segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GRUPOS CORAIS - É TEMPO DE MUDAR DE RUMO


Os poderes assistem impávidos e praticamente indiferentes à delapidação ,ao apagamento e até mesmo ao aviltamento do património mais rico desta terra e da nossa gente. Falta-lhes claramente a consciência da importância que o cante tem como elemento socialmente agregador , parecem estar destituídos da noção do valor que é inerente à expressão vocal do nosso povo, mostram-se alheados do seu estado e também dos cuidados que deveria haver para tornar mais sólida essa nossa matriz cultural .
Não planeiam ,não projectam e por isso não executam nenhuma estratégia de valorização do cante . Não buscam encontrar com os protagonistas medidas a adoptar no sentido do favorecimento da afirmação da moda . Recusam-se a dar um tratamento ao cante que tenda a projecta-lo para o nível de prioridade cultural primeira .
Assim ,aos Grupos não é conferido estatuto artístico e quando para eles olham ,mesmo sem desdenhar, nunca lhes conferem importância em termos orçamentais ou logísticos e muito menos no que respeita à consideração e ao afecto que lhes deviam merecer.
Qualquer Grupo Coral supera em numero de elementos, em entrega, em actuações e em representatividade o plantel do grupo de futebol local , mas a todos é fácil constatar quais os apoios que anualmente estão reservados a um e a outro. Enquanto assim fôr ,e só deixará de o ser quando a actual atitude for modificada , uns são atletas ,vedetas, campeões e os outros são os coitados que cumprem um quase dever de arrastar consigo o peso duma tradição a que só às vezes e quando dá jeito importa lembrar e enaltecer. Também por isso , a participação ou a simples identificação com o fenómeno bola é querida e invejada , sendo, ao invés, a motivação pelo cante progressivamente arredada das preferencias da nossa gente ,em particular, da juventude .
Sabemos que o problema em questão é de grande complexidade e de difícil solução ,mas consideramos também que ,por isso mesmo, não se pode deixar passar, passivamente , mais tempo sem que nada se faça para evitar a sangria de emoções presente que irá inevitavelmente transformar um fenómeno cultural de massas numa pratica restringida à intervenção de uns poucos que por razões específicas conseguiram resistir às adversidades e temporariamente manterão o cante ainda vivo com maior ou menor rigor.
Desta realidade não cabe a responsabilidade em exclusivo aos poderes e referimo-nos a todos, mas não podemos ignorar que são eles que tudo influenciam e quase tudo determinam.
Também não queremos acusá-los de terem deliberadamente movido contra o cante um processo persecutório, mas não podemos deixar de constatar que quando se interessam pelos Grupos ou pela moda o fazem sempre de um modo frouxo, parecendo-lhes que já dão mais que a conta, deixando sempre evidenciar uma atitude de algum distanciamento que resulta não de cautelas políticas mas antes de preconceitos socioculturais. Há tiques que são indisfarçaveis e há atitudes que são bem denunciadoras do real conceito que têm do trabalho cultural e da valia artística dos corais. Existe efectivamente um tratamento pouco empenhado, aligeirado e às vezes oportunista relativamente aos Grupos quando os consideram gente que canta só por cantar e que sempre o fizeram daquele modo , incondicionalmente ,a troco de coisa nenhuma ,só para aliviar as suas mágoas ou tensões .
A génese do cante , o meio em que se desenvolveu e o suporte socio-económico que lhe emprestou a alma , são, porventura, as razões principais do tratamento menor que os poderes lhe destinam. Os colarinhos brancos nunca cantaram a moda ,só excepcionalmente se misturaram com ela e ainda agora assim o é .Uma estratificação social tão vincada como foi e ainda é a nossa ,criou barreiras que isolaram a moda no domínio dos esforçados, no mundo dos deserdados do ter, sem que a força das raízes ou a luz do intelecto tivessem até agora conseguido romper brechas nas muralhas do seu isolamento.
Os Grupos começam a encontrar pela primeira vez o seu rumo e a sua organização conducentes ao estabelecimento de critérios para unificarem o seu proceder visando a dignificação da sua expressão vocal e consequentemente a nossa identidade .É altura de lançarem um olhar sobre si mesmos ,reflectirem, melhorarem a conduta e o aspecto e discutirem regras e condições de participação em quaisquer eventos. Chegou o tempo de não pedirem nem pagarem para os deixarem cantar. Devem aprender com os erros do passado e não embarcar à toa atras de convites onde o cante é só um pretexto para encher cartazes de festas ou engrossar manifestações , mesmo que tenham por lema a defesa da tradição ou a cultura popular .
È tempo de se olhar para os Grupos Corais como agentes culturais de grande mérito e considerar-se arte de grande valia a actividade que desenvolvem.
È tempo de estimarmos o seu trabalho e invejarmos a sua produção.
È tempo de os Grupos Corais se afirmarem como parceiros culturais privilegiados em cada concelho e a moda alentejana ser considerada património cultural do Alentejo.

(Junho de 2005)