segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PASSADO, PRESENTE E FUTURO DO NOSSO CANTO DE IMPROVISO



CONGRESSO DOS CANTOS DE DESPIQUE E BALDÃO 

Amoreiras-Gare, 23 de Fevereiro de 2013

 Cumprimento os colegas de painel, os senhores convidados, os cantadores e tocadores presentes, e toda a assistência que hoje rumou a Amoreiras Gare , para analisar e debater uma das nossas realidades culturais mais fragilizadas e, porventura,  de maior dificuldade em preservar.

Desde logo, dirijo  uma palavra de apreço à Associação  para o Desenvolvimento de Amoreiras Gare  e à Câmara Municipal de Odemira que assumiram e tornaram possível esta iniciativa, visando estabelecer, a partir daqui, linhas de contacto e uma confluência de vontades que possam trazer à riqueza de que falamos, um presente mais digno e um futuro mais promissor.

Agora, se me permitem, vou fazer uma  breve retrospetiva , daquilo que foi o meu primeiro contacto com a viola campaniça e com os cantos do despique e  do baldão.

Nos finais do ano de 1986, altura em que   era capaz de jurar a pés juntos de que no panorama  etno musical da região baixo-alentejana, nada mais já existia, com vitalidade digna de realce, do que o canto às vozes  também conhecido por “ cante” ou “moda” , tive conhecimento  da existência , na Estação de Ourique , de um tocador e cantador que me disseram saber interpretar algo diferente daquilo que por cá se usava.

Foi assim que conheci, ouvindo cantar e tocar uma viola campaniça, o Sr. Francisco António.

Gravei ,para divulgação na Rádio Castrense,   uns quantos temas que pelo motivo  da surpresa , pela autenticidade e pela excelência das peças, geraram em mim um enorme sentido de inquietação  dada a  responsabilidade que passava, a partir daquele momento, a ter entre mãos.

No mesmo dia, conheci também , na Funcheira,  o  Sr. Manuel Bento e a D. Perpétua que abrindo-me as portas,  interpretaram mais meia dúzia de modas, deixando-me rendido e desde logo empenhado, na promoção e na salvaguarda daquilo a que o Dr. José Alberto Sardinha chamou, com grande propriedade, de “ o outro Alentejo” .

De facto, era e é,  o outro  Alentejo que à data, quase todos desconheciam e outros tantos tinham já esquecido.

No regresso a casa, gizei formas de podermos, na Cortiçol, dar algum alento a esta realidade que era, obviamente, uma preciosidade cultural.

A partir daí e até agora, pelo menos todas as quintas feiras, na Rádio Castrense ouve-se tocar a viola campaniça que através de parcerias e empenhos variados, voltou a ser construída entre nós e tocada por dedos jovens, deixando de ser um instrumento  ignorado, descordoado e coberto de pó,  só tocado, ocasionalmente, por dois ou três velhos mestres no isolamento de quatro paredes.

Mas não tardou em termos na estrada, correndo mundo e levando a campaniça e o encanto dos seus cantares a plateias primeiro curiosas e depois  rendidas,  desde os auditórios da Gulbenkian em Lisboa ao Teatro Carlos Alberto no Porto, dos Açores, ao Canadá ,  o “Grupo de Violas Campaniças” estruturado no âmbito da Cortiçol.

Por esta via, conheci também,  pouco mais tarde, na Aldeia das Amoreiras,  o Sr. António José Bernardo, um talento , um homem para quem, nada  na sua vida, estava à frente do canto de baldão, mas que infelizmente a morte levou cedo demais , deixando-nos  ficar um imenso vazio.

Foi ele , precisamente, quem me proporcionou no verão de 1987, uma tarde inesquecível de espanto, de comoção e de grande admiração, quando me convidou para assistir em sua casa a um cante de baldão, organizado  e oferecido às tensas de  uma filha  sua ter concluído o curso do magistério primário.

