quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DAS NEVES

Hoje no Programa Património tivemos a companhia do Grupo Coral Feminino da Casa do Povo de Nossa Senhora das Neves - Beja

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PASSADO, PRESENTE E FUTURO DO NOSSO CANTO DE IMPROVISO



CONGRESSO DOS CANTOS DE DESPIQUE E BALDÃO 

Amoreiras-Gare, 23 de Fevereiro de 2013

 Cumprimento os colegas de painel, os senhores convidados, os cantadores e tocadores presentes, e toda a assistência que hoje rumou a Amoreiras Gare , para analisar e debater uma das nossas realidades culturais mais fragilizadas e, porventura,  de maior dificuldade em preservar.

Desde logo, dirijo  uma palavra de apreço à Associação  para o Desenvolvimento de Amoreiras Gare  e à Câmara Municipal de Odemira que assumiram e tornaram possível esta iniciativa, visando estabelecer, a partir daqui, linhas de contacto e uma confluência de vontades que possam trazer à riqueza de que falamos, um presente mais digno e um futuro mais promissor.

Agora, se me permitem, vou fazer uma  breve retrospetiva , daquilo que foi o meu primeiro contacto com a viola campaniça e com os cantos do despique e  do baldão.

Nos finais do ano de 1986, altura em que   era capaz de jurar a pés juntos de que no panorama  etno musical da região baixo-alentejana, nada mais já existia, com vitalidade digna de realce, do que o canto às vozes  também conhecido por “ cante” ou “moda” , tive conhecimento  da existência , na Estação de Ourique , de um tocador e cantador que me disseram saber interpretar algo diferente daquilo que por cá se usava.

Foi assim que conheci, ouvindo cantar e tocar uma viola campaniça, o Sr. Francisco António.

Gravei ,para divulgação na Rádio Castrense,   uns quantos temas que pelo motivo  da surpresa , pela autenticidade e pela excelência das peças, geraram em mim um enorme sentido de inquietação  dada a  responsabilidade que passava, a partir daquele momento, a ter entre mãos.

No mesmo dia, conheci também , na Funcheira,  o  Sr. Manuel Bento e a D. Perpétua que abrindo-me as portas,  interpretaram mais meia dúzia de modas, deixando-me rendido e desde logo empenhado, na promoção e na salvaguarda daquilo a que o Dr. José Alberto Sardinha chamou, com grande propriedade, de “ o outro Alentejo” .

De facto, era e é,  o outro  Alentejo que à data, quase todos desconheciam e outros tantos tinham já esquecido.

No regresso a casa, gizei formas de podermos, na Cortiçol, dar algum alento a esta realidade que era, obviamente, uma preciosidade cultural.

A partir daí e até agora, pelo menos todas as quintas feiras, na Rádio Castrense ouve-se tocar a viola campaniça que através de parcerias e empenhos variados, voltou a ser construída entre nós e tocada por dedos jovens, deixando de ser um instrumento  ignorado, descordoado e coberto de pó,  só tocado, ocasionalmente, por dois ou três velhos mestres no isolamento de quatro paredes.

Mas não tardou em termos na estrada, correndo mundo e levando a campaniça e o encanto dos seus cantares a plateias primeiro curiosas e depois  rendidas,  desde os auditórios da Gulbenkian em Lisboa ao Teatro Carlos Alberto no Porto, dos Açores, ao Canadá ,  o “Grupo de Violas Campaniças” estruturado no âmbito da Cortiçol.

Por esta via, conheci também,  pouco mais tarde, na Aldeia das Amoreiras,  o Sr. António José Bernardo, um talento , um homem para quem, nada  na sua vida, estava à frente do canto de baldão, mas que infelizmente a morte levou cedo demais , deixando-nos  ficar um imenso vazio.

Foi ele , precisamente, quem me proporcionou no verão de 1987, uma tarde inesquecível de espanto, de comoção e de grande admiração, quando me convidou para assistir em sua casa a um cante de baldão, organizado  e oferecido às tensas de  uma filha  sua ter concluído o curso do magistério primário.

De lá trouxe um novo desafio, que era tudo fazer para que o cante de baldão deixasse de ser só um pretexto para uns quantos cantadores  se juntarem, de quando em vez e quase às escondidas , em exercícios de poesia repentista.

Foi  através do “Programa  Património” que passámos a  divulgar  todos os cantos de baldão a que assistíamos e gravávamos , fazendo renascer o gosto generalizado por esta prática, ao ponto de passarem a ser os próprios cantadores a telefonarem, para divulgarmos em direto as suas cantigas.

Ainda agora  assim acontece.

Também, porque era necessário , dar corpo , vitalidade e promover o empenho dos cantadores  e dos  tocadores de campaniça, a Cortiçol , com o apoio do Município, todos os anos, pela Feira de Castro, organiza um Encontro e homenageia um dos artistas, escolhido pelos seus pares.

E já se passaram vinte e muitos anos …

Mas, porque é imperioso valorizar os atuais detentores deste saber e cativar outros  mais novos para garantir a continuidade desta  tradição, o que pode fazer o Poder Local,  para valorizar e estruturar as iniciativas que aqui e ali têm vindo a ser experimentadas?

Apesar de não sermos adeptos da municipalização da cultura, entendemos que a continuidade desta tradição passa, inevitavelmente, por um empenho  objetivo e concertado das autarquias em cujos territórios o cante de improviso existe.

Sem a assunção dessa atitude por parte de quem pode influenciar positivamente a vontade dos  atuais  portadores da arte, estamos a aproximar-nos do colapso do cante repentista enquanto fenómeno cultural ativo. Passaremos depois a ter, simplesmente, meia dúzia de intérpretes disponíveis para atuarem, ocasionalmente, em demonstrações de baldão e por um tempo limitado.

Ora, sendo certo que esta tradição, apesar de estar ainda  bastante arreigada nalguns lugares do nosso território, é evidente que lhe falta já o substrato cultural e humano para que sobreviva entregue ao acaso.

Por essa razão, neste estado de emergência ,é irrecusável  o apoio  autárquico,  de molde a que não aconteça ao baldão a mesma sorte que o despique teve.

Plenamente conscientes de que toda e qualquer intervenção nesta área se reveste de uma enorme complexidade, achamos que tal circunstância não deve suster a ação  e sugerimos a criação de grupos de trabalho de âmbito concelhio , com uma organização sub-regional, que passem a cuidar deste legado.

Tais grupos de trabalho, com representação e  coordenação autárquica, integrarão também representantes das associações culturais locais vocacionadas e representantes dos tocadores e cantadores  que numa perspetiva prática, façam uma abordagem ao passado, ao presente e ao futuro desta tradição.

Ao passado, vão buscar a história, recolhendo memórias,  dados e referências sobre o cante e os cantadores.

Do presente, colhem a realidade , fazendo um levantamento exaustivo dos atuais interpretes.

Para o futuro, perspetivam os cuidados a ter e as praticas a desenvolver de forma a ser garantida a continuidade desta prática cultural.

E todo este trabalho, deverá ser desenvolvido tendo-se  a consciência de que  é urgente fazer-se o elogio, reforçar-se a auto estima, dar-se muito incentivo aos cantadores que ainda temos.

 Por outro lado, é premente serem desenvolvidas ações de divulgação ao nível das freguesias, pensadas e coordenadas, visando a promoção e a valorização do cante dentro da sua área geográfica.

Finalmente, deve ser cuidada a passagem do testemunho, através da sua aprendizagem em ateliers de cante e  de ensino da viola campaniça.

Concomitantemente, todo este trabalho deve ser perspetivado, para além da sua vertente prática imediata, com o objetivo de ser assumido pelos parceiros um Plano de Salvaguarda para o nosso cante repentista e o registo do mesmo e dos toques  à campaniça, no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

 José Francisco Colaço Guerreiro / Cortiçol

domingo, 24 de fevereiro de 2013

DEPOIS DA CEIFA


ABRE-TE CAMPA SAGRADA 

                                                                                            José Francisco  Colaço Guerreiro

 O estio tinha vindo  temporão  e os trigais aloiraram mais cedo. No ar, o cheiro dos pastos  e das  searas maduras começou a sentir-se , quase um mês antes da época devida,  quando a meio da tarde se  levantava a maré e os ventos  passavam  perfumados pelos aromas  dos campos a ressequir.

Pelos cheiros e pelas vistas, os almocreves  pressentiam o aproximar do tempo das ceifas . Olhavam os céus , miravam o horizonte e  ao por do sol , tiravam sinais. Todos os dias, entravam nas semeadas e  apanhavam uma espiga ao acaso para esbrugarem na palma da mão.  Depois sopravam  deixando  ficar só o grão e  assim  já sabiam a grada da semente, calculavam as fundalhas  , avaliavam  a oportunidade do inicio das colheitas e disso tudo,   davam  conta aos patrões.

Não tardaria a haver trabalho, durante quase dois meses, para aqueles que nas empreitadas ou à jorna, tivessem  forças para aguentar  o manusear da foice e as farpas do sol  cravadas nas costas, todo o santo dia.

Os seareiros, as mulheres e os mais idosos ficavam sempre pela aldeia, resignados às pagas fracas dos lavradores dali .

Os mais vigorosos, abalavam estrada fora, manta às costas, balsa ao ombro, direito às terras dos barros onde os suplícios do corpo podiam ter  melhor preço. Despediam-se da família como se fora para sempre, sem dia de regresso marcado, sem contactos possíveis para além de uma notícia ou outra, levada ou trazida por um portador de acaso.

Na véspera da abalada, o Florival, um cantarrista afamado, bebeu e abalou  a moda toda a tarde e noite dentro, na venda do Encarnadinho. Doía-lhe a alma por ter de  deixar a mãe velhota sem o seu amparo, sem ter quem lhe carregasse uma quarta de água, sem ter sequer quem lhe migasse as sopas. Ficava sozinha,   entregue à boa vontade das vizinhas que por ela olhariam como pudessem .

Mas os fiados que tinha eram muitos, à conta das sacas de farinha, do azeite e do petróleo, dos copinhos e das onças de tabaco, consumidos durante meses  a fio, sem ter como os pagar.

E numa madrugada lá foi ele, mais meia dúzia , cantando a moda,  rumo a norte, por caminhos sem nome, sem destino certo. A tristeza fazia-os cantar mais do que as alegrias. Sempre fora assim.

Passado mais de  um  mês de tormentas em mares de trigais e cevadas, naufragado em ondas de calor, com as roupas retesadas pelo suor destilado  nas fornalhas do trabalho, o Florival com mais meia dúzia de ganhões, estavam de volta a casa  . Vinham cantando do rijo,   ele agora satisfeito pelo regresso e  por poder pagar as dívidas com o  que   trazia  na algibeira da  garibalda,  apertada com a  pregadeira que lhe tinha tirado os  bicos dos mil cardos espetados nas mãos ao agarrar o pão para o traçar com a foice.

Mas  mal chegaram aos arrabaldes  da aldeia, a sua voz foi notada e toda a gente estremeceu. As mulheres saíram dos postigos e  vieram para a rua de mãos na cabeça. Na venda, os homens calaram a moda e  juntaram-se em magotes  cá fora.

Dois deles, mais afoitos ou com melhor perna, caminharam ao  encontro dos cantadores  ,  a passos largos, para lhes darem a conhecer a novidade.

O ar grave que levavam , antes que falassem, já tinha revelado que se tratava de uma má nova. Depois dos cumprimentos breves , um ,  disse que a mãe do Florival  tinha morrido e o outro completou a noticia, dizendo que ela se tinha afogado no poço da horta, havia três dias.

O  ganhão, varado pela dor,  sentou-se  numa rocha à beira do caminho e lá quis ficar só.

Mais tarde,   ergueu-se e lançando o olhar em direção ao cemitério da aldeia, como que retomando a moda interrompida  ou como que rezando a seu jeito,  cantou baixinho:

“Abre-te oh  campa sagrada

Que a minha mãe quero ver

Quero-lhe beijar o rosto

Antes de a terra o comer”

 

(Texto escrito para o ultimo CD do Vitorino e Janita Salomé )

A VIOLA CAMPANIÇA TEM FUTURO

Pedro Mestre, Manuel Bento, José Diogo e David Pereira

TOCADOR DE CAMPANIÇA

António Costa

OS MAIS NOVOS CANTADORES DE BALDÃO


OS NOVOS TOCADORES DE VIOLA CAMPANIÇA

 Atuando no Congresso de Canto de Baldão

MANUEL BENTO

O mestre Manuel Bento esteve presente e tocou, no Congresso do Canto do Despique e Baldão em Amoreiras - Gare

sábado, 23 de fevereiro de 2013

RESTAURO EXEMPLAR

Castro 

CASTRO


RUA DIANTE

Castro 

CASTRO

Igreja das Chagas

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

DO BAÚ

Tivemos no Programa Património, mais uma vez, a companhia do grupo musical " Cantigas do Baú" para assinalarmos os 15.0000 membros do grupo do facebook - ATG - Alentejo Terra e Gente

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TOQUES E VOZES QUE ADMIRAMOS

Os tocadores : António José Bernardo, Manuel Bento e Francisco António e
as cantadeiras ; Mariana, Maria e Alice
com outros que aqui não estão, foram determinantes no trabalho que permitiu fazer chegar a viola campaniça e os cantares a ela associados, até aos dias de hoje.

TOCADOR DE VIOLA CAMPANIÇA

Trabalho de Joaquim Rosa

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

AS CAMPONESAS

Serão de Cante Alentejano organizado pelos "Ganhões" - imagem de António Casqueira

CANTE DE BALDÃO

No ultimo Programa Património, tivemos um Cante de Baldão com os cantadores : Vitor Palma, Ferreirinha, Manuel Graça, Amilcar da Zambujeira, Joaquim Bento e José Manuel do Ribeiro.

VIOLA CAMPANIÇA

No ultimo Programa Património, o David Pereira acompanhou o cante de baldão à campaniça