quinta-feira, 28 de março de 2013

QUERO IR CEIFAR CONTIGO

 

  por   José Francisco Colaço Guerreiro

O verão veio temporão naquele ano. Ainda não era tempo para tamanhos calores, mas os braseiros  e os ventos do levante  ressequiram  as pastagens e apressaram o amadurecimento das cearas que ficaram curtas e de bagos falidos. Tudo à roda da vila de Entradas eram espigas por colher .Os lavradores e os seareiros, começaram cedo a fazer as suas contas às fundalhas. Nas conversas das tabernas e do café, nos finais do Maio já se falava das empreitadas e das jornas , com um tanto para os homens e outro tanto para as mulheres e para os moços.

E naquele fim de  tarde, quando pela rua a Rosa bem preparada  passava, de quarta ao quadril, a caminho da Fonte do Linhas, enchi-me de coragem  e perguntei-lhe se já tinha patrão. Ela corou , corámos os dois, mas ainda lhe disse : “quero ir ceifar contigo” !

Passados dias, não sei quantos, quando ela a caminho da fonte, fez por passar de novo, sozinha, à  minha porta, ofereci-lhe uns canudos de cana que tinha feito e  rameado pacientemente com a navalha.

 Em troca, deu-me , mais tarde, de prenda , uma patrona  que depois na ceifa, todos os dias eu usava com as mortalhas e a onça do tabaco.

Combinámos ir pedir trabalho ao mesmo patrão. Mas  tardava a madrugada do dia em que no rancho podíamos ir juntos , estarmos e voltarmos ,só depois do sol cair.

Até que chegou a hora, em que de manhã cedo lá fomos estrada fora e depois de duas léguas andadas, parámos na herdade,  diante de um mar de pão ondulante para vencermos ceifando. Lembro-me de a  ter visto tirar, devagarinho, os canudos rameados da foice  para depois  os colocar nos dedos. Enquanto os ajeitava, um a um, olhava na minha direção por debaixo das abas do chapéu.

A manhã foi um ai, com o coração a bater mais por ela do que pelo custo do trabalho. Ao jantar comemos o conduto  sentados no chão , sem grande proximidade,  mas à distancia em que  um olhar ainda faz sentir a presença do outro.

Mas não tardou muito que o manajeiro consultasse  o relógio e desse um brado : vá arriba!

 O sol já abrasava, o suor molhava os corpos e o macaco mordia os rins, mas mesmo assim ,se pudesse, queria ceifar as minhas margens e as dela.

À merendica , numa paragem breve, voltei a tê-la mais por perto e ganhei o carinho de um sorriso seu. Na pausa, entrelacei  e depois na caminhada da volta dei-lhe , sem que ninguém visse, um colar feito de trigo.

Como paga, quando já no lusco fusco,  o rancho vinha  cantando a moda,  com o mesmo entusiasmo da ida , ela, olhando de soslaio para mim, abalou a cantiga : Dias quentes de Agosto/O sol queima mas não mata/ O suor desse teu rosto/ Parecem pérolas de prata .

Ainda a oiço, como se fosse hoje.

 

( 1 de Maio de 2012 – trabalho para o Livro/CD das Ceifeiras de Entradas)