terça-feira, 13 de setembro de 2011

CANTAR COM ALMA


O CANTE ALENTEJANO



                                                                                  José Francisco Colaço Guerreiro

  

 Da companhia nasce a vontade, o relaxo espevita o apetite e do longe vêm os sons que  galvanizam os ânimos, depois os olhares vidram-se fixados em vultos, sombras ou sóis que flamejam, a mente começa a regurgitar memórias estilizadas que passam à  fio como anátemas, de mão dada, reflectindo-se  disformes no quadro do pensamento. Das entranhas soltam-se ais e gritos, trovões de razões caladas , murmúrios perdidos desde a antiguidade, risadas também, libertas em tempos passados, em espaços abertos, donde o vento as levou para sempre, sem deixar sequer um eco para hoje ser sorriso.

As bocas vão  ficando mais escancaradas à medida que  o sentimento incha nos peitos, notam-se então os corpos  possessos duma magia  que transparece nas vaias, crispam-se as mãos e os olhos cerram-se, a inspiração acende-se, o deleite aumenta, abre fervura, transborda e quanto mais se canta, maior é o esplendor das vozes impregnadas na  mística que o próprio cante produz.

É a  alma de um povo derramada em sonoridades  que escorrem  numa cadencia de preceitos, como fio de água que passa eterno no mesmo serpentear da corrente. E não cansa fazê-lo nem dá tédio observá-lo, porque embora aparente monotonia, os modos como arrastam as palavras  têm o sortilégio de produzir em cada instante sensações diversas, sentires distintos em momentos que são sempre outros.

As   modas que são poemas enfeitados de melodia , repetem-se com o mesmo fervor com que os aflitos  renovam as preces, uma, duas, vezes sem conto, sempre sem desânimo, buscando uma satisfação inconfessada ou tentando alcançar a perfeição do cântico, para igualar  na afinação a interpretação que  no imaginário se guarda.

Há um que começa lançando para o ar dizeres já sabidos envoltos numa toada  que todos conhecem  e  os mais, ficam expectantes, agarrados ao chão à espera da sua vez, totalmente entregues ao apelo, fazem  em silencio o percurso do evoluir ondulante da voz do ponto. A meio, como que param a respiração, depois  cresce-lhes um frenesim que  aguça ainda mais a necessidade da sua expressão vocal e inspiram ,sustêm o fôlego  como se fossem mergulhar no vazio, como que aguardando  um sinal para entrarem .De rompante, solta-se a voz do alto, mais fininha, estridente, fazendo a chamada. É então que o coro desata as gargantas e os vozeirões dos baixos respondem despejando  em tom grave o continuar da moda .E fazem-no com a determinação, a convicção, a postura e o sentir  de quem toca o absoluto.

Casam-se tão bem as vozes que o cante  parece nascer  de uma só vontade,  jorrar de uma só garganta, num  brado talhado de pausas e preceitos, ornado com melismas, que   penetra, arrepia  e  chega a ser comovente .

Os intérpretes entregam-se completamente  à toada do cante que depressa  se apodera  deles, tornando-os maleáveis, moldando-os a uma  plástica donde só sobressai a forma imprimida pelo conjunto. Gera-se entre eles  uma corrente  de afecto  que os percorre e  carrega de prazer, germina no grupo  um sentir quase lascivo e por isso ficam brandos, capazes de gestos eivados de ternura. Apetece-lhes  colarem os corpos tal como sobrepõem as vozes e  assim balançam levados e trazidos pela  melopeia,  cadenciando  enleiam os braços, como fazem as  silvas  para prender em redor.

E sempre que o destino os empurra  para a lonjura que é sempre imensa qualquer que seja a distância que os separa do berço, quando estão ausentes, perdidos nos descaminhos, desviados do  sítio, afastados desta luz, o crenço agiganta-se e as afinidades com os traços comuns são então mais evidentes.

Buscam a identidade no falar, nos dizeres, nas lembranças, nas coisas que se contam carregadas de sentires fortes de que os outros, seus iguais, também comungam. São as lembranças da escola, as belhoretas de gaito, as brincadeiras de pequeno, e os velhos, a memória da gente ida é também trazida ao de cima ,com referencias aos seus modos, aos seus hábitos, a histórias reveladoras de um tipicismo que sabe bem recordar.

Por isso se juntam amiude, de propósito, por necessidade.

Em cima da mesa colocam-se os comeres e as lembranças que se petiscam em cumplicidade e se saboreiam com o paladar da nostalgia . E por fim canta-se sempre.

A moda exulta os espiritos, suaviza a dôr da partida, funciona como um bálsamo que sem curar alivia as queixas .

Amorna as mágoas porque este cante é para isso mesmo. Não nasce das alegrias mas brota das paixões, dum pensar profundo, de preocupações .Por isso constrange quando se interpreta, por essa razão arrepia quando nos envolve.

Tem uma espiritualidade evidente qualquer seja a sua raíz. Cantochão, gregoriano ou fá-bordão poderão estar na sua génese mas a moda tem certamente impregnadas na sua estrutura as marcas dum povo com  certo sentir, os sons e as falas, os gestos e os sonhos  duma gente antiga  que aqui moirejava. E o cante temperou-se nas fornalhas dos restolhos, aveludou-se em primaveras coloridas, absorveu a imensidão do horizonte, captou os gemidos da solidão, ganhou formas próprias em lavouras custosas.

Desse caldo de valores e referencias se fez o cante e neste ambiente nasceram os mestres, seus interpretes ímpares seus cultores maiores.