De lá trouxe um novo desafio, que era tudo fazer para que o cante de baldão deixasse de ser só um pretexto para uns quantos cantadores  se juntarem, de quando em vez e quase às escondidas , em exercícios de poesia repentista.

Foi  através do “Programa  Património” que passámos a  divulgar  todos os cantos de baldão a que assistíamos e gravávamos , fazendo renascer o gosto generalizado por esta prática, ao ponto de passarem a ser os próprios cantadores a telefonarem, para divulgarmos em direto as suas cantigas.

Ainda agora  assim acontece.

Também, porque era necessário , dar corpo , vitalidade e promover o empenho dos cantadores  e dos  tocadores de campaniça, a Cortiçol , com o apoio do Município, todos os anos, pela Feira de Castro, organiza um Encontro e homenageia um dos artistas, escolhido pelos seus pares.

E já se passaram vinte e muitos anos …

Mas, porque é imperioso valorizar os atuais detentores deste saber e cativar outros  mais novos para garantir a continuidade desta  tradição, o que pode fazer o Poder Local,  para valorizar e estruturar as iniciativas que aqui e ali têm vindo a ser experimentadas?

Apesar de não sermos adeptos da municipalização da cultura, entendemos que a continuidade desta tradição passa, inevitavelmente, por um empenho  objetivo e concertado das autarquias em cujos territórios o cante de improviso existe.

Sem a assunção dessa atitude por parte de quem pode influenciar positivamente a vontade dos  atuais  portadores da arte, estamos a aproximar-nos do colapso do cante repentista enquanto fenómeno cultural ativo. Passaremos depois a ter, simplesmente, meia dúzia de intérpretes disponíveis para atuarem, ocasionalmente, em demonstrações de baldão e por um tempo limitado.

Ora, sendo certo que esta tradição, apesar de estar ainda  bastante arreigada nalguns lugares do nosso território, é evidente que lhe falta já o substrato cultural e humano para que sobreviva entregue ao acaso.

Por essa razão, neste estado de emergência ,é irrecusável  o apoio  autárquico,  de molde a que não aconteça ao baldão a mesma sorte que o despique teve.

Plenamente conscientes de que toda e qualquer intervenção nesta área se reveste de uma enorme complexidade, achamos que tal circunstância não deve suster a ação  e sugerimos a criação de grupos de trabalho de âmbito concelhio , com uma organização sub-regional, que passem a cuidar deste legado.

Tais grupos de trabalho, com representação e  coordenação autárquica, integrarão também representantes das associações culturais locais vocacionadas e representantes dos tocadores e cantadores  que numa perspetiva prática, façam uma abordagem ao passado, ao presente e ao futuro desta tradição.

Ao passado, vão buscar a história, recolhendo memórias,  dados e referências sobre o cante e os cantadores.

Do presente, colhem a realidade , fazendo um levantamento exaustivo dos atuais interpretes.

Para o futuro, perspetivam os cuidados a ter e as praticas a desenvolver de forma a ser garantida a continuidade desta prática cultural.

E todo este trabalho, deverá ser desenvolvido tendo-se  a consciência de que  é urgente fazer-se o elogio, reforçar-se a auto estima, dar-se muito incentivo aos cantadores que ainda temos.

 Por outro lado, é premente serem desenvolvidas ações de divulgação ao nível das freguesias, pensadas e coordenadas, visando a promoção e a valorização do cante dentro da sua área geográfica.

Finalmente, deve ser cuidada a passagem do testemunho, através da sua aprendizagem em ateliers de cante e  de ensino da viola campaniça.

Concomitantemente, todo este trabalho deve ser perspetivado, para além da sua vertente prática imediata, com o objetivo de ser assumido pelos parceiros um Plano de Salvaguarda para o nosso cante repentista e o registo do mesmo e dos toques  à campaniça, no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

 José Francisco Colaço Guerreiro / Cortiçol