sexta-feira, 9 de agosto de 2013

SEMPRE O CANTE


I CONGRESSO DO ALENTEJO

 

Beja,8/9  de Novembro de 1997

 

 

CANTE : Organizar para Fortalecer

 

                                                  por   José Francisco Colaço Guerreiro

                                                                                (Cortiçol)

 

O nosso cantar tradicional , cuja valia presente e futura parece ser inquestionável, provém de uma época marcada por uma envolvência  social, económica e cultural bem diversa da realidade actual. Podemos dizer que as vivências que enformaram o seu estilo , ditaram a sua poesia e vincaram as suas sonoridades , há muito que deixaram de  fazer parte do nosso quotidiano.

Desde então,o cante perdeu  a sua função real, desprendeu-se da sua ligação à vida ,é agora, uma projecção virtual da nossa memória colectiva.

 Por isso, a moda , não é mais o espelho reflector do sentir corrente e  assim, permanecerá incólume ao passar do tempo ,encerrando como um sacrário os elementos agregadores da nossa identidade,a mística da nossa paixão por esta terra.

Sem receber a seiva do labor e tendo quase perdido a sua utilidade no ócio, o cante ainda perdura como manifestação cultural pujante entre a nossa gente, graças à persistência estóica dos Grupos Corais que indiferentes às contrariedades e sem ligar a fraquezas, mantêm viva essa forma sublime de expressão.

De facto ,do nosso ponto de vista, são os actuais centro e doze Corais, os grandes intérpretes da moda e os  guardiões efectivos da nossa tradição vocal já que, desapareceram os ambientes onde de um modo natural e espontâneo desabrochavam e se expandiam os nossos cantares . Por conseguinte, devemos cuidar de olhar  atenta e cautelosamente para essa realidade aparentemente ainda fulgurante, mas, intrinsecamente, muito volátil e frágil.

O acaso ou circunstâncias imponderáveis têm determinado o surgimento e o desaparecimento dos Grupos Corais, sem que ,salvo o acometimento interesseiro e pontual das instrumentalizações políticas, tivessem logrado beneficiar de quaisquer intenções sistematizadas de apoio. Poderá dizer-se, sem forçar a nota, que o seu cantar tem sido de autentica resistência porque só assim  a generosidade é tanta e o sacrifício que lhes é exigido é suportável.

Padecem por mil queixas ,persistem pela vontade, insistem só pelo gosto do cantar,de deitar cá para fora os sons aprendidos há gerações , as vaias que se repetem  e ainda nos trespassam com a mesma intensidade de ontem.

Importa,assim ,organizar para fortalecer esta corrente de lembrança,este movimento de cultura autentica, sem o que continuaremos carentes de afirmação, falhos de meios, distantes até da dignidade com que deviam ser tratados.

Consideramos que se nos impõe colocar no horizonte dois objectivos tendentes a possibilitar a inversão do panorama actual no que respeita  ao cante :

-Primeiro : Iniciar um movimento de opinião que conduza à classificação do cante como património do Alentejo;

-Segundo : Desenvolver ,subsequentemente ,um trabalho de afirmação junto das autarquias para que os Grupos Corais venham a ser reconhecidos como parceiros culturais privilegiados.

De uma situação e de outra , resultará a necessária dignificação do cante e dos seus intérpretes, conduzindo a que sobre eles se lance um olhar diferente , abrindo por arrastamento, a porta à captação dos mais novos para as nossas fileiras ,já que a sua ausência, é das razões maiores da nossa  preocupação.

Todavia, com os meios de que dispomos e com a força que temos, não lograremos ir para além dos limites da continuidade.

Importa que nos juntemos, que prossigamos de ora avante o diálogo e o debate iniciados neste Congresso, ganhando estrutura, arrebatando confiança, desenvolvendo a nossa capacidade organizativa.

Consideramos que a fundação de uma Federação agregadora dos Corais actuais e dos vindouros, poderá encontrar a resposta para os nossos anseios presentes e para as dificuldades futuras. Será um órgão de reivindicação e de diálogo com os Poderes. Será um meio de articularmos as nossas actividades, um elo a ligar as nossas iniciativas , um veículo de comunicação entre os grupos para quebrar o seu isolamento.

Parece-nos,por conseguinte,que a bondade do surgimento de uma Federação do Cante Alentejano é obvia, mas também julgamos não ser este o momento ideal para a sua constituição. Aliás, presentemente, a esmagadora maioria dos Grupos não está legalizada, não tem personalidade jurídica e,por conseguinte, ficaria à partida, arredada deste processo que todos pretenderão participado.

Logo, consideramos que na sequência da conclusão destes trabalhos que serão pela certa uma grande referência para a história do cante, os Grupos Corais deverão eleger um orgão representativo,um Secretariado  que terá por função criar condições práticas,materiais e jurídicas ,bastantes para que, ao cabo de um ano de actividade , seja constituída a Federação do Cante.

Teremos, então, de pé a fortaleza onde podemos albergar os sonhos  da nossa esperança  num cante possível para além da distancia dos quereres actuais. Contaremos, então, com a força criadora do pensar colectivo,com a invenção de caminhos para sairmos deste atasqueiro em que os Grupos se atolam e donde só poucos conseguem livrar-se.

Ganhando novo fôlego, saberemos empreender novas metas de exigências e  apostaremos com mais firmeza na autenticidade, no porte e até no brio essenciais a uma imagem mais condigna com a elevação que às vozes sabemos dar.