segunda-feira, 11 de março de 2013

PENSANDO NO CANTE


A MULHER, O CAMPO  E O CANTO

 
                                                              Por José Francisco Colaço Guerreiro

 

São três caminhos convergentes no largo da moda em feminino. Uma trilogia,  de espaço, melodia e ser que congrega , pelo menos, metade, de todo o nosso imaginário cultural. E esta mesma trindade, esteve desfeita durante décadas. Com a industrialização e a mecanização agrícolas, o campo deixou de absorver o trabalho braçal nas ceifas, nas mondas ou na  apanha da azeitona e pouco a pouco, foi-se  despovoando.

Mudaram-se os hábitos  de vida de um  povo que cantava, nas idas, durante e no regresso do trabalho. Os homens continuaram a dar largas ao seu gosto pelos descantes quando nas tabernas se juntavam ou em grupos se reuniam, mas as mulheres, remetidas à solidão de casa, deixaram de ter ambiente, faltaram-lhes as vozes, para prosseguir a moda.

E assim foi durante anos, décadas.

Acabados os bailes cantados pela modernidade emergente das tecnologias sonoras, extintos os trabalhos no campo, as mulheres deixaram de ter espaço na vida social, para nela exercerem o seu gosto, o seu saber, a sua necessidade de interpretarem colectivamente o cancioneiro.

Prosseguiram os homens o seu afã pelo cante. Cada vez menos no trabalho, só às vezes nas vendas, praticamente, só dentro dos grupos corais.

E com o passar dos anos, à conta de tanto se ver só cantar os homens, havia já quem afirmasse que o cante alentejano era pertença deles, era, em suma, um exclusivo dos corais masculinos.

Mas eis , senão quando, a partir do inicio da década de oitenta, aqui, ali e acolá, as mulheres foram conquistando a liberdade de assumirem, também elas, um papel activo na pratica regular do cantar, integradas em estruturas organizadas, à semelhança do que os homens haviam feito e faziam.

Em termos sócio-culturais, este foi o grande salto, a grande ruptura, a  revolução vencida pelas mulheres do nosso povo, negando a razão àqueles que em nome da tradição, as prendiam  à condição de pessoas desprovidas do direito de se juntarem, de se organizarem, de publicamente  assumirem o protagonismo bastante para cantarem em qualquer lugar a  sua própria tradição.

E hoje, passadas menos de três décadas, até já nos parece impossível que algum dia, em qualquer tempo, não pudessem existir coros femininos, pela circunstância das mulheres terem vivido, pessoal e socialmente proibidas de se juntarem em grupos para cantar a moda, como dantes o faziam, integradas nos ranchos das mondas e das ceifas, nas idas e nas vindas dos campos.