terça-feira, 13 de agosto de 2013

GRUPOS CORAIS



GRUPOS CORAIS – É TEMPO DE MUDAR DE RUMO

                                          

                                                                              Por   Colaço Guerreiro

 

Os poderes assistem  impávidos e praticamente indiferentes à delapidação ,ao apagamento e até mesmo ao aviltamento do  património mais rico desta terra e da nossa gente. Falta-lhes claramente a consciência da importância  que o cante tem  como elemento socialmente agregador  , parecem estar destituídos da noção do valor que é inerente à expressão vocal do nosso povo, mostram-se alheados do seu estado e também dos cuidados que deveria haver para tornar mais sólida essa nossa matriz cultural .

Não planeiam ,não projetam e por isso não executam nenhuma estratégia  de valorização do cante . Não buscam encontrar com os protagonistas medidas a adotar no sentido do favorecimento  da afirmação da moda . Recusam-se a dar um tratamento ao cante que tenda a projeta-lo  para o nível de  prioridade  cultural primeira .

 Assim ,aos Grupos não é conferido estatuto artístico e quando para eles olham ,mesmo sem desdenhar, nunca lhes conferem  importância  em termos orçamentais ou logísticos e muito menos no que respeita à consideração e ao afeto que lhes deviam merecer.

Qualquer Grupo Coral supera em numero de  elementos, em entrega, em atuações e em representatividade  o plantel do grupo de futebol local , mas  a todos é fácil constatar quais os apoios que anualmente estão reservados a um e a outro. Enquanto assim for ,e só deixará de o ser quando a atual  atitude  for modificada , uns são  atletas ,vedetas, campeões e os outros são os coitados que cumprem um quase dever de arrastar consigo o peso duma tradição a que só às vezes e quando dá jeito importa lembrar e enaltecer. Também por isso , a participação ou  a  simples identificação com o fenómeno bola  é querida e invejada , sendo, ao invés, a motivação pelo cante progressivamente arredada das  preferências da nossa gente ,em particular, da juventude .

Sabemos que o problema em questão é  de grande complexidade e de difícil solução ,mas consideramos também que  ,por isso mesmo, não se pode deixar passar, passivamente ,  mais tempo sem que nada se faça para evitar a sangria de emoções presente que irá inevitavelmente  transformar um fenómeno cultural de massas  numa pratica restringida à intervenção de uns poucos  que por razões específicas conseguiram  resistir às adversidades e temporariamente  manterão o cante ainda vivo com maior ou menor rigor. 

Desta realidade não cabe  a responsabilidade em exclusivo aos poderes e referimo-nos a todos, mas não podemos ignorar que são eles que tudo influenciam e quase tudo determinam.

Também não queremos acusá-los de terem deliberadamente movido contra o cante um processo persecutório, mas não podemos deixar de constatar que  quando  se interessam pelos Grupos ou pela moda  o fazem sempre de um modo frouxo, parecendo-lhes que já dão mais que a conta, deixando sempre evidenciar uma atitude de algum distanciamento que resulta não de cautelas políticas mas antes de preconceitos socioculturais. Há tiques que são indisfarçáveis e  há atitudes que são bem denunciadoras do real conceito que têm do trabalho cultural e da valia artística dos corais. Existe efetivamente  um tratamento pouco empenhado, aligeirado e às vezes oportunista  relativamente  aos Grupos quando os consideram gente que canta só por cantar e que sempre o fizeram daquele modo , incondicionalmente ,a troco de coisa nenhuma ,só para aliviar as suas mágoas ou tensões .

A génese  do cante , o meio em que se desenvolveu e  o suporte  socioeconómico que lhe emprestou a alma , são, porventura, as razões principais do tratamento menor que os poderes lhe destinam. Os colarinhos brancos nunca cantaram a moda ,só excecionalmente se misturaram com ela e ainda agora assim o é .Uma  estratificação social tão vincada como foi e ainda é a nossa ,criou barreiras que isolaram a moda no domínio dos esforçados, no mundo dos deserdados do ter, sem que a força das raízes ou a luz do intelecto tivessem até agora conseguido romper brechas nas muralhas do seu isolamento.

Os Grupos começam  a encontrar pela primeira vez o seu rumo e a sua organização conducentes ao estabelecimento de critérios para unificarem o seu proceder visando a  dignificação da sua expressão vocal e consequentemente a nossa identidade .É altura de lançarem um olhar sobre si mesmos ,refletirem, melhorarem a conduta e o especto e discutirem regras e condições de participação em quaisquer eventos. Chegou o tempo de não  pedirem  nem   pagarem para os deixarem cantar. Devem aprender com os erros do passado e não embarcar à toa atras de convites onde o cante é só um pretexto para encher cartazes de festas ou engrossar manifestações  , mesmo que tenham por lema a defesa da tradição ou a cultura popular .

É tempo de se olhar para os Grupos Corais como agentes culturais de grande mérito  e considerar-se arte de grande valia a atividade que desenvolvem.

É tempo de  estimarmos o seu trabalho e invejarmos a sua produção.

É tempo de  os Grupos Corais se afirmarem como parceiros culturais privilegiados em cada concelho e a moda alentejana ser considerada património cultural do Alentejo.