quinta-feira, 4 de novembro de 2010

UM CANTE DE BALDÃO



Na passada quinta feira ,à hora marcada, começaram a afluir a Casevel os cantadores e os muitos outros atraídos pelo baldão. “Tradições, Sons e Sabores” é o nome do espaço onde a Associação “Vozes das Terras Brancas” tem a sua sede, desenvolve actividades socio-culturais e tinha preparada toda a logística para o encontro. De tarde ,os homens juntaram as mesas, colocaram os bancos, encheram dos barris as garrafas brancas e tintas e de quando em vez , espreitavam à cozinha para cheirar o petisco e garantir a sua prontidão.

As mulheres fatiavam pão, faziam sopa, separavam da gaveta dos talheres, as colheres necessárias, para depois passarem por água. Sem susterem a conversa, contaram tigelas de barro vidrado, de modo a darem à vondo para o serviço. Tinham azeitonas ,negras e muito grandes, mas de fraca conserva. Deviam ser compradiças, porque por estas bandas, tais frutos, são menos carnudos e já pouco se apanham.
Partiram queijinhos para dentro de pires. Eram de meia cura, já mais para o lado de lá do que para o de cá e ,por isso, lascavam-se sem fazer bonito. Tinham três boas linguiças ,muito bem encaradas e cheirosas. Desfizeram-nas em rodelinhas e repartiram-nas por meia dúzia de pratinhos. Para fritar à hora, estavam preparadas talhadinhas de toucinho muito branco, com veiozinhos magros e salpicos de sal.
A sala foi-se enchendo e a gente foi-se alegrando com um e outro que entrava. Da casa, estava só a Mariana mais o Teresa para cantar ,porque mais não há, já que o Moinho ,embora presente, não fazia vasa por andar de luto. Lá fora ventava e chovia , talvez por isso, o Tremoço não chegou a vir. Mesmo assim, arrumaram muitos e quando não se podia esperar mais, deu-se ordem para abancarem. Mas demoraram. Sentam-se sempre a custo. Olham. olham, começam a regougar ,dão voltas, afastam-se, fazem-se acenos, depois lá vêm.
Para comer, qualquer posição servia, mas eles estão já a acomodar-se para o cante. Escolhem o lugar, não pelo prato, mas pela vizinhança. Conhecem-se todos e preferem ficar a seguir a quem deixe o cante em bom tom. Depois de muitas meças lá se sentaram, tocadores e cantadores. O Sobiote ficou de fora porque ha meses que anda amuado com o Zé Guerreiro da À Metade. Havia de fazer roda com ele, mais tarde no cante, mas não a quis fazer nos comes. Tirou da algibeira um pedaço de uma costa e um perinho amarelo que foi comendo cabisbaixo, sempre à margem .
O mestre Manuel Bento e o Pedro, às tantas, foram acertar as violas e depois voltaram, olhados por todos. O tio Chico António sentou-se ao pé deles, à cabeceira da mesa, mesmo não tocando. A doença roubou-lhe a destreza dos dedos mas não lhe tirou o crenço pelos toques e assim ali ficou presente ,ausente.
Os dois tocadores soltaram os primeiros acordes rasgando as cordas e fez-se silêncio.
Começou a ouvir-se a moda da Marianita e os cantadores estremeceram. Uns levam a mão à cabeça e outros fecham os olhos em busca da inspiração primeira. Pigarreiam, tossem, passam a mão pela garganta e abanam a cabeça como que a dizer que hoje não têm fala que preste.
Depois da morte do Bernardo, o Zé Guerreiro passou a ser o mão. Começou com o jeito dele , com o viço todo que o faz vir do Algarve sempre que há um cante.
Seguiu-se o Ribeiro e o cante começou a correr à roda da mesa , de poesia em poesia, sempre a circular no sentido contrário àquele que os ponteiros marcam nos relógios medidores do tempo .
As primeiras cantigas são de elogio ao petisco, servem só de cumprimento e para soltar a voz. Só mais tarde se encontra um rumo para o cante e se agarra um qualquer “afundamento” que norteia e inspira o improviso.
Mas, desta feita, meia volta ainda não estava dada e já os cantadores tinham assunto para toda a noite. Mal chegou a sua vez, o Sobiote do alto dos seus oitenta e quatro anos, atirou a primeira pedrada ao À Metade. Chamou-lhe malvado porque ele o deixou uma noite em Castro sem transporte nem meio de voltar a casa. Os outros deliravam.
A roda partiu-se. De um lado ficaram os de S. Martinho. Da outra banda reuniam-se os demais que eram muitos, versejando e zurzindo no Zé Guerreiro, sempre muito solto no verbo.
Esteve precisado da ajuda do Graça e do Perrarias nesta noite em Casével.
Grandaços e Santana , para picar o À Metade, deram todo o apoio às Nalgas do Adelino. O Jesuíno não perdia oportunidade para atirar as suas farpas ,numa toada sentida, cheia de vaias e requebras que fazem deste cante um gemido.
Noite fora, prosseguiram os cantadores no seu afã de afirmar uma arte que esteve quase perdida e agora se agita embalada pelos acordes da viola campaniça.