segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A MAIOR FEIRA DO SUL


FEIRA DE CASTRO – UMA GRATIDÃO QUE NÃO TEMOS





                                                                             Por José Francisco Colaço Guerreiro



Mandavam nestas terras os espanhóis quando por decreto régio a feira se armou em Castro, transferida da desaparecida vila de Padrões, para que com os proventos dos terradegos , se fizessem as obras de necessidade na arruinada igreja dos Remédios.

Nesse tempo Castro era uma terreola,  praticamente um cordão de casas baixinhas, de taipa erguidas, unindo num traçado enviesado a dita igreja em ruínas e uma  outra , a matriz,  que como ela se erguia  dando graças aos céus pelo milagre de Ourique acontecido por estas bandas.

Poucos anos antes, em peregrinação mais bélica que religiosa, por ambas tinha passado o senhor rei D. Sebastião que chocado com a pequenez  e o estado indigno dos templos face à grandeza do feito cantado, ordenara que obras urgentes se fizessem  para os engrandecer e ampliar.

Para passar pelos ditos  templos teve o mesmo senhor rei  de pernoitar de véspera em Entradas dado que em Castro não havia casa capaz  em dimensão nem em cómodo para o receber, já que como dissemos, a vila era então um pequeno e pobre povoado só reconhecido pela importância  da batalha que se lhe associava e pela decorrente monumentalidade clerical.

Vencida a peleja judicial com a usurpada vila de Padrões, a feira , ano após ano, foi trazendo mais e mais forasteiros, por ela atraídos, para ela arrebatados desde os confins do imenso  sul  que durante semanas se enleavam com o mercadejar, com a folia, com a pedinchice, com o cardenho, percorridas léguas e léguas, para cá e para lá, a butes, de besta ou de churrião .

Uma vez no ano, Castro  trepava ao cimo das conversas , no antes, no flagrante e no depois da feira, pelas novidades, pelas carestias, pelo deslumbre, pelo que se acareava vendendo, pelo que se trazia empregando as economias amochiladas meses a  fio.

De longe vinham caravanas, uma semana antes, acampando aqui e acolá, juntando-se a outros feirantes que vinham de bandas diversas  e se já eram conhecidos de Outubros anteriores, folgam em conjunto,  repartiam merendas, falavam do tempo, palpitavam negócios, contavam aventuras e  depois partiam engrossando o fluxo que de  todas as direcções confluía  no arraial.

Depressa correu a fama, cedo se juntaram multidões, em pouco tempo de boca em boca passava a missiva, depois mil vezes repetida até ser ponto assente de que não havia feira como a de Castro.

E a vila, pequenina, acanhada e pobre foi-se estendendo, abrindo novas ruas como braços para alojar a feira, a rua dos legumes, a rua das cangas, os quartos dos ourives ou a rua nova da feira que se entrelaçavam e  depressa constituíram a malha urbana primeira  da vila actual.

Pouco depois, os lavradores dos concelhos vizinhos, muito antes de preferirem Monte Gordo ou Quarteira, começaram a fazer gala em ter uma casa aqui para se aquartelarem enquanto durava o alvoroço.  Com as casas de pousada, novas ruas foram surgindo, como a da bela vista, de Ourique, do acampamento ou da aclamação, numa expansão deslumbrante para os nativos e para os visitantes que de ano para ano vinham em maior número.

Castro nasceu com a fé de fora e cresceu com a feira dentro de si. Se a fé se foi perdendo por ser transcendente, a  feira alojou-se no habito dos castrenses , na sua identidade, na seu modo de lidar com a vida e com   as gentes.

Durante séculos, muitas gerações vibraram, abriram as portas e os corações para receber a feira e os feirantes. Desarmavam-se as camas, juncavam-se os quartos, estendiam-se colchões, para dar guarida ou pernoita a quem de fora vinha e ali ficava de paga ou por amor  em graça.

Um mês antes, de  casa a casa, faziam-se  as caiações, as limpezas profundas, alindava-se quanto podia, e começava-se a falar da feira. Do chove não chove, este ano ainda vai ser maior, o tempo tem vindo mau, o ano passado era um gentio de gente, vamos lá a ver, oxalá que sim, ai vai vai, já por aí andam os marchantes a contratar argolas nas manjedouras para acomodar o gado, fulano e beltrano já tiveram de despender de dois porque não têm água na cisterna  à vondo para tanto caldeirão .Todas as conversas batiam no mesmo ponto.

O ar impregnava-se de uma magia estranha e começava a cheirar diferente. Vinham à memória odores antigos guardados na profundidade do ser que antecipavam o ambiente de negócio e festa. Tudo lembrava, o cheiro dos pêros de Monchique, das castanhas assadas, do azedo-doce dos figos secos, da aguardente de medronho, das azeitonas britadas, das mantas de estemenha enzeitadas, do pó e bosta da corredoura, da pólvora seca que rebentava quando a  força do braço  era bastante para aplicar na marreta, dos sacos das alcagoitas, das frituras, dos cabedais, dos barros de cantareira e mais ainda o que exalava dos pífaros e dos apitos de olaria de pintura fresca e colorida que obrigatoriamente se aproximavam  do nariz para se poderem  tocar.

Como estas lembranças apareciam, vinham também naturalmente os ciganos,e  os mendigos exibindo os  maiores erros da natureza  e que por  via dos seus aleijões tanto comoviam os adultos como  acagaçavam as crianças.

Depois deles, chegavam as carroças dos vendedores de barro, cheiinhas de palha até aos taipais. Buscavam o seu sitio,desprendiam a mula, e com muito jeito baixavam os varais até ao chão. Um subia para cima da carrada , enterrava o braço no palhuço e tacteando desenterrava ora uma enfusa, um mealheiro, um alguidar, um fogareiro, que entregava às mãos estendidas da mulher que o ajudava na descarga. Eram também dos últimos a abalar juntamente com os das empreitas.

Durante uma semana, vendia-se de tudo, mais o necessário do que o supérfluo, plicos, samarras, safões, botas, chapéus, gorros e  toda a farpela, mantas, cajados, bordões, escadas e varejas, arcas, mesas e tabuleiros, loiças, trempes, triângulos, tenazes e canudos, capachos, empreitas., gorpelhas, cangas e canzis, cabrestadas e  molins, arreatas e barrigueiras, bicos de charrua e aivecas, machados, alferces, picaretas e barrenas.

Nas barracas dos comes, dias a fio, não despegava o cante. Cantava-se a moda, mas o mais era o despique. Reteniam as violas campaniças que mestres afamados , faziam tanger em noites sem fim sustentando as vozes que se desafiavam em cantigas que rodavam razões e poesia.

Destes tempos ficou a fama  e  também deveria ter ficado, mas já não perdura, uma grande gratidão de Castro pela feira, um sentimento de que sem ela não teríamos deixado de ser  um  pequeno povoado, praticamente um cordão de casas baixinhas, de taipa erguidas, unindo num traçado enviesado duas igrejas levantadas à conta de uma fé perdida.