terça-feira, 14 de setembro de 2010

O CANTE – Um património à beira da ruína

Valorizar potencialidades , maximizar recursos , promover valores e salvaguardar, na sua globalidade, o nosso Património são propósitos de bem-fazer que ganharam lugar de destaque na cartilha dos modos do bem-parecer ,onde os noviços da política formatam conceitos na aprendizagem e os veteranos da mesma arte, torneiam preconceitos na sua reciclagem.
O Património passou a ter, no ultimo decénio ,ao menos retoricamente , lugar de destaque entre as preocupações dos cidadãos mais activos que começaram a patentear uma atitude de cautela no modo como interagimos com aquilo que nos cerca. O Ambiente ,a Cultura e a Arte passaram a fazer parte do roteiro dos discursos dos responsáveis pela nossa governação que de uma forma tímida e outras vezes mesmo incongruente , lá ensaiam gestos de algum aparente cuidado no sentido de não agravar ou de minorar a vida difícil do passado no presente.
Nas ultimas gerações perdeu-se o sentido ao norte , cultivou-se mesmo o apagamento integral das referencias ,vandalizou-se a memória e tentou-se construir um mundo novo alicerçado em conceitos e modos de estar que partiam de uma mera atitude de oposição gratuita aos valores antes assumidos.
Sonhou-se com um bem estar conseguido à custa da afronta sistemática da economia ao ambiente. Nesta lógica, o mercado passou a ser o denominador comum do nosso existir, mesmo que tal implique morrermos intoxicados em químicos ou sufocados sem oxigénio, como os peixes já morreram nas águas das nossas ribeiras.
Neste sentido ,a modernidade procurou impor novos figurinos de actuação ,desfocou tudo aquilo que eram as nossas matrizes ,o nosso saber colectivo. Impôs-nos a atitude servil da indiferença ou de rejeição pelo que era nosso ,mesmo que tal implicasse perdermos os afectos e a solidariedade das gentes que sempre viveram irmanadas pelos laços de uma mesma cultura.
Nesta realidade entronca o grande padecimento em que se arrasta o nosso cante.
No meio de uma indiferença generalizada o cante agoniza num gemido surdo.
Talvez porque ainda ouvimos cantar, não se lhe presta atenção, não se repara nas feridas ,mas o certo é que cada dia que passa os grupos corais desfalecem e sucumbem porque têm menos vozes para cantar e os seus interpretes ,aqueles que resistem, estão mais incapazes de suportar a carga .E esta sensação de impotência para suster a sangria , este baixar os braços sem remar contra a corrente, coloca-nos cada vez mais longe de podermos enfrentar de forma vitoriosa a tendência reinante de desapego pelas raízes.
Caíram os moinhos à volta das nossas terras, desfiguraram-se muitos lugares à custa da modernidade urbanística, arruinou-se a economia local em favor de uma economia global, varreram-se-nos da memória saberes aprendidos ao longo de séculos. Mas o pior de tudo, é este arrefecimento que sentimos na alma à medida que vamos deixando esfumar-se a nossa Cultura, o que de mais sagrado um povo pode ter.
E porque o cante é o expoente máximo da nossa identidade cultural, é trágica a perda do gosto pela moda.
O cante é ,dentro do Património Alentejano, o nosso monumento mais rico e valioso .Por isso nos incomoda tanto saber que os seus alicerces cederam, que as suas paredes enfraquecem à medida que se soltam as pedras dos seus pilares, o que acontece à medida que se calam as vozes nos grupos corais. Um dia destes, já daqui a poucos anos, os vindouros sem perceber perguntarão porque não se fez nada, em devido tempo ,para evitar, ou ao menos contrariar, a derrocada eminente do nosso monumento mais rico e valioso que agora deixamos, irresponsavelmente ,chegar à beira da ruína. (30/1/2007)