sexta-feira, 9 de março de 2012

A PROPÓSITO DA CANDIDATURA DO CANTE A PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE


CANTE A PATRIMÓNIO – Emendar os Erros

                                                                  José Francisco Colaço Guerreiro



O nosso cantar, também chamado de cante, moda,  terno, ou canto às vozes, é mais do que uma interpretação vocal. Representa o sentir profundo da nossa identidade, moldada por vivências, emoções, realidades ásperas e olhares bucólicos, acumulados e fundidos no ser e no modo que faz de nós gente diferente.



Por essa razão, o seu tratamento seja em que sentido for, qualquer que seja o propósito, tem de ser cauteloso e assentar no pressuposto de que se está a manusear a alma de um povo inteiro. E para fazer mal feito, melhor será deixar estar assim.



Malgrado toda a valia que esta prática encerra , a dignidade de que se reveste e a importância que ainda tem na nossa memória colectiva presente, a  sua fragilidade é evidente. Desaparecida há décadas a sua ambiencia  natural, o espaço onde germinava e se desenvolvia, o cante passou  a viver quase e exclusivamente do alento que os  corais  generosamente lhe dão, emprestando-lhe as sonoridades, as vaias, as letras e os estilos aprendidos no orfeão da vida e guardados nos seus peitos, já quase todos eles com um arfar custoso.



E neste contexto, depois de se terem gorado pelo menos duas anunciadas candidaturas do cante a património da humanidade, cavalgando a onda da classificação do fado , foi publicamente anunciada no ultimo trimestre de 2011, uma nova tentativa de levar o cante ao mais alto patamar do reconhecimento internacional.



De Serpa e sobre Serpa, as televisões, as rádios e os jornais falaram abundantemente focalizando as atenções numa associação local, nos Grupos de lá  e num edil daquele concelho.



Não questionamos o protagonismo dado a quem ousou  erguer , de novo, a bandeira da classificação do cante. Aliás, a excelência dos corais de Serpa e a forma intensa como a moda é quotidianamente  vivenciada naquele concelho, são merecedoras do destaque dado.



Porém, a sensação de grande júbilo criada pela perspectiva de que, finalmente , o cante poderia beneficiar de uma maior atenção, com vista a ser dignificado o seu presente e garantido o seu futuro, depressa se nublou quando nos apercebemos que o processo de construção da candidatura se centrava exclusivamente num gabinete longe do Alentejo e donde era  intencionalmente banida a intervenção activa dos principais protagonistas do cante,  os nossos grupos corais, bem assim como os nossos autarcas,  cuja participação era , obviamente,  essencial à elaboração de um projecto credível, coerente e com substância.



Passados meses, já em finais de Dezembro, a MODA- Associação do Cante Alentejano foi convidada a subscrever um protocolo de apoio à candidatura e integrou a sua Comissão Executiva . Depois disso, vai recebendo alguns telefonemas avulsos,  integrou duas ou três comitivas de contactos com  entidades, mas nunca lhe foi dado o direito de se pronunciar sobre qualquer questão concreta, até porque, ao que sabemos,  ainda não se realizou uma única reunião formal com todos os membros deste órgão.



Por outro lado, as autarquias vêm, silenciosa e rapidamente, aproximar-se  o dia 30 de Março, data agendada pelos promotores para a  entrega em Paris da candidatura do cante.

Sabemos que o desconforto é grande na generalidade dos municípios alentejanos que não se podem conformar com o seu papel de meros subscritores, há meses atrás, de uma  intenção de apoio à candidatura que lhes foi pedida pela organização.

Como é óbvio, quase todas as autarquias assinaram, como lhes competia, o dito impresso de boa vontade. Esperavam, contudo, que numa fase seguinte, fossem ouvidas e integradas como parte activa e interessada no desenrolar da candidatura.



E no momento presente, se outra tivesse sido a lógica que preside à elaboração deste processo, ao invés do cada vez maior descrédito, o Alentejo estava a vibrar com a possibilidade do seu cante vir a ser património da humanidade.

A esta hora, as autarquias estavam a promover reuniões de análise e de debate  sobre a  moda com os seus corais, apontavam-se caminhos para resolver as fragilidades, firmavam-se compromissos, faziam-se pontes, estreitavam-se laços, na perspectiva da valorização desta nossa marca identitária e a desejada classificação do cante seria, depois, o culminar de um trabalho de fortalecimento das estruturas actualmente existentes.



Mas assim não acontece e todos nos sentimos defraudados, porque entendemos que de nada serve estar a prometer classificar, para que depois tudo fique na mesma.

Aliás, numa eventual hipótese de sucesso desta candidatura, assim construída à margem dos agentes do cante, como se podem envolver os grupos e comprometer as autarquias  com um “plano de salvaguarda” que os ignorou, ao qual não deram o seu saber, a que não somaram a sua experiência, mas que pelo contrário, foi escrito a sós, algures num gabinete e  numa corrida contra o tempo, de empreitada,  para cumprir um curtíssimo calendário de apresentação marcado não sabemos por que agenda ?



Receamos que por este caminho, traçado pelo voluntarismo e  marcado pela indiferença face aos autores do cante,  estejamos a perder a oportunidade de darmos a verdadeira valia a este património nosso.



E a nossa apreensão aumentou mais ainda, com a demissão do indigitado presidente da comissão científica da candidatura, Rui Vieira Nery que alegou , nomeadamente : “ … todo o processo de preparação dos conteúdos desta candidatura foi até agora conduzido exclusivamente pela comissão executiva, tendo a comissão científica sido confrontada, na sua recente primeira e única reunião até hoje realizada, com um formulário já em fase final de preenchimento”. E ainda, “ … face à intenção reiterada dos respectivos proponentes de apresentarem a candidatura até 31 de Março deste ano, não vejo que a comissão científica possa sequer ter a oportunidade de introduzir até lá atempadamente no processo em curso as correcções  de fundo que me pareciam indispensáveis” . E mais disse: “ … A apresentação exclusivamente pela Câmara de Serpa de uma candidatura de um género cuja pratica transcende largamente o âmbito geográfico deste concelho levantará certamente dúvidas justificadas sobre a legitimidade do proponente para o efeito.”

E mais adiante, Rui Nery acrescentou : “ … a preparação da candidatura do cante não foi acompanhada de um processo amplamente participativo envolvendo as comunidades que praticam o género ( o que não pode ser substituído por um almoço isolado de confraternização entre grupos), designadamente na identificação das características do género e do seu património, o que será inevitavelmente questionado pelo Secretariado, pelos peritos do Corpo Subsidiário e pela Comissão Intergovernamental”.



Neste contexto e sendo certo que uma não aprovação da candidatura do cante pela UNESCO inviabiliza a submissão de um novo projecto durante vários anos, entendemos que se impõe suspender a projectada entrega do dossier em Paris no próximo dia 30 de Março.



Subsequentemente, pela organização, deve ser prontamente redefinida uma nova metodologia de trabalho que integre a participação activa dos autarcas do Alentejo e incorpore todo o saber, experiência e vontade dos nossos grupos corais, nomeadamente naquilo a que ao “plano de salvaguarda” diz respeito.



Assim e numa via de diálogo , de partilha e de responsabilização de todos os actores que neste território vivenciam, suportam e dão corpo à tradição do cante, estamos certos que será possível construir uma candidatura de sucesso e  com real interesse para este valioso bem que é nossa pertença colectiva.

(artigo de opinião publicado na edição de 9 de Março de 2012 do jornal "Diário do Alentejo")