terça-feira, 6 de julho de 2010

PALAVRAS ANTIGAS, REFLEXÃO ACTUAL


A teorização produzida em volta da origem do nosso cantar é base importante para um maior conhecimento e uma adequada reflexão a propósito do tempo, do lugar e do modo como terá surgido essa manifestação artística que talhada no perfil da alma dum povo ganhou raízes, interiorizou-se na profundeza do nosso sentir, sedimentou-se, exprime-se ainda plenamente na atitude das gentes, faz parte do seu viver.

Por isso, a importância do estudo, do debate, da especulação e da pesquisa sobre as origens do nosso cante é manifestamente grande e como tal, são sempre bem-vindos todos os contributos teóricos com vista a esclarecer o enigma dos princípios e a razão ponderosa da sua continuidade. Que se investigue, que se escreva e que se fale por sistema a tal propósito , destacando-se em tal empresa as nossas Universidades dotadas de erudição bastante para excederem o trabalho até aqui desenvolvido e cuja divulgação, esta também essencial, carece de atenções maiores.

Por outro lado, importa também reflectir profunda e urgentemente sobre a vertente prática da Moda ,no que ela tem de mais real, traçando cenários de intervenção colectiva, no que concerne à sua expressão e no que diz respeito ao envolvimento global dos seus intérpretes. Neste campo, tudo se tem vindo a desenvolver sob a égide do acaso, sem cuidados específicos, sem acções concretas, percorrendo-se um caminho se não de indiferença, pelo menos de conformismo com as agruras que o tempo arrasta.

Sendo, como é o cante, a expressão mais viva, envolvente e unânime da nossa Cultura, é tempo das gentes imporem a si e logo aos poderes, outro posicionamento, outra relação, outro compromisso com a Moda e com aqueles que a sustêm.

Os Grupos Corais, verdadeiros sustentáculos da nossa expressão cultural vocal, devem passar a ser considerados e tratados como agentes culturais especiais a quem seja conferido um estatuto de utilidade publica regional, beneficiando de um apoio geral sistemático consentâneo com as funções artísticas, culturais e de representação que desenvolvem.

Para que o Alentejo amanhã não deixe de cantar, é urgente que hoje se imponha a dignificação da Moda e a consequente elevação do estatuto dos seus intérpretes. Se persistirmos na base actual, em que muitos dos nossos Grupos Corais não têm apoios consentâneos por parte das Autarquias, ou recebem ridicularias comparativamente com os grupos de futebol que integram numero equivalente de participantes, se continuarmos a actuar em troco de nada em festas, festarolas e desfiles intermináveis onde apenas se busca o efeito surpreendente e competitivo da quantidade de vultos para fazer cartaz; se nos deixarmos ficar indiferentes à ausência sistemática de condições mínimas para actuar; se continuarmos a pactuar com a desorganização da maior parte das actuações que fazemos onde, em troco de coisa nenhuma, percorremos centenas de quilómetros para cantar duas modas, muitas vezes para ninguém, depois de muitos outros já terem feito papel igual; se não soubermos impor o nosso cante como manifestação cultural autentica que é, de nível artístico elevado, emblema vocal dum povo e duma região, a Moda passará por tempos difíceis.
Por isso, importa que a organização e a interacção entre os Grupos se imponha a breve trecho. Em Novembro próximo, o Congresso do Cante em Beja deve ser por nós aproveitado para que depressa se criem raízes organizativas e logo medre um orgão coordenador dos Corais que os dinamize, incentive, lhes aumente a auto-estima, denuncie as adversidades e daí, faça surgir uma nova atitude das gentes e do poder face à Moda e aos seus intérpretes.
29/7/97