segunda-feira, 24 de junho de 2013

CANTE ALENTEJANO


CANTE ALENTEJANO  - A  EVOLUÇÃO  DO CONCEITO


                                                  José Francisco Colaço Guerreiro

 Longe vai o tempo em que o cante acontecia a cada esquina, era o bate certo nas tabernas e a companhia das gentes ao longo de cada jornada.

Fluía tão naturalmente como se respirava e era um modo de expressão dos sentimentos, tão verdadeiro, como o próprio olhar. Tanto cantavam os ranchos labutando nas herdades, como se  armava o terno nas lavouras  atras do arado ou se  assobiava a moda tocando um rebanho.

Em conjunto, cantavam muitos, na solidão, cantava um só.  

Mas a realidade socio cultural específica, onde nasceu e ganhou raízes a nossa tradição vocal, transformou-se,   profundamente, com a mecanização da agricultura e deixou de existir,  por completo, com o abandono dos campos e o gradual apagamento do ruralismo.

A partir do início da década de setenta, a prática do cante reduziu-se, quase em exclusivo , às atuações dos grupos corais e praticamente, só dentro deles,  tem sobrevivido o costume de se cantar à alentejana .

Com exceção destes nichos de culto pela moda, onde ainda se  repetem as letras, se veneram as sonoridades e  se perpetua o cancioneiro, hoje subsiste apenas uma vontade morna de se ouvir cantar, ocasionalmente e por pouco tempo, pese embora o facto de estarmos perante uma riqueza nossa em vias de ser considerada património imaterial da humanidade.

A ligação profunda do cante às agruras da vida dos camponeses, provocou, desde  a sua origem, uma clivagem nítida , entre quem cantava a moda e os demais que dela mantinham ( e mantêm),   um determinado distanciamento de resguardo.

E foi este estigma, esta marca do ferrete  social que ao longo dos anos, tem desviado da prática do cante as classes mais favorecidas e aqueles que por via da sua ascensão  individual , cuidam de apagar, ou ao menos disfarçar, as marcas da sua génese camponesa.

Só isto justifica que ora os nossos grupos corais padeçam tanto da falta de vozes e que numa semana, numa qualquer vila do Alentejo, seja possível constituir um coro polifónico com dezenas de elementos.

Trata-se, nitidamente, de uma questão de   estatuto.

Infelizmente, não conseguimos ainda fazer a destrinça entre a prática da tradição coral , daquilo que foi e representava a realidade degradante dos seus protagonistas no passado.

O cante hoje , deve ser tido como  um produto cultural, um património de inestimável valor,   pertença coletiva de um povo e de uma região e não é mais, uma manifestação etnográfica específica do proletariado rural.

Mas para que futuramente se abrace com alma e  sem preconceitos essa nossa prática cultural, é  necessária uma evolução no conceito  e do significado do cante alentejano, exorcizando o pendor negativo que o assombra. È, assim, premente que nas escolas seja demonstrada às crianças a riqueza desta nossa pertença e se promova uma aproximação descomplexada e global dos alentejanos à sua expressão vocal mais autentica.

É por isso,  urgente,  a sua assunção como um bem cultural de todos, uma marca de cariz regional e de  identidade que só pode valorizar quem o canta , libertando-o quanto antes,  da sua ligação à fome, à penúria, à exploração e  à vida inditosa do nosso povo, o que tem, ao longo dos anos, sido uma inconfessada, mas obvia, razão  para o definhamento  continuado dos nossos grupos corais.