, foi disputado no chão pelos gatos.
O homem saiu para soltar o gado, sem saber para onde, porque está tudo batido. Ontem teve tanta pena delas que por duas vezes subiu a cima das azinheiras e cortou os pompos mais tenros para lhes dar como se com isso lhes pudesse matar a fome . Hoje a volta vai ser cá por outro lado, barranco abaixo, seco, sem ponta de verde, com as touticeiras da junça comidas até à raiz, chão, chão e mais chão vazio, onde noutros invernos elas enchiam a barriga de ervaçum e cheirava a poejo quando se ía pisando.
Num andar cabisbaixo lembrou-se das histórias que em miúdo ouvia aos serões, contadas pelos velhos como se fossem contos de fantasia…em tempos muito idos, vieram umas secas tão grandes que a erva não crescia, as searas arderam com as geadas, os rebanhos comeram o resto e as semeadas pareciam alqueives. Os gados maleavam, morriam à mingua, endoideciam com a sede e com as aguas lodosas do fundo dos pegos, lambiam a terra, comiam o chão, por fim jogavam-se a comer as carapinhas das estevas , começavam a arregalar os olhos e depois e caíam dizimadas, atraindo grandes bandos de corvos e de grifos que os miúdos se entretinham a apedrejar.