quarta-feira, 23 de junho de 2010

A VIOLA CAMPANIÇA


Quando certa noite regressávamos de uma actuação com os “Ganhões” , algures no concelho de Odemira ,mas em data e sitio que já não conseguimos lembrar, parámos num lugar ermo ,à beira da estrada, onde durante o dia tinha havido festa.
Festa ou romaria, porque ainda por ali se viam restos de enfeites ,balcões improvisados e uma dúzia de homens ,de pé, rodeando outra meia dúzia que sentados à volta de uma mesa ,cantavam, à vez ,cantigas de improviso num estilo e com uma melodia que nos assombrou.
Nunca tínhamos ouvido tal, nem sabíamos que se cantava daquele jeito aqui mesmo, tão perto de nós, onde tanto se valorizava o cante.
Parecia-nos, até então, que o cante às vozes era o único e que tudo o mais que surgisse, só deste podia derivar como seu sucedâneo ou sua adulteração.
Depois daquele encontro breve com a surpresa de tão inusitado exercício vocal, durante anos guardámos a toada arrepiante do cante mouro ouvido numa tal noite estrelada, algures à beira da estrada, enquanto os homens do Grupo passante bebiam uma mini quente.
Só mais tarde, muito mais tarde, tomámos lidação e ganhámos afeição ao cante naquela vez ouvido ao relento e que chamam de baldão .
Voltámos a apreciá-lo, passados anos, na Aldeia das Amoreiras em casa do António Bernardo, o maior entre os grandes cantadores. Chegámos lá pela mão do mestre Manuel Bento, o mais exímio tocador de viola campaniça ainda vivo, que conhecemos já na década de oitenta, então morador na Funcheira e com origem na Aldeia Nova, terra que foi um alfobre de tocadores e que a barragem do Monte da Rocha inundou .Com ele, com a força da inditosa Perpetua Maria e a paixão pelo cante do Francisco António, arrebatámos a campaniça do esquecimento.
Com este trio ,a Cortiçol contrariou a sua morte anunciada por Ernesto Veiga de Oliveira, quando nos anos sessenta ,tristemente lamentou que o Jorge Montes Caranova não tinha mais seguidores.Com este trio, por força e entusiasmo seu, ressuscitou-se uma fatia importante da nossa cultura mais pura.
Ainda conhecemos o Laranjinha e o António Emídio ,também mestres do seu tempo, homens que consigo traziam uma arte secular, afinada de feira em feira, de balho em balho, de descante em descante.
A memória das gentes é tão curta que em menos de meio século, já se havia quase perdido o rasto de uma tradição tão arreigada e vivida em certas bolsas geográficas deste Alentejo. Quando descobrimos, uma a uma, a meia dúzia de violas campaniças sobreviventes ao apagamento das lembranças, estavam empoeiradas, rachadas, quase todas sem cordas nem cravelhas .
Brigámos para conseguir cordoamentos adequados ,corremos para arranjar novos instrumentos .De cada três que vinham de Tebosa, os mestre rejeitavam dois. Quando acabávamos o trabalho de relançar a divulgação da viola, a desdita roubou-nos a Perpétua Maria, incapacitou o Francisco António e quase nos levava o Manuel Bento, agora morador em Beja.
Mas, entre uma ida ao Canadá e outra aos Açores, entre uma actuação no teatro Carlos Alberto e outra na Gulbenkian, a campaniça reconquistou o alento bastante para perdurar. Temos agora jovens a tocar e futuramente mais seguirão a prática do Pedro Mestre. Na Corte Malhão, o mestre Amilcar constrói instrumentos e toca com o António Silva Campos em Amoreiras Gare. Em Castro decorre um curso de formação profissional para construtores de viola e em Santa Clara a Nova aprende-se a arte do seu toque.
Sabemos que não se voltarão a fazer bailes ao toque da viola campaniça, nem cantes a despique voltarão a acontecer com o preceito de outrora, porque agora a dança é outra e o tempo da Zéfinha de Portel, do Castro da Cuba, do Faísca e do Matias já passou.
Mas os homens da serra salvaram o baldão e hão-de continuar a cantá-lo com fervor e sentimento, assim como não faltarão mais violas campaniças nesta terra, nem gente para as tocar.