terça-feira, 10 de abril de 2012

O CANTE MERECE MAIS



CANTE A PATRIMÓNIO –  A árvore e a floresta



                                              José Francisco Colaço Guerreiro



Em 7 de Maio de 2011  foi feita a apresentação publica do projecto “Serpa Cidade Criativa ” ,  uma iniciativa liderada pela Confraria do Cante Alentejano e apoiada pelo Município local  que visava  a  integração do mesmo, na Rede das Cidades Criativas da UNESCO. Tinha como principal argumento a temática das músicas, em particular , o cante e as sonoridades ibero-americanas, sendo,  então, indicado o professor Carlos Laranjo Medeiros como o responsável pelos contactos junto da UNESCO.

Como este projecto se gorou ou cedo se concluiu pela sua inviabilidade, começou-se logo a esboçar, localmente, uma alternativa capaz de servir de suporte a outra nova candidatura junto da UNESCO que aproveitasse os contactos estabelecidos, os conhecimentos existentes, os caminhos já trilhados  e valorizasse qualquer recurso endógeno existente e susceptível de reconhecimento por aquela instância internacional.

E logo, o “Cante de Serpa” passou a ser o alvo dos propósitos de uma equipa que se desdobrou em palavras e acções visando este louvável desiderato. De novo, o professor Carlos Laranjo Medeiros, a Confraria do Cante e o Município de Serpa, juntando o engenho e a vontade, lançaram mãos à obra, visando construir uma boa razão para distinguir aquele potencial cultural de elevada valia.

A sós, gerindo o tempo e o modo a seu gosto, avançaram com escolhas, pediram ajudas e receberam apoios , sempre alheados do mundo em redor, pois nada tinham que partilhar com ninguém, nem careciam de opiniões alheias, visto que  trabalhavam com um bem concelhio.

Porém, certo dia, foi-lhes  feito o aviso que uma candidatura do “Cante de Serpa” a património da humanidade , por mais insigne que o mesmo seja, por maior distinção que o mesmo mereça, não seria susceptível de ser aprovada pela UNESCO que tem como regra, não classificar a parte de um todo, olhar a árvore sem ver a floresta.

Perante esta contrariedade, a equipa já no terreno, não esmoreceu e depressa foi encontrada a melhor solução aparente: a candidatura deixava de intitular-se “ Cante de Serpa” , passando a designar-se de “ Cante Alentejano” .

Quanto ao mais, nada havia a mudar, para além de uns pequenos ajustes.

E é aqui começa e acaba a nossa discordância, tanto com o modo gestionário, como com os objectivos a alcançar em resultado da candidatura.

Ora, entendemos que o actual corpo decisório  não merecia qualquer reparo, se estivesse em causa a preparação para a  classificação de um bem concelhio. Porém, já que se trata da candidatura do cante alentejano, do bem colectivo de toda uma região, não vemos como se pode prescindir, na organização, da palavra, das ideias e das opiniões dos autarcas do Alentejo onde se canta a moda.

Parece-nos, completamente inadequado  e insuficiente, o papel das autarquias estar limitado à mera subscrição de uma declaração de apoio ao cante a património.

Como principio, independentemente, da génese da candidatura, todos os autarcas deviam ter sido convidados a integrar activamente o processo, directamente ou através de uma sua Associação representativa.

Assim e só assim, estariam por dentro, sentindo a motivação e o envolvimento necessários para  agirem localmente junto dos seus grupos corais e com eles criarem os compromissos necessários à aprovação dos “ seus  planos de salvaguarda” do cante.

Aliás, mais do que o galardão que a UNESCO poderá atribuir ou não ao nosso cantar, o que importava , efectivamente, era o  aproveitamento do presente ensejo para se traçarem novos compromissos e criarem outras dinâmicas que visassem retirar os seus interpretes, os nossos grupos corais ,do marasmo onde sobrevivem.

Mas curioso é notar que no contexto presente, a Comissão Executiva da Candidatura, na propaganda que de si própria faz, teve o cuidado de transformar esta sua fragilidade num motivo de corpulência  e brio, apregoando incessantemente que quase todos os corais e municípios estão consigo, apoiaram e são subscritores da sua intenção.

Não conhecemos quem não deseje ter o cante promovido a Património da Humanidade.

Nós próprios, desde há vários anos, sobre a classificação do cante como património de interesse municipal, temos escrito e pugnado.

Aliás, a MODA- Associação do Cante Alentejano de que fomos fundador e presidente da direcção e da qual somos e seremos  presidente da assembleia geral até ao próximo dia 15 de Abril,  desenvolveu, já faz tempo, junto dos municípios onde se canta a moda, uma campanha visando o reconhecimento do cante alentejano como património e os grupos corais como seus parceiros culturais privilegiados.

Desse afã resultou uma declaração  generalizada por parte de quase todas as autarquias das terras do cante, sendo, talvez por acaso, Serpa uma raras das excepções.

Apesar da insistência pessoal dos membros da direcção da MODA, tendo em vista a sensibilização daquele município para as vantagens recíprocas da dita declaração, só agora, já a meio do curso desta candidatura e por necessidade óbvia, é que Serpa cedeu.

Mas agora não cede e embora seja evidente a necessidade de se fortalecer a candidatura do cante, dotando-a de outro  crédito, fulgor e envolvimento, não pretende suspender a sua entrega em Paris, na data inicialmente prevista. De nada serviram algumas recomendações próximas nem as opiniões abalizadas de dois membros da Comissão Cientifica, o presidente que se demitiu e  uma outra ilustre estudiosa do cante alentejano que se recusou a substitui-lo.

Achamos que esta precipitação é um erro que o cante vai pagar caro, por isso, nos temos insurgido contra quem destina e  quem permite que este processo avance sem a consistência desejável.

 E não vai ser um ano inteiro de folclore em torno da moda , centralizando televisões e eventos no concelho promotor que nos vai compensar da oportunidade perdida de se fazer mais e melhor pelo cante alentejano.

Todavia, caso se cumpra o desígnio da agenda, calaremos a partir dessa data, o eco do nosso desconforto e seremos até à decisão final, em Novembro de 2013, apoiantes silenciosos do Cante a Património, porque o tempo útil da contestação acaba aqui.

( Artigo publicado na edição de 30/3/2012 do jornal " Diário do Alentejo" )