quinta-feira, 8 de agosto de 2013

AS DEBULHAS



AS  DEBULHAS

 por  José Francisco Colaço Guerreiro

 
Em volta dos montes e de roda das vilas, buscavam-se  lugares planos, com o terreno firme, de preferência rochoso ,onde se faziam as eiras. As primeiras eram de planta circular , maiores ou menores ,conforme a abastança e o tamanho da corda que prendia as bestas, forçadas a andar de roda vezes sem fim para pisar o cereal, a fava e o grão por descascabulhar.

Se as estrumeiras medravam perto das arramadas e das cavalariças, chamadas “casinhas”, mesmo juntinho   ao casario e para onde desembocavam duas aberturas feitas nas paredes, as eiras, ao contrário, iam-se moldando ,marcando no chão de ano para ano, arredadas da porta .

Tinham de ficar em sitio descampado por mor de apanharem bem o vento e com a orientação devida , para não encherem as casas de palhuço quando as forquilhas de pau se levantavam ritmadas, oferecendo a colheita à maré.

Assim, foi durante séculos, mas assim só é ainda, nalgum ponto mais recuado da serra, onde as máquinas se temem  a entrar e donde os viventes se recusam a sair.

Depois das debulhas  feitas à custa de braço e pateada, entrou em cena a tecnologia. Surgiram as primeiras máquinas debulhadoras movidas à força do vapor, verdadeiros encantos de potência e desembaraço que pelo modo como aliviaram a faina, ganharam a simpatia das gentes. Eram miradas na passagem e admiradas no desempenho.

Tornaram-se vultos de ferro e simpatia , motivos de admiração e de algum afeto, a pontos de serem designadas por um  nome próprio . Era a “pintassilga”. Era a “caminheira”. Eram outras mais que de caldeira acesa  percorriam as eiras das freguesias.

Anos depois, vieram as debulhadoras  fixas mais ligeiras, de cor amarela no seu  tabuado.

Ceifado o pão e depois  de enroleirado, era carregado para as ditas eiras. Só para as maiores que se enchiam de medas , dispostas conforme a variedade do cereal e segundo a dimensão da labuta.

Na vila, havia debulhas no largo da feira e na eira da máquina, para onde os seareiros transportavam em carros e carrinhas a pequenez das suas colheitas.

Mas as debulhas tinham grande encanto. Faziam soltar o sortilégio da abastança mesmo que esta fosse curta. Representavam o momento efetivo da devolução pela terra, em forma de semente, do trabalho nela investido em canseiras múltiplas.

Contavam-se as fundalhas. Corriam nas conversas as finezas e as desgraças de todas as searas. Este fundiu bem, aquele nem dobrou a semente. Foi por mor da chuva, porque não espigou, pegou-lhe a aforra, não foi bem tratado, faltou-lhe o guano, a sementeira traçou-lhe logo um mau fim.

E dantes os anos, muitos anos à fio, eram ruins. Feitas as contas, não sobrava nada.

Mas apesar disso, as debulhas tinham o tal  sortilégio de provocar encanto e de desenvolver uma mística de alguma paixão bucólica.

Esperava-se com frenesim a chegada da máquina e contavam-se os dias que faltavam para a ver aproximar-se , lentamente, bamboleando-se, de tombo em tombo ,pela estrada velha. Lá vinha toda aquela arrearia ,toda aquela gente, todo o movimento que o pessoal da máquina ,durante dias, gerava no monte sempre sossegado.

Encostavam a debulhadora  à primeira meda, descarregavam a torgia, acilhavam, travavam  os rodados de ferro, preparavam tudo com o preceito sabido.

Diante da máquina, à distancia da correia de lona grossa, tomava posição o trator que depois, dias a fio, fazia zunir as engrenagens. Mais afastada ainda, ficava a barraca, melhor dizendo, um toldo, feito de sacas esticadas  atadas nas extremidades de quatro paus. O bastante para fazer sombra. Juncava-se o chão para dar fresquidão e por ali ficavam as quartas de água e uns banquinhos. tipo mochos, onde o pessoal vinha desencalmar quando era rendido.

O tratorista, andava por ali, para observar o maquinismo. O saqueiro, aparava a semente, despejava os alcofões dos desperdícios, contava os sacos e tirava a maquia. Lá em cima, mais perto do sol ,andavam os fiscaleiros e os alimentadores, tentando atafulhar a goela larga da debulhadora. Mas ainda cá em baixo, mais perto do inferno, sofria o homem da munha, coberto de pó, enroupado com sacas, empapado em suor, aparando os restos que o fagulheiro deitava.

À sombra do toldo juntavam-se também os cães do monte, um gato ou um galo que o pessoal da máquina gostava de trazer.

Como   eles, os moços procuravam o fresco do verde. Com a junça e na hora do descanso os homens mais habilidosos faziam artes. Tranças, cestinhos e bastões que pareciam ir nascendo de uma magia qualquer.

De quando em vez, feita certa  conta de sacos, o saqueiro tocava um apito para a rendição.

Enquanto as medas minguavam iam nascendo e crescendo os  cavalos e depois, as serras de palha .Eram os trabalhadores da casa, com a  de cabeça tapada por um capuz de sapec que iam arrastando a palha com um rodo puxado por uma parelha de muares  para o sítio apropriado.

À noite, depois da ceia, ia-se dormir à eira, ao relento, embrulhados na palha caso refrescasse.

Passados dias, o monte voltava a esmorecer, quando era chegada a hora de vermos partir ,bamboleante ,aos tombos ,pela estrada velha, a máquina debulhadora amarela e no pó da estrada, ficava por um tempo, o rasto de uns dias diferentes que irradiavam a magia da abastança, mesmo que aparente.