quarta-feira, 21 de julho de 2010

FÉRIAS GRANDES



Logo de manhãzinha, a mãe abeirou-se da cama do António e disse: filho, vá arriba! Depois, abriu a telha de vidro e no lusco fusco, ficou por uns instantes parada, a olhá-lo enternecida, enquanto lhe ía passando devagar os dedos abertos pelo cabelo, como se o penteasse.
Vá, são horas! Tem de deixar o quentinho porque já se faz tarde , logo começam a passar os outros moços – insistia a mãe, espevitando-lhe as energias tomadas pelo sono, vencidas pela preguiça.
Pesaroso, atabalhoado, ía experimentando o retomar de um ritmo interrompido havia meses, desde o principio do verão. Mas ajudado lá foi, marrafa apartada, calças vincadas de véspera, presas ao pescoço por uns suspensórios a estrear, de nastro às riscas com carneira nas pontas onde ficam as casas para abotoar pelo lado de dentro dos coses. Levava botas de atanado já amaciadas, mas tão bem limpas com sebo de Holanda que aparentavam ser novas. Unindo as ilhoses, tinham cordões de linha bem esticados a terminar em laçadas perfeitas que escorriam como enfeite até ao peito do pé. Levava camisa de popeline com dois bolsos estampados que cerravam com botão, ao jeito das dos homens. Numa algibeira, um lenço de assoar também a estrear e na outra um moitanito de números da bola, para a troca ou para jogar à palmadinha.
Bebido o café com leite, aos solvos para enrolar uma dentada de costa, saiu porta fora, com a balsa a tiracolo, à espera da companhia.
Tinham passado os três meses das férias grandes, um mar de folgas, de jogatinas até às tantas, de tardes de lazeira desfrutando as sombras, de brincadeiras sem fim nem deveres para fazer.
Da vila, só meia dúzia tinham ido para a praia, que é lá longe junto ao mar que não se avista, só se imagina, como um pego grande cheio de cafundões, com ondas que derrubam e fazem rugidos que metem pavor.
O António, atravessou pastagens e restolhos e ía para a ribeira abanhar com os outros, todos d´empelão, sempre de olho alerta para agarrarem a roupa e safarem-se corgos fora se avistassem a guarda. Nunca alguém os proibiu de tomarem banho, mas raspavam-se sempre, como quando iam ao pássaro, ao grilo ou à bolota.
A caminho da escola iam-se juntando aos magotes, todos empapoilados, com alguma solenidade por ser o primeiro dia de escola e também incomodados pelas vestes e pela retoma da condição de alunos.
No pátio era uma chinfrineira, e algum mais afoito já tinha derrubado um ninho serôdio que os papalvos tinham feito no beiral da traseira. Uma fisgada para aplacar e mais duas para o serviço se dar por concluído, com uma pazada de barro e penas no chão, carregados em mil voos.
Tocaram a esquila e como as ovelhas, tentaram entrar ao mesmo tempo, atropelando-se, dando sovinadas , soltando chiados, até que por fim se repartiram pelas quatro salas.
Estranharam o cheiro de casa fechada um verão inteiro. Daqui a uns dias o perfume é outro. Mistura-se a ardósia com o cuspinho, o giz com as aparas dos lápis, a respiração com as mofaias e durante meses a fio naquelas salas vai perdurar um odor que o António transporta permanentemente na balsa, no corpo e na mente, até que volte a ser verão e volte a ter férias grandes